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Mexrrissey

Por que Los Angeles ama o Morrissey?

O oeste de Los Angeles tem algumas características bem particulares. Entre elas, está o gosto pela cultura mexicana. A grande concentração de latino-ianques encontrada por ali gerou ainda uma segunda característica bem marcante: a adoração local por Morrissey, ex-vocalista dos Smiths. Entre ruas e placas californianas com nomes latinizados, a melancolia de Moz embala separações e amores perdidos desde a década de 80, e canções como “Suedehead” e “The More You Ignore Me, The Closer I Get” já saíram do simples panorama musical para figurarem no cenário urbano e nos mais profundos costumes da cidade. É possível dizer que Morrissey está para L.A. assim como Bowie está para Berlim.

Mexrrissey

Foto de espetáculo do projeto Mexrrissey, que performa canções de Morrissey cantadas em espanhol: o sucesso do grupo em Los Angeles é apenas um dos fenômenos da cidade a misturar a cultura latina com a obra do ex-líder dos Smiths. (Foto de Roger Alarcon)

O bar Eastside Luv, por exemplo, na região de Boyle Heights, sediou durante muito tempo uma noite temática de karaokê onde só se cantava Morrissey. A chamada MorrisseyOKE era repleta de mexicanos que cantavam as canções de Morrissey até serem expulsos pelo dono do bar. O club Part Time Punks, próximo dali, é a sede de uma noite bimestral de Morrissey e, mais recentemente, o Melody Lounge, em Chinatown, inaugurou um evento semelhante a estes outros dois que já relatei.

Além desses bares onde a obra de Moz e dos Smiths pode ser encontrada e apreciada à exaustão, existe a convenção anual promovida pela rádio alternativa KROQ. E, mesmo quando não é “época de Morrissey”, as bandas Sweet and Tender Hooligans, Mexrrissey e These Handsome rodam os bares da cidade fazendo covers. Curiosidade: em todas as bandas há pelo menos um músico latino. Teria Morrissey algum tipo de appeal junto aos latinos de L.A.? Aparentemente, sim. A paixão pelo vocalista é geral na cidade mais populosa da Califórnia, mas visivelmente encontra o seu ponto mais vistoso junto aos fãs latinos que moram por ali.

ACIMA, o Eastside Luv em noite de MorrisseyOKE, em 2012: gritos em inglês e espanhol acompanham os cantores desafinados que passam pelo palco.

Intrigado por este fenômeno, pedi ajuda à Nancy Marie Arteaga, uma fã alucinada do Moz, para encontrar outros grandes fãs que tentaram esclarecer para mim de onde vem tamanha febre dos latinos pelo cantor inglês.

Vivian Guerrero, por exemplo, já foi a aproximadamente 150 shows de Morrissey e tem um autógrafo dele tatuado no braço. Em 2016, ela produziu um bolo temático utilizando imagens do seu ídolo e as fotos da sua criação rodaram o mundo após uma overdose de açúcar na Morrissey Night organizada em junho daquele ano.

Musicalmente falando, ela acha que a obra do artista se parece muito com a música folk mexicana do início do século 20, que também era recheada de temas melancólicos e sensíveis. Segundo Vivian, esses sentimentos mais dramáticos são muito recorrentes na cultura popular mexicana – talvez as novelas ajudem a exemplificar – e isso explicaria o sucesso de Moz no México e junto à parcela latina dos Estados Unidos.

Vivian Guerrero

Vivian Guerrero e seus morrisseys posando em frente à glicose: a paixão musical pelo ídolo inglês ganhou manchetes após ser transformada em comida.

Vivian aponta ainda o momento em que a fanbase mexicana de Morrissey começou a crescer: foi em 1999, quando ele lançou Oye Esteban, uma coletânea de videoclipes. Durante a turnê que carregava o mesmo nome (latino) do trabalho, o cantor teria declarado em um show que “bem que queria ser mexicano”. E Moz parece mesmo disposto a encarnar algumas problemáticas do povo mexicano em terras ianques. Em algumas músicas, ele explora o senso cultural confuso que tantos méxico-americanos contemplam em algum ponto da vida. Desafia também os paradigmas que atordoam os mexicanos em sua relação com os norte-americanos comuns, exposta em passagens onde o preconceito é marcante. A música “Mexico”, por exemplo, fala sobre o privilégio dos brancos: “It seems if you’re rich and you’re white you’ll be alright / I just don’t see why this should be so.” (Parece que, se você é rico e branco, você vai ficar bem / Eu não vejo o porquê de ser assim).

Vivian, antes de me dar tchau, me passou o contato de um grande amigo seu do México, José de Jesús Valderrama, 36 anos, médico em León, que viu Morrissey se apresentar em 43 oportunidades. Conversando com ele, ouvi que o motivo dos mexicanos serem tão obcecados por Morrissey tem a ver com o fato de terem em geral crescido fortemente oprimidos pelo catolicismo e por um forte machismo patriarcal, tipicamente latino. “É fascinante ver um grande homem e artista expressar seus sentimentos com tanta facilidade e desapego, de maneira como nós, homens, sempre fomos educados a não fazer”, disse Valderrama.

Ouvi essa frase de Valderrama e, imediatamente, pensei no meu pai, que era um verdadeiro macho. Ele cresceu nas ruas e era constantemente incomodado por policiais corruptos em Zacatecas. Depois, foi incomodado pelo controle de fronteiras dos EUA nas primeiras vezes em que tentou imigrar para a terra do Tio Sam, lá nos anos 50. Ele sempre me contava essas histórias com muito orgulho, como se cada enrascada fosse uma medalha a exaltar a sua macheza. Além de machão, foi também devoto fiel da igreja católica durante quase toda a sua vida.

Morrissey posa ao lado de um livro de Wilde: a sensibilidade de Morrissey teria influenciado os mexicanos, historicamente reprimidos por dogmas, a finalmente colocarem o seu sentimentalismo para fora.

Morrissey posa ao lado de um livro de Wilde: a sensibilidade de Morrissey teria influenciado os mexicanos, historicamente reprimidos por dogmas, a finalmente colocarem o seu sentimentalismo para fora.

De volta a Boyle Heights, encontrei Robert Zardaneta, de 39 anos. Ele é diretor da Youthbuild Boyle Heights, uma escola alternativa onde uma das aulas estuda a arte como reflexo da sociedade. A aula começa com Zardaneta lendo as letras de Morrissey para a sua turma, que tende a estar repleta de jovens que participam de grupos de grafite na região. “O Morrissey tem esse lado contestador que conversa muito com a cultura do hip hop, que também é muito forte por aqui, explicou.

Zardaneta relatou também como acabou gostando de Morrissey quando era um adolescente na L.A. dos anos 80. “Morrissey era fácil e barato de imitar. Tudo o que você precisava era de um jeans desbotado e de um pouco de gel”, lembra ele, explicando o sucesso do cantor em meio à fatia mexicana de L.A., tradicionalmente detentora de menores possibilidades financeiras. Mas Zardaneta ainda completa: não era só isso. “Se você ouvia Metallica, se sentia durão. Ouvindo Bobby Brown, você se sentia confiante. Morrissey era diferente. Era mais introspectivo e me dizia que era normal eu ser estranho. Estava tudo bem. E compreensão é extremamente importante quando você chega em uma certa idade”.

Talvez Zardaneta tenha razão. Todo adolescente se sente estranho em algum momento. E, conhecendo o cotidiano dos latino-ianques, é possível ter contato com um povo que se sente estranho mesmo fora da adolescência, tamanha é a hostilidade que lhes acompanha durante a vida. Não é de se impressionar que esse pessoal tenha sentido a necessidade de um abraço, que acabou vindo em forma de canção.