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Ibeyi: “nosso som é uma mistura, assim como nós também somos”

Irmãs cubanas radicadas na França, Naomi e Lisa fazem parte de um fenômeno multi-cultural chamado Ibeyi. Com uma visão minimalista da música, o duo que cria e canta em inglês, espanhol e iorubá mostra como é possível se apropriar dos antigos spiritual gospel e talking blues para produzir uma nova linguagem com o auxílio de elementos vindos da música eletrônica, do jazz, do soul e de mais um milhão de origens. Nem elas próprias sabem enumerar todas as suas influências, e talvez aí esteja a característica mais apaixonante do seu som.

Ibeyi no palco do Cine Joia

Ibeyi no palco do Cine Joia: 90 minutos entre teclados, sintetizadores, programação de beats, cajón e vozes com afinação cravada. (foto por Gabriel Falcão)

Ler sobre influências tão diversas ao longo de uma mesma frase pode fazer qualquer purista torcer o nariz. Por isso é importante ouvir o som e perceber como diferentes cacos são unidos ali por uma mesma liga de maneira muito equilibrada. Foi assim com os beats experimentais do homônimo disco Ibeyi (2015) e com a orquestra de auto-tunes de Ash (2017), ambos lançados pela gravadora britânica XL Recordings, com direito a produção feita pelo próprio dono da casa, Richard Russell (que já trabalhou com nomes como Tyler, The Creator; Gill Scott-Heron e Sampha).

A capa do segundo disco, inclusive, faz alusão à técnica japonesa kintsukuroi: um método oriental milenar que reconstrói com ouro cerâmicas quebradas, de forma que a conexão forjada com material precioso não seja vista como um defeito, mas como a grande estrela da nova montagem. É como o som do duo pode ser percebido: brilhanto por entre os diferentes pedaços sonoramente unidos. Esse foi o assunto do papo que tivemos por e-mail com as meninas, que ainda falaram sobre algumas experiências de palco e sobre a sua ligação com o Brasil. Afinal, haveria de ter um espaço para a cultura tupiniquim no meio desse verdadeiro caldeirão cultural.

NEW YEAH: este segundo disco está aparentemente mais maduro, embora algumas características do álbum anterior ainda permaneçam no som de vocês. Como foi pensar esses novos sons? Onde vocês estavam querendo chegar com eles?

Bom, esse trabalho é o resultado de dois anos de tour pelo mundo, o que significa dizer que aprendemos bastante na estrada e que obviamente tivemos todo o tipo de experiência sobre o palco. Isso acaba aparecendo no som. Paralelamente, nós sabíamos que, no nosso segundo disco, queríamos conseguir um som mais forte, com músicas que as pessoas pudessem cantar e dançar. Por fim, queríamos conseguir isso mantendo o nosso lado orgânico do cajón/bata, do piano e das vozes. Estamos achando que conseguimos. Já passamos por diferentes lugares da Europa e da América com este trabalho e a resposta das pessoas tem sido muito positiva. Quando cantamos “Deathless” ao vivo, por exemplo, sentimos que estamos soando exatamente como queríamos soar.

NEW YEAH: eu ouvi o Are You Experienced, do Hendrix, na semana passada e lembrei bastante de um som de vocês enquanto ouvia. A musicalidade não é exatamente a mesma, mas o trabalho de vocês causa um impacto parecido com o dele. Talvez pela crueza, pela visceralidade, pelo tom emocional…

Exatamente! Nós queremos esse efeito de presença. Queremos compartilhar energia. Atualmente, temos vivido, o mundo em geral, um momento de muita solidão e individualismo. A gente acredita muito em uma música que alivie essa solidão, que faça mais de uma pessoa sentir a mesma coisa por conta do mesmo impulso. Gostamos da ideia de produzir uma música anti-individualista. É uma utopia, claro. No fundo, estamos falando só de música. Mas às vezes esse som simples pode soar como uma benção para alguém, e gostamos de acreditar que as pessoas podem sentir isso ao nos ouvir.

NEW YEAH: a Pitchfork colocou vocês as lista dos 20 melhores discos de soul de 2017. Como vocês reagiram ao fato de serem enquadradas dentro de um gênero mesmo produzindo um som tão diverso?

Nossa mistura sonora é uma mistura como nós mesmas também somos. Nós cantamos em inglês, iorubá e espanhol. Eu espero que a gente cante em francês no futuro. Nós somos uma mistura de origens, de cores de pele, de culturas, de linguagens e de influencias musicais. Adoramos jazz, soul, pop, música clássica, rap, reggaeton, música eletrônica, folk, afrobeat, música cubana, música gospel etc. Tudo isso nos influenciou. Como você pode definir o que fazemos quando cultivamos tantas coisas diferentes assim? Mas às vezes acontece. A Pitchfork acha que somos soul? OK. Às vezes somos definidas como “música eletrônica”? OK também. Outros querem simplificar e chamam de “indie”. Para nós, está sempre tudo bem. O que importa é que as pessoas escutem.

NEW YEAH: mas como vocês acham que conseguiram equilibrar tantas coisas em um som tão uniforme?

O legado do nosso pai é a liberdade que ele sempre nos deu. Ele costumava dizer: “escutem o velho, e depois façam o que vocês quiserem”. É isso que fizemos. A nossa música é 100% nós. São as nossas influências, a nossa vida e as coisas que vemos no mundo. Só podemos escrever sobre as experiências que vivemos e sobre o que nos tocou de alguma forma. No fundo, estamos sempre cantando sobre nós. Talvez por isso soe de maneira tão homogênea.

NEW YEAH: o Kamasi Washington gravou “Deathless” com vocês. Como foi a experiência de trabalhar ao lado dele?

Conhecemos o Kamasi durante a nossa tour de verão em 2016. Nós estávamos frequentemente pisando nos mesmos palcos durante os festivais norte-americanos e europeus, então nos tornamos amigos. Além dessa relação que é mais recente, nós já amávamos a música dele antes disso, e ele pelo jeito também gostou bastante do nosso trabalho quando o conheceu. Num primeiro momento, ele nos pediu para fazermos um remix para ele. Depois, retribuímos convidando ele para tocar no single desse último disco. E a música precisava do Kamasi, sabe? Não teríamos o mesmo som sem ele. Nós estamos bastante felizes e honradas por contar com a sua presença no disco. O sentimento é o mesmo que temos por ter trabalhado com Meshell Ndegeocello, La Mala Rodriguez e Chilly Gonzales: “poxa, já estamos tocando com pessoas que nos inspiram desde a adolescência”. Isso tem sido incrível.

Ibeyi sobre o palco do Cine Joia

Ibeyi sobre o palco do Cine Joia: como pertence a todos os lugares, o duo está sempre em casa, como demonstrou em sua última passagem pelo Brasil. (Foto por Gabriel Falcão)

NEW YEAH: o Richard Russell é o dono do selo onde vocês estão e é também o produtor dos dois discos que vocês lançaram. Como vocês veem a influência dele no som do duo?

O Richard foi a pessoa mais importante que nós conhecemos desde que começamos o Ibeyi. Nossa relação com ele é de liberdade total. Muitas músicas acabam saindo nos discos exatamente da mesma forma que as trouxemos de casa. “Mama Says” e “Vale” são dois exemplos disso. Há vezes também em que as músicas mudam bastante durante a produção. Algumas músicas, ainda, nascem durante a própria produção do disco, em uma jam ou a partir de um beat despretensioso, como ocorreu com “Ash” ou “Deathless”. O papel do Richard é o de estar sempre atento, nos ajudando a explorar novos sons que possam sair das nossas músicas. Ele tem muito cuidado com as letras e tem feito melhorarmos bastante nisso. As pessoas nos perguntam se, por ser o dono do selo, ele não coloca algum tipo de pressão comercial em nós. De fato, isso nunca ocorreu. Vemos ele mais como um ótimo músico. Um percussionista com um ótimo feeling, além de um especialista em samplers.

NEW YEAH: foi ele quem sugeriu os experimentos com o auto-tune? É um elemento que já apareceu em outros trabalhos produzidos por ele.

Não sabemos ao certo de onde vieram os experimentos, mas percebemos que algumas músicas pediam por eles, então acabamos utilizando. Vemos o auto-tune como um ótimo jeito de brincar com o som das nossas vozes. É tudo uma questão de som e de textura. “Me Voy” precisou da técnica do auto-tune. É um reggaeton, um som urbano. Outra faixa que também precisou da adição desse elemento foi “Ash”. Às vezes, é a canção quem faz o pedido, e não qualquer pessoa envolvida no processo.

NEW YEAH: muito obrigado pela atenção, Lisa e Naomi. Para finalizar, gostaria de saber com quais artistas brasileiros vocês estão familiarizadas. Já escutaram um LP de Gilberto Gil e Jorge Ben Jor chamado Ogum, Xangô? Ele saiu em 1975 e a energia nele também tem essa presença que vocês comentaram anteriormente.

Nosso pai tocou num disco do Carlinhos Brown! Ele ama ir à Bahia. Disse pra nós que é como Cuba. Crescemos ouvindo o disco Cru, do seu Seu Jorge, e conhecemos o Emicida quando chegamos a São Paulo. A gente vê o Brasil como um país que tem uma cena musical imensa, com estrelas como Caetano Veloso, Vinicius de Moraes, Gilberto Gil e outros músicos não tão famosos, mas que gostaríamos de conhecer melhor. Esse LP que você comentou, por exemplo, nós não conhecemos ainda. Vai entrar na lista das nossas próximas audições.