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Como selecionar música para ouvir sob efeito de LSD, segundo alguém que trabalha com isso

Desde tempos distantes, o LSD tem sido intimamente associado à música. Esta associação, no entanto, varia de grau com o desenrolar dos anos. No passado, a droga sintética foi “apenas” o combustível que varreu o Verão do Amor e ergueu o mito de Woodstock. Atualmente, com o avanço da ciência, essa relação vai ainda mais fundo, e pesquisadores já afirmam que tomar a droga escutando a playlist certa pode maximizar o efeito neurológico da experiência de ingestão.

O neurocientista Mendel Kaelen, que está realizando um PhD em neurociências na Imperial College, conduziu diversos estudos que investigam a influência combinada de música e drogas psicodélicas, tendo como base experimentos com usuários humanos. Nestes experimentos, tem sido responsabilidade de Kaelen (entre outras coisas) montar a playlist que embala a história, sempre primando pela imersão dos usuários testados. É uma tarefa que requer sensibilidade criativa e, ao mesmo, respeito a um rigoroso quadro de procedimentos técnicos.

Mendel Kaelen

O neurocientista Mendel Kaelen. Foto: arquivo pessoal.

A ideia de incorporar música na terapia psicodélica não é nova e já era explorada por musicoterapeutas na década de 60, mas Kaelen está tentando fundamentá-la numa estrutura científica mais sólida e menos aleatória. O objetivo final, segundo ele contou, é entender com precisão como o som pode maximizar positivamente os efeitos do LSD e transformar a droga, ainda vítima de preconceito dentro da própria comunidade científica, em uma potencial combatente de distúrbios como a depressão.

Todo mundo doidão e cientificamente rastreado

Antes que possamos imaginar terapeutas muito loucos dando LSD e um par de fones de ouvido para pacientes em depressão, é importante entendermos alguns pontos básicos sobre os efeitos combinados de música e substâncias psicodélicas.

Em um estudo piloto, publicado em 2015 na revista Psychopharmacology, Kaelen e seus colegas testaram uma hipótese simples, inspirada na psicoterapia dos anos 1950 e 1960: o uso de psicodélicos intensifica a resposta emocional à música?

No estudo, dez voluntários ouviram cinco faixas instrumentais em duas ocasiões. Na primeira vez, eles ingeriram um placebo; na segunda, foi-lhes dado o LSD. Nas playlists deste primeiro teste, havia faixas neo-clássicas e de ambient music de artistas como Brian McBride, Ólafur Arnalds, Arve Henriksen e Greg Haines, tomando sempre cuidado para que as faixas não fossem familiares aos ouvintes. Segundo Kaelen, oferecer músicas que ativassem lembranças diretas nos ouvintes poderia poluir o experimento.

Os participantes então ouviam as faixas – dopados e sãos – e classificavam as canções dizendo o quanto a escuta havia os afetado quanto a diferentes sentimentos. No fim, os pesquisadores constataram que os ouvintes relatavam uma resposta emocional à música significativamente mais elevada quando ingeriam LSD e que as emoções relacionadas à “maravilhamento”, “transcendência”, “ternura” e “poder” eram particularmente afetadas.

LSD e Música

O gráfico mostra as classificações médias para diferentes emoções evocadas pela música sob efeito do placebo e do LSD. Imagem: M. Karlen et al, Psychopharmacology.

Os pesquisadores concluíram ainda, em decorrência do que observaram, que a droga poderia maximizar os efeitos da musicoterapia em pacientes que tivessem mais dificuldade em responder a simples impulsos sonoros. Pacientes muito tímidos ou mais conservadores, que poderiam resistir mais em embarcar na viagem da terapia com música, poderiam ser artificialmente induzidos para o melhor desenvolvimento dos tratamentos necessários. Bastaria colocar o LSD em cena.

Kaelen e seus colegas foram além. Na sequência do estudo-piloto, apelaram para rastreamentos com tecnologia fMRI e MEG para mapear pela primeira vez o cérebro humano sob efeito de LSD. Vinte voluntários foram injetados com 75 microgramas de LSD e tiveram seus cérebros escaneados durante a “viagem psicodélica” que tiveram. Enquanto a droga agia, os participantes passaram por períodos de silêncio e por períodos de audição musical. Então os pesquisadores descobriram uma ligação entre a música e o tipo de visões que as pessoas têm quando estão sob o efeito da droga. Tecnicamente, descobriu-se que o fluxo de informação entre o córtex parahipocampal e o córtex visual fora reduzido sob LSD. Rasteiramente falando, o LSD facilitava a recuperação de imagens da memória. Sob efeito de música, essa recuperação era multiplicada ainda mais. O estudo começava a ficar mais complexo. Música e LSD formavam mesmo um combo rico para a exploração da mente.

Cérebro LSD

As zonas do cérebro 1) em estado normal; 2) com LSD e música; 3) somente com LSD; 4) somente com música. Imagem: M. Kaelen et al, European Neuropsychopharmacology.

E como as músicas desta etapa de estudos foram selecionadas?

“Inicialmente eu queria trabalhar só com música neoclássica tida como ‘emocionalmente muito forte’. Mas aí, considerando o ambiente desafiador onde as pessoas ficariam, dentro de um scanner, eu conclui que não seria uma boa ideia expor elas a muita intensidade. No fim, eu acabei selecionando músicas que eu julgava terem uma atmosfera geral relaxante e positiva – principalmente músicas de um artista de ambient music chamado Robert Rich.” Mendel Kaelen, neurocientista que trabalha com experimentos de música e LSD.

Robert Rich e Lisa Moskow têm um trabalho colaborativo de 1995 que foi muito utilizado durante os estudos. “Havia ali um monte de instrumentos bem típicos da ambient music – como sintetizador e flauta –, mas havia também instrumentos com linhas melódicas claras que as pessoas poderiam seguir mentalmente”, disse o neurocientista, aparentemente, um fã. “Robert Rich é incrível porque é pioneiro em fazer da música uma forma muito potente de trabalhar com estados alterados da mente do ouvinte”, disse ele, lembrando dos “sleep concerts” (concertos do sono), onde o artista tocava para um público sonolento.

Onde o LSD e os experimentos podem chegar?

O principal objetivo da equipe do Imperial College é explorar como os efeitos psicodélicos combinados poderiam ser usados em um contexto terapêutico. A pesquisa mostrou que, utilizado sob a orientação de um terapeuta, este efeito combinado poderia ser útil no tratamento de doenças como a depressão, a ansiedade e a dependência.

Antes de entrar neste estudo, Kaelen havia participado de um ensaio clínico com administração de psilocibina – o composto psicodélico presente nos “cogumelos mágicos” – junto a pacientes com depressão.  Estes pacientes estavam resistentes ao tratamento clássico e tiveram os seus resultados melhorados quando a decoração do quarto foi alterada. Sem o clima asséptico do hospital, o ambiente parecia menos clínico e menos assustador, alimentando uma sensação de bem-estar que produzia efeitos positivos combinada à medicação.

Quarto LSD

Quarto original / quarto adaptado. Imagem: Mendel Kaelen.

Se o ambiente impactava no efeito do tratamento químico, obviamente a música – como parte de qualquer ambiente que se preze – poderia ter um efeito positivo agregado se trabalhada da melhor maneira. Kaelen então debruçou-se sobre a produção científica que encontrou acerca do assunto e, já neste experimento do quarto, elaborou uma playlist que acompanhava os efeitos da psilocibina: primeiro, uma crescente até o pico da experiência e, em seguida, o retorno. “Cada uma destas fases da droga tem uma função específica”, explicou, “e, em cada uma delas, a música cumpre funções bem específicas também”.

O cientista observou, por exemplo, que muitas pessoas ficavam naturalmente nervosas aguardando o efeito da droga logo nos primeiros instantes após a ingestão. Kaelen então selecionou músicas que pudessem ser calmantes neste primeiro momento. Durante o processo de curadoria musical, precisou adaptar algumas faixas, misturando trilhas quando necessário, e nisso pesou a sua experiência como DJ e compositor amador de música eletrônica.

Tanto no experimento com LSD quanto no ensaio com psilocibina, a resposta emocional dos pacientes foi bastante forte. Alguns relataram choro compulsivo, outros relataram pairar sobre sentimento de liberdade, de limpeza ou mesmo de auto-compaixão.

Uma lição importante que Kaelen retirou dos estudos é que, embora cada música carregue consigo uma capacidade sensorial própria, parece ser impossível fazer uma playlist que funcione igualmente para qualquer pessoa. Ele sugere que, no futuro, o terapeuta responsável pela aplicação músico-química encontre algum modo de adaptar o tratamento sonoro ao paciente em questão.

Em última análise, Kaelen disse ainda que algumas pessoas se ligaram muito bem com a música durante os experimentos, e outras nem tanto. Os avançoes ainda não retiraram essa carga de subjetividade do meio do caminho. Aliás, o próprio cientista ainda não tem noção do quanto a subjetividade afeta a ele mesmo durante o trabalho de curadoria das canções. “A seleção das músicas foi realmente muito difícil em cada um dos processos, porque eu nunca sabia se estava disponibilizando a música por ela funcionar comigo ou por ela ter algo intrínseco no seu som”.

Não há realmente uma ciência exata que trate desses dilemas. Pelo menos, não ainda. Quem sabe em breve? Já que a música é desde sempre usada recreativamente como combustível de viagem, seria muito útil usá-la como fármaco de maneira mais matemática. Quem sabe em breve isso também não seja possível? O que sabemos é que, enquanto a ciência não avança, ao menos quanto à música, ainda podemos aderir à automedicação.

Algumas dicas de playlists de ambient music e similares: aqui, aqui e aqui. O post original, sem as edições do New Yeah, em inglês, pode ser conferido aqui.