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Chaiss ao ar livre

Heineken Block em São Paulo e a ocupação da rua pela arte

O polivalente Benjamin Franklin costumava dizer que “a cerveja é a prova de que Deus nos ama e nos quer ver felizes”. Talvez inspirada nessa frase, a Heineken criou a iniciativa Heineken Block, que de 17 de fevereiro a 11 de março tomou a Vila dos Ingleses. Com shows de rua, DJs, experiências gastronômicas, cerveja e até mesmo a possibilidade de prensar o seu próprio vinil (!), a Heineken transformou o seu slogan “Shape Your City” em realidade e ajudou a ocupar um espaço ainda pouco explorado pela cultura paulista. E nós estivemos presentes no penúltimo dia, tentando captar a atmosfera do evento.

No palco, que era a própria rua, com público e banda misturados, o Chaiss (grupo radicado nas equinas mais funkeadas de São Paulo) chegou com classe, esbanjando melodias, repleto de groove. Com um show dividido em dois sets, Vinicius Chagas (sax) e Rob Ashtoffen (baixo) apresentaram composições de Charas, segundo disco do grupo, lançado em 2017. O som do quarteto, que ainda é formado por Eder Hendrix (guitarra) e Fábio de Albuquerque (bateria), virou o plano de fundo perfeito para uma boa conversa e uma sessão de customização de alguma peça do guarda roupa nas barracas montadas pelo evento. Não poderia ter sido mais harmônico: por méritos da curadoria, enquanto a liberdade poética customizava peças nas barracas, a mesma liberdade era exercida pelos improvisos do Chaiss.

Chaiss ao ar livre

Chaiss ao ar livre: os improvisos do grupo ajudaram a desconstruir o evento e ressiginificar a Vila. Foto por Emanuel Coutinho.

A Vila dos Ingleses foi construída na primeira década do século passado como um condomínio dormitório para estrangeiros (principalmente britânicos) que trabalhavam em construções ferroviárias por aquela região. Construída à imagem e semelhança do design vitoriano que vigorava à época na Inglaterra, o local aos poucos foi sendo abandonado pela sua população original à medida em que a mão de obra estrangeira ia sendo dispensada e as próprias obras iam chegando ao fim. A partir dos anos 30, o local passou a ser habitado pela população comum e por comerciantes, em período que ficou marcado degradação daquela arquitetura original. No auge da degradação, nos anos 80, os administradores locais promoveram uma política que alterou o caráter da Vila, transformando-a em um espaço quase que estritamente comercial, ocupado por empresas que eram incentivadas a se mudarem para lá em razão dos baixos preços locatários, desde que se comprometessem com a restauração e a manutenção do patrimônio histórico.

Público em peso no Heineken Block

Público em peso no Heineken Block: foi a primeira vez que o espaço construído no início do século passado recebeu o público para um evento deste porte. Foto por Emanuel Coutinho.

O processo de “proteção” da Vila dos Ingleses avançou na década de 90, quando as edificações presentes ali foram tombadas. Em 2012, foi a vez do Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico (CONDEPHAAT) incluir a Vila na lista de bens culturais protegidos pela instituição. Curiosamente, mesmo após essa atitude do CONDEPHAAT, o local seguiu não sendo utilizado para fins artísticos, sendo o evento da Heineken uma tentativa de preenchimento deste vácuo histórico.

Após o show do Chaiss, os DJs esquentaram as pick ups e antecederam o show d’As Bahias e a Cozinha Mineira. Um dos grupos em maior evidência no cenário nacional mostrou um repertório sincopado repleto de arranjos, ricas passagens nas teclas (Carlos Eduardo), na percussão (Danilo Moura), nas guitarras (Rafael Acerbi) e na bateria (Vitor Coimbra). Tudo isso ao fundo das vozes de Raquel Virgínia e Assucena Assucena, hoje uma das maiores vozes do Brasil.

As Bahia e a Cozinha Mineira no Heineken Block

As Bahia e a Cozinha Mineira no Heineken Block: show do grupo encerrou as atividades do evento que ocupou com arte o espaço histórico da Vila dos Ingleses. Foto por Emanuel Coutinho.

O grupo tem um dos maiores shows em termos de qualidade instrumental hoje no país, exibindo um rico arsenal de influências que vai do funk/soul até a MPB sem forçar a barra. O show das Bahias foi o fim perfeito para uma noite que, através da música e de suas artes adjacentes, celebrou a inquietação e a mudança.

“A arte é uma das mais poderosas formas de transformação social e urbana”, contou a diretora da Heineken, Vanessa Brandão. “Contar com o talento destes artistas e do público é uma forma de mostrarmos como acreditamos que as marcas podem ir além e se unir aos seus consumidores para criar algo que transforme a cidade”. O Heineken Block é uma extensão do projeto Cities, que a marca criou para incentivar as pessoas a explorarem a sua própria cidade, esgotando a possibilidade de olhares sobre o espaço urbano. Curiosamente, o projeto chega ao Brasil em um momento onde a arte é acuada mesmo dentro dos museus, em época marcada pelo acinzentamento dos espaços públicos em São Paulo, funcionando como forma de contracultura, ainda que assinada por uma marca que (por óbvio e justamente) tem intenções comerciais em um segundo plano.

Segundo consta nos registros históricos, o Heineken Block marcou a primeira vez em que a Vila dos Ingleses se abriu para receber o público em um evento deste porte. A atmosfera e as trocas ocorridas no local são inspiradoras para o momento em que vivemos e a torcida é para que cada um dos presentes tenha levado um pedaço desse pensamento de ocupação embora, estando disposto a plantá-lo posteriormente em algum outro lugar que também tiver muito concreto e pouco calor humano na maior cidade da América do Sul.