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O K-pop e alguns breves pensamentos sobre o pop do outro lado do mundo

À primeira vista, parecem grupos enormes com pessoas muito parecidas. Se nossos olhos não treinados falham em diferenciar os vários integrantes dos grupos – exceto pelos cabelos, quase sempre muito coloridos e originais –, os ouvidos também pouco acostumados parecem estranhar as consoantes fora de lugar e as palavras em inglês jogadas no refrão. Estamos diante do K-pop. E, gente: que raio de estilo musical é esse?

K-POP - f(x) na capa de Red Light (2014)

f(x) na capa de Red Light (2014): você pode não gostar da coisa, mas desistir de entender o K-pop é desistir de entender um dos movimentos comerciais e estéticos mais significativos da música mundial na última década.

O K-pop, como é denominada essa música pop contemporânea/industrializada/eletrificada vinda do oriente, vive um de seus melhores momentos. De uns três anos para cá, grupos famosos conseguem pelo menos 20 milhões de visualizações em seus clipes, superando facilmente nomes ocidentais do mais elitizado mainstream. Os clipes, inclusive, têm papel fundamental no gênero: são a porta de entrada para um mundo em que a apreciação depende tanto do que se ouve quanto do que se vê.

As imagens são perfeitamente cuidadas: nesse mundo de celebridades orientais, os figurinos são precisamente escolhidos de acordo com o “conceito” do grupo, as fãs são a prioridade dos ídolos e não há acne, manchas ou algum fio de cabelo fora do lugar.

K-POP - Red Velvet

Red Velvet, um dos girlgroups mais famosos atualmente, lançado em 2014. Imagem: Divulgação

As coreografias são cuidadosamente ensaiadas: em milhares de vídeos de diversos grupos no YouTube, é possível ver que a meticulosidade com que os passos são feitos remonta a sempre lembrada disciplina oriental com a qual já nos apavorávamos quando víamos meninos japoneses de menos de dez anos tocando violão em vídeos caseiros no mesmo YouTube.

No K-pop, cada membro executa os seus movimentos com perfeição, transformando as apresentações ao vivo em verdadeiros espetáculos que superam (em muito) os pulinhos e reboladinhos das boybands ocidentais. Não é por mal, mas é só observar o gif abaixo para perceber que os tais “k-idols” não se contentam com uma voz bonita e alguns movimentos corporais básicos: para fazer parte desta indústria, é preciso portar uma espécie rigorosa de talento.

K-POP - Bangtan Boys

Os garotos do Bangtan Boys (BTS) no clipe de “Dope”, que passou das 67 milhões de visualizações no YouTube.

Sim, é exótico, apesar da americanização constante nas letras e nos clipes. E quase tudo que é exótico é de difícil assimilação. Aqui, não só pela língua diferente nas letras, mas pelo estilo ora infantilizado, ora de um sexismo caricato dos grupos. Embora mostrem-se incrivelmente americanizados, com as palavras em inglês já citadas e uma tentativa de copiar o estilo americano em suas roupas e penteados, ainda há um choque cultural. Mas, curiosamente, um choque que não nos atinge quando damos de cara com as estranhezas vindas do mercado norte-americano ou europeu.

O K-pop, como o pop de todos os lugares do mundo, tem em si uma abrangência que alcança a todos os gostos. Se você gosta de girlgroups ocidentais como Little Mix, pode ser que você goste das meninas do Red Velvet. Se você gosta de músicas eletrônicas e do tal synthpop, o grupo f(x) e seu álbum 4 Walls têm exatamente o que você precisa.

Se você gosta de refrões grudentos e se rendeu ao que veio de Beyoncé e Justin Bieber em 2016, o grupo sul-coreano BTS tem o refrão de “I Need U”, que ainda bebe em fontes do dubstep e do trap.

E, por fim, se você gosta de dramas, histórias e de rainhas antigas da indústria que muito sabem o que estão fazendo, ouça “I” da Taeyeon e “Fly” da Jessica Jung. Os dramas eu deixo para você descobrir.

Quero que esse texto seja breve, então não há como abranger sequer metade dos artistas e grupos que despontam nesta “cena oriental”, mas acho que já deu para ter uma ideia do que estou falando. Ah, sim: se você acha imprescindível saber a letra do que ouve (por mais que nunca tenha entendido direito o que o Thom Yorke canta em todas as faixas do OK Computer), muitos vídeos de K-pop já vêm com legenda em inglês no Youtube ou têm tradução feita por fãs.

O K-pop é  um mundo cheio de problemáticas e discussões, mas você pode entrar – pelo menos por enquanto, é o que eu recomendo – apenas como apreciador de algo novo e não hegemônico. Comece a notar quando esses grupos aparecerem no seu radar e procure captar neles algo novo que paira no ar e que, a exemplo dos animes orientais noventistas, pode estar flexibilizando a indústria do gosto quase sempre insossamente eurocêntrica até quando propõe a contracultura.

O lado triste da história, onde é possível falar de “k-idols” jovens e adolescentes sugados ao extremo pela ânsia das gravadoras e da mídia, a gente deixa para uma próxima matéria.