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Nubya Garcia durante a Mostra Internacional de Música em SP

Jazz Re:freshed: o que a cena jazz britânica pode ensinar ao público brasileiro?

É muito normal que os músicos de uma nova geração sejam vistos com desconfiança pelos ouvintes mais saudosistas. Curiosamente, isso é bastante comum no rock, que um dia tomou para si o rótulo de revolucionário. Em geral, não é todo gênero que consegue provocar naturalmente rupturas internas, renovar o seu público, atualizar as suas expressões e ainda manter algum discurso de união. Hoje, o jazz está um passo à frente neste sentido. Ele é, apesar da idade avançada, um dos gêneros que melhor brinca com a própria vitalidade. Nomes como Thundercat, Kamasi Washington e Nubya Garcia são provas reais disso. O projeto britânico Jazz Re:freshed também.

Jazz Re:freshed: Nubya Garcia durante a Mostra Internacional de Música em SP

Nubya Garcia durante a Mostra Internacional de Música em SP: uma das caras novas de grande impacto da cena jazz mundial a dois palmos do nosso nariz. Foto: Macrocefalia Musical.

O Jazz Re:freshed não é uma banda, nem um projeto somente musical. Na verdade, ele é o resultado de uma movimentação multitarefas iniciada pelos ingleses Justin McKenzie e Adam Moses. Juntos desde o verão de 2003, eles começaram um levante que busca descentralizar o jazz em busca de maior reconhecimento artístico, maior alcance geográfico e, por que não dizer, maior apreciação popular. Sempre com foco na visibilidade de novos artistas e primando por reunir diferentes linhas do gênero no mesmo bloco, a dupla aos poucos começou a tomar espaços e a mudar a visão das pessoas sobre o jazz.

Tudo começou com um modesto evento semanal no coração da West London, em Notting Hill. Depois, evoluiu para uma vívida forma de expressão que hoje, além dos shows semanais, se transformou em um selo musical e em uma caravana renovável/itinerante que já montou palcos de jazz dentro de festivais como Glastonbury, SXSW e AFROPUNK Festival. Áreas de ação do Jazz Re:freshed ainda incluem um clube cinematográfico, um programa de desenvolvimento de novos músicos (que atende escolas e universidades), uma revista anual e uma equipe organizadora de workshops.

Não foi só o jazz e o seu público que se renovaram. Até as definições do termo workaholic foram atualizadas pelo Jazz Re:freshed. E mesmo a noção de fronteira passou a desaparecer: com o apoio de parceiros como a British Underground, uma organização que promove showcases internacionais com foco no desenvolvimento estratégico de projetos artísticos locais, as ações do coletivo de jazz ganharam mais possibilidade de circular incluindo terras distantes no planejamento de rota. Foi assim que o Jazz Re:freshed chegou pela primeira vez ao Brasil com o evento “Jazz Re:freshed Outernational”, incluído na programação da primeira Mostra Internacional de Música, uma das atrações do SIM SP.

E sobre o palco?

O evento ocorreu no clube Jazz nos Fundos, localizado no distrito Pinheiros. O local, que um dia abrigou uma fábrica de sapatos, foi redesenhado há 11 anos e, desde lá, se transformou em um ambiente à meia luz onde antigos objetos da fábrica contracenam com alguns dos melhores instrumentistas da cidade. Entre equipamentos semi-industriais da primeira metade do século passado, mezaninos e barulho de garrafas, o jazz acabou ganhando uma casa no coração econômico do Brasil. O clima aconchegante do clube e a boa música inclusa na programação fizeram com que se misturassem ali públicos interessados em apreciar companhias e públicos interessados em apreciar sons. Hoje, estes dois grupos são o mesmo, e o jazz, com público local renovado, é quem agradece.

Jazz Re:freshed: a decoração do Jazz nos Fundos

A decoração do Jazz nos Fundos: o lustre está ali para lembrar o que um dia existiu naquele espaço. Foto: divulgação.

No cardápio sonoro da noite apresentada pelo Jazz Re:freshed, estavam Yussef Dayes Quartet e Nubya Garcia, dois dos maiores expoentes da nova cena jazzística britânica e mundial.

Após uma abertura com um set de grooves conduzido pelo próprio Adam Moses, o Yussef Dayes Quartet foi o responsável por ecoar instrumentos na noite pela primeira vez, com sua característica mistura de trip hop com jazz e funk. O set foi amplamente explorado pelo quarteto que acompanhava o jazzman que dá nome ao conjunto, com direito a uma sádica disputa onde Yussef e o seu guitarrista Mansur Brown tentavam roubar o tempo um do outro, deixando a dinâmica das canções completamente quebrada. Ao fundo, o groove não era o maracatu de Chico Science, mas pesava uma tonelada. Mansur Brown, guitarrista de apenas 18 anos, já mostrava um feeling raro em sua Epiphone Semi Acústica. Charlie Stacey, tecladista, sabia (e muito) bem a hora de entrar numa vibe cósmica com os seus syths. Tom Driessler, no baixo, operava as suas cordas graves com uma calma quase budista.

Mansur Brown no palco do Jazz nos Fundos

Mansur Brown no palco do Jazz nos Fundos: com apenas 18 anos e uma nova visão sobre o jazz, o músico ajuda a personificar a atual cena britânica. Foto: Macrocefalia Musical.

Foram 90 minutos de excelente música. A platéia se manteve perplexa do início ao fim, deixando que a bebida esquentasse. Mal esperava que o segundo quarteto da noite faria todo mundo jogar o copo para o ar. Nubya Garcia e o trio que a acompanhava (o baixista Daniel Casimir, o tecladista Steve Reid e o baterista Femi Kuleoso) tocaram por mais 90 minutos apostando em um embalo completamente diferente do grupo anterior. O contraste entre os dois shows demonstrou a capacidade do jazz atual de ser muito mais do que a música de elevador que o senso comum tem em mente. O gênero se expandiu para além do que foi produzido em seu período clássico, amadureceu internamente e hoje parece organizado o bastante para comunicar toda a sua diversidade para o mundo. O Jazz Re:freshed, claro, é parte importante deste processo.

O jazz daqui pra frente

Em resumo, o Jazz Re:freshed é esse selo/produtora/coletivo capaz de colocar o trip hop e o jazz com pigmentos latinos sobre o mesmo palco, mostrando ao público de uma vertente que a outra vertente também tem o seu valor.

Quem marcou presença na noite do Jazz nos Fundos teve uma prévia do futuro da cena jazz daqui para a frente no mundo. Quem não foi ainda teve a chance de conferir os caras três dias depois, na Urubu Sessions realizada no espaço da Associação Cultural Cecília. E teve ainda quem compareceu às duas noites para conferir se o raio cairia (de fato) duas vezes no mesmo lugar. Eu fui uma dessas pessoas. E o raio caiu mesmo.

Jazz Re:freshed: Yussef Dayes na Associação Cultural Cecília

Yussef Dayes na Associação Cultural Cecília: o baterista está no centro de um interesse popular crescente pelo jazz no Reino Unido. Foto: Macrocefalia Musical.

Sobre as bandas, fica claro como o domínio técnico sobre os instrumentos, característica histórica do jazz, se mantém vivo como herança válida dos tempos clássicos, permitindo que os dois quartetos apresentassem um set completamente novo nesta segunda data. Fica também claro que, se algumas características são cultivadas apesar do tempo, outras são recicladas sem grande cerimônia a serviço do espetáculo; é o caso do estilo spiritual jazz 60/70 que Nubya vira do avesso. Para além da organização exemplar do Jazz Re:freshed, estaria o próprio jazz nos ensinando ali, através de seus novíssimos nomes, algo sobre como lidar com o passado?

Nada precisa ser mantido como um tijolo inquebrável ao longo das décadas, foi o que comunicaram Jazz Re:freshed, Yussef e Nubya. Nem a noção de tempo precisa ser mantida. O New Yeah, por exemplo, esteve presente nos dois shows, nas duas datas, e tudo parece ter durado apenas 15 minutos. Música boa passa rápido. “Essa cena de UK vai dominar o mundo”, pensei eu com a bebida quente outra vez. Pelas barbas de Miles Davis.