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Samira, Winter

Resenha + entrevista: Ethereality, o segundo álbum de Winter

Eu sou um junkie do shoegaze. Para mim, acordes de guitarra bem equalizados e temperados com delay reverso, distorção, terças e sétimas maiores e palhetadas efetuadas com o dedo anelar e mindinho enroscados na alavanca são mais satisfatórios do que qualquer prato gourmet que possa aparecer na minha timeline do Instagram. Mas tem uma coisa que me incomoda em algumas bandas de shoegaze: por vezes, há nelas muito barulho para pouca canção. Não é o que acontece na obra de Samira Winter, meio curitibana/meio californiana, cidadã do mundo.

Samira, Winter

Samira, de perfil, em foto tirada por mim, no Bate, durante a passagem da Winter por Porto Alegre na primavera de 2017.

Pela banda que leva o seu sobrenome, Winter, diversos músicos já passaram, mas obviamente se trata de um projeto capitaneado por ela. No primeiro LP, Supreme Blue Dream, de 2015, era possível reconhecer a influência de My Bloody Valentine, Smashing Pumpkins, e, arriscaria dizer, Cocteau Twins. A música da Winter tinha e continua tendo muitas guitarras, mas antes de tudo é doce, suave, e muito alto astral. No seu segundo disco, Ethereality (2018), a Winter aposta em uma configuração ainda mais pop. As músicas estão com um andamento mais ligeiro e os refrãos estão ainda mais cativantes. Há uma maior aposta em solos de guitarra, mas sem que isso brigue com os vocais.

Conheci a Samira em Porto Alegre, em dezembro de 2017. Acompanhada de sua irmã Victoria na bateria e da dupla Summer Twins na guitarra e no baixo, elas se apresentaram no Bate, casa noturna gaúcha. No set, constavam três músicas que mais tarde eu descobriria que seriam incorporadas ao disco Ethereality: “Alligator”, uma balada com toques de twee pop; “Zoey”, uma homenagem ao gato de Samira; e “You Don’t Know Me”, momento em que as guitarras secavam um pouco e a banda parecia procurar um diálogo com os Breeders. Junto de “All In My Head”, estas são as primeiras quatro faixas do disco lançado neste ano. Pessoalmente elas me parecem ainda presas ao disco anterior e a alguns singles lançados.

Até aqui, tudo ótimo, tudo muito feliz, mas artisticamente a evolução de Winter me parece surgir drasticamente na próxima faixa, que só o disco veio a me apresentar: “Sea Of Love”. Trazendo alguns recursos dinâmicos que encontramos em Siamese Dream do Smashing Pumpkins, Samira dramatiza a alegria inicial do álbum com uma canção que alterna trechos limpos de guitarra com momentos de intensa carga sônica efetuada por muita distorção. Talvez em um esforço para tentar criar dinâmica no disco, a próxima faixa, “Best Of It”, nos leva de volta para o contexto mais bubblegum do começo das primeiras canções. A música é linda, mas eu pessoalmente estava esperando que o disco fosse ter uma narrativa A/B (a primeira metade mais radiofônica e a segunda mais tensa, dramaticamente falando).

Então chega “High School”, e aí vai se tornando cada vez mais claro na obra algo que a Samira costuma repetir em entrevistas: que ela gosta muito de manter viva sua verve adolescente. Eu achei que iria entender o disco a partir do modelo que montei, mas não rolou. Encafifado com essas alternâncias narrativas, decidi interromper a resenha e ir solicitar maiores esclarecimentos diretamente na fonte, para saber o que a Samira tinha a dizer sobre a sua mais nova obra. Abaixo, há um registro da conversa que tivemos.

EU: em comparação com o primeiro disco da Winter, o Supreme Blue Dream, no disco novo dá para perceber um caminho em direção a um pop mais radiofônico. Não digo isso no sentido pejorativo. No primeiro disco, tu já esboçava um estrutura-canção muito bem trabalhada, mas esse segundo trabalho parece ainda mais pop. Além disso, parece que o tema da infância e da adolescência estendida passa a ser central em Ethereality. Seria isso um reflexo do que a dita “geração millenial” está passando? Ao mesmo tempo, tem canções que possuem uma vibe mais madura, talvez não nas letras, mas com certeza na estrutura harmônica, por terem um clima mais dramático, mas “escuro” do que as faixas mais twee. Tu enxerga essa tensão na tua obra?

SAMIRA: eu diria que o disco tem daytime songs e nightime songs. Eu sinto que sempre tive isso com a Winter. Eu escrevo uma música que é mó feliz e mais pop, e daí acabo escrevendo alguma outra coisa mais shoegaze, mais dark, mais pesada, e esse álbum mostra realmente muito isso. Eu até tentei misturar um pouco as músicas. Mas, de qualquer forma, a ideia é que o começo do álbum lembre um dia raiando, e o final do disco deve passar a sensação de noite chegando. Então tem essa tensão, mas eu curto. Eu acho legal, e quando a banda toca ao vivo a gente também tenta usar isso ao nosso favor, pra criar uma jornada, uma experiência.

EU: bah que massa! Não tinha pensado nessa relação dia/noite que acontece no teu trabalho. E ela é até bem óbvia quando a gente escuta o disco do início ao fim. Mellon Collie and The Infinite Sadness, do Smashing Pumpkins, também faz isso e de uma forma bem explícita. São dois CDs, um remetendo ao dia, outro à noite…

SAMIRA: isso! Sobre a outra questão que você colocou, eu não tava pensando muito na nossa geração, mas acho que acaba sendo consequência. O álbum tem uma carga bem pessoal. Compus as músicas em uma fase de transição na minha vida. Eu terminei a minha graduação em jornalismo na Emerson College e estava me mudando para Los Angeles. Eu tinha 24 anos nessa época, e aí ao longo de um ano em que fiz as composições. Nelas, entraram experiências de amizade, namoro, de ler um livro e se inspirar… “Blue Eyes”, por exemplo, é inspirada num livro chamado Bluets, de Maggie Nelson. Enfim, o disco acabou sendo um registro dessa experiência bem pós-faculdade, de uma transição de vida adolescente para a vida adulta, digamos assim.

EU: outra coisa que queria falar contigo é sobre a cena desse indie pop (seria esse o melhor termo?) aí dos Estados Unidos, porque daqui do Brasil a gente talvez tenha uma percepção diferente da cena norte-americana. Eu e meus amigos que curtem o teu som e bandas afins colocaríamos a Winter na mesma playlist em que entraria Waxahatchee, Alvvays, Bully, Snail Mail… enfim, esse tipo de som. Tu te relaciona com essa galera? Com que tipo de artista tu vem dialogando para fazer as turnês?

SAMIRA: a cena de Los Angeles tem muita banda. Ainda tem muito resquício do psych e do garage rock. Eu curto muito essas bandas que ‘cê mencionou, mas não conheço elas pessoalmente, porque elas são de uma cena que é mais da costa leste. Alvvays é ainda mais distante, porque, apesar de circular por aqui, tem base no Canadá. Das bandas que eu curto, que conheço e que são de Los Angeles, tem a BOYO e a Tomorrows Tulips, por exemplo.

EU: eu tava curioso para saber isso, porque não conheço mesmo muitas bandas de Los Angeles que lidem com esses gêneros musicais. Eu só consigo lembrar de cabeça de bandas que dialogam com a Winter que são do noroeste, como Built To Spill, em Mile End, em Montreal, e em algumas bandas de Boston e Nova Iorque.

SAMIRA: Sim. Em geral, a cena na qual eu tô tocando não tem muita gente que é do dream pop, nem do twee. Não tem nada “bem indie”, sabe? Tem uma banda chamada Moaning que é do nosso círculo e faz um pouco disso, mas ao meu redor mesmo não tem muita gente. Nossa banda acaba sendo um pouco diferente do entorno.

EU: indo pra outro tópico, então. O primeiro álbum da Winter, Supreme Blue Dream, foi produzido em casa. Tu te desafiou a criar 30 músicas em um mês e algumas delas foram escolhidas para entrar no disco, certo? E quanto ao Ethereality? Como foi o processo de gravação? Tu foi pra um estúdio mesmo? Teve engenheiro de som trabalhando e tudo? Quem mais contribuiu nas gravações?

SAMIRA: Para o Ethereality, eu compus todas as músicas, mas nas gravações e arranjos entraram meus então colegas de banda: Matt Hogen, na guitarra, fez alguns solos e bases; no baixo, David Yorr, trabalhando em colaboração com o Matt para decidir os arranjos; e na bateria o Garren Orr, que trouxe para o disco o seu modo de tocar, trazendo mais complexidade para a vibe do disco. A gravação foi um processo bem democrático no estúdio. Foi bem um processo de banda mesmo.

EU: deve ter sido bem massa essa experiência de sair de um contexto bedroom pop pra ir pra um estúdio profissional…

SAMIRA: sim. E eu nunca tinha feito isso antes! Foi no estúdio Comp-ny. Tinha um engenheiro pra gente (o Drew Fischer) e a gente gravou por duas semanas. Primeiro a gente fez gravações ao vivo de bateria e baixo, e depois fomos inserindo overdubs. Foi muito legal. Acho que foi o processo mais “banda” que eu vou ter na minha vida, porque se fosse hoje eu provavelmente já iria querer ter mais controle. Mas foi uma experiência boa de colaboração, sabe? As meninas que tocam comigo agora, Justine e Chelsea Brown, fizeram alguns backing vocals e acabaram entrando na banda depois! Foi, sim, bem diferente do que no Supreme Blue Dream, em que rolou mesmo aquele desafio mais pessoal. Eu fiz demos de 30 composições na época, e aí eu e meu parceiro Nolan Eley escolhemos dez músicas pra fazer parte do disco. Ele é de Nova Iorque, então a gente fez por correspondência as gravações, mandando áudios um para o outro, de quarto a quarto, algo bem bedroom pop!

EU: para finalizar, uma pergunta de fã. Na turnê, ou pelo menos quando teve show da Winter aqui em Porto Alegre no Bate, vocês tocaram três músicas do disco novo e algumas do Supreme Blue Dream. Também tocaram “Jaded”, um single recente, e “Always Teenager”, uma música que ainda não foi publicada. A pergunta óbvia é por que “Jaded” não está no disco? Da mesma forma, por que “Always Teenager” ficou de fora?

SAMIRA: boa pergunta! Então, é engraçado, porque o Ethereality estava pronto havia um tempo, só que a gente estava tentando encontrar uma maneira para lançar. Esse tempo passou, e durante esse intervalo eu compus “Jaded”, “Always Teenager”, “Memória Colorida”, “Dreaming” e “All The Things You Do”. Essas cinco músicas foram lançadas como singles enquanto o Ethereality não saía. “Jaded” e “Always Teenager” vão fazer parte do terceiro disco da Winter. Já “Memória Colorida” eu gravei com meu amigo Ian Gibbs. Ele toca com Vinyl Williams, Fever The Ghost, JJUUJJUU, um galera mais psych. Então a gente tá compondo umas coisas menos shoegaze e um pouco mais psych. A palavra que eu tô pensando em inglês é “blissful”, mas é meio difícil de traduzir! Enfim, essa música, assim como outras, vão fazer parte de uns álbuns de composições que ainda não foram lançadas.