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K.LNG DEE.D: um punhado de décadas na mesma canção

Algo mudou na arquitetura da cena musical do Rio Grande do Sul quando as rádios enfrentaram um enxugamento no seu número de ouvintes, as grandes gravadoras locais fecharam as portas e os grandes meios de comunicação passaram a ignorar tudo o que o rock local produzia. O que poderia ser o cenário perfeito para o apocalipse na verdade impulsionou a organização independente e fez surgir polos de produção de música em lugares onde eles normalmente não existiam. Um dos frutos dessa nova fase é o coletivo Lezma Records, de São Leopoldo, que pouco a pouco vem criando seus próprios espaços e encontrando artistas estado afora.

Bonjour Galactic

Um dos lançamentos mais recentes da Lezma é o grupo experimental K.LNG DEE.D (Santa Cruz do Sul) e seu EP Bonjour Galatic. O trabalho é uma versão de estúdio daquilo que o grupo vem fazendo desde 2009 em suas apresentações ao vivo, misturando elementos que transitam entre o pós-punk, o progressivo e o eletrônico, criando experiências sensoriais capazes de transportar o ouvinte para paisagens sonoras construídas por muitas guitarras, baterias marcadas e letras que se alternam entre o inglês e o espanhol.

Formada pelos músicos Bruno Cabral, Grace Bender, Gibran Sirena e Tiago Vidala, a banda própria foi a responsável por todas as etapas de gravação e produção do disco, juntamente com o artista gaúcho Marcos Coelho, que ficou com a responsabilidade de desenvolver o projeto gráfico do trabalho, criando não só a capa, mas também transcrevendo em forma de colagens cada uma das faixas que compõem o mini álbum do quarteto. Dê um play abaixo para ver o resultado.

As breves quatro faixas do EP misturam sonoridades que lembram o indie dos anos 2000, principalmente o de bandas como Interpol e Franz Ferdinand, ao mesmo tempo em que flertam com o powerpop e o electrorock. Essa fórmula é aplicada de diferentes formas durante o registro de pouco mais de 15 minutos, criando paisagens que vão de 1990 a 2040, misturando o passado e o futuro através de um surrealismo que é reforçado pelo trabalho gráfico que acompanha as canções.

Em “Natural Time Cycles”, faixa de abertura do EP, as camadas de ruído e as dúzias de pequenos sons contracenam com instrumentos analógicos que crescem aos poucos até tomarem conta da sonoridade. Na sua segunda faixa, “Ujjayi”, a banda une décadas com um ritmo capaz de interligar o Joy Division e o Beach Fossils em apenas um refrão, trazendo bateria e baixo característicos dos anos 80, junto a riffs de guitarra que conduzem de ponta a ponta a melodia da canção.

K.LNG DEE.D: esqueleto orgânico, base sintética e um punhado de décadas ao longo da mesma canção.

K.LNG DEE.D: esqueleto orgânico, DNA sintético e um punhado de décadas ao longo da mesma canção.

Com uma levada mais calma e cadenciada, “Reverie” apresenta vocais distantes e distorcidos, trazendo o shoegaze para dar um oi. “Wheel”, um dos destaques do registro, vai ainda mais fundo nas camadas de guitarra e une isso a vocais sintetizados e ritmos dançantes de bateria em uma construção que tem o baixo como espinha dorsal.

No seu primeiro EP, a K.LNG DEE.D consegue deixar bem clara a facilidade que tem de transitar entre décadas e unir referências que se completam, e muito disso passa pela competência dos músicos em sintetizar tanta coisa e ao mesmo tempo não ser uma simples emulação de algo que um dia existiu.

Por trabalhos como esse, percebe-se o quanto o estado ainda se mantém fértil em sua produção cultural. Essa fertilidade pode não estar tão centralizada como esteve até uma década e meia atrás, mas é inegável que há vida inteligente. Talvez essa vida não cheguem às AMs e FMs (e será que precisa chegar?), mas merece todos os holofotes possíveis por sua qualidade e consistência.