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Gentrificators spreading the word: crônica urbana embalada por guitarras e baixa fidelidade

Você sabe: questões políticas e sociais estão presentes na música há bastante tempo, o que não quer dizer que as temáticas estejam esgotadas (ainda mais em tempos como os que vivemos). Traçando um panorama rasteiro, Billie Holliday, em 1939, impressionou muita gente ao cantar “Strange Fruit”, um tocante protesto contra os linchamentos de afro-americanos no sul dos Estados Unidos. Marvin Gaye teve de bater o pé para que seu álbum (e magnum opus) What’s Going On (1972) fosse lançado pela Motown, o maior selo de soul music da história, que considerava o disco “político demais”, já que tinha como eixo temático a Guerra do Vietnã. Já Bob Dylan disse uma vez que as suas músicas não eram sobre política – talvez porque, para o trovador, a política, a vida e, consequentemente, a música são intrínsecas umas às outras. Por essas plagas, a Tropicália e a MPB lutaram para não serem emudecidas pela ditadura, quando a censura era o maior problema nacional para a arte. (muito) Mais recentemente, bandas como Baiana System discursam contra a especulação imobiliária, o arranjo urbano e seus impactos, assunto que ganha cada vez mais espaço e importância na discussão sobre as grandes cidades, tema/mote muito semelhante ao que envolve a nomeação da banda Gentrificators, nascida na região metropolitana de Porto Alegre. O nome da banda remete à “gentrificação”, processo através do qual regiões do tecido urbano vão sendo aos poucos adulteradas por especuladores e corporações resultando no consequente afastamento dos moradores originais, geralmente pessoas cuja baixa renda não permite mais uma vida digna naquele novo lugar.

Gentrificators

A Gentrificators em ação no Pubis, em Novo Hamburgo: o espaço encerrou as suas atividades em 2017 para provavelmente dar lugar a uma academia, uma farmácia ou um prédio de 15 andares em um futuro distópico não muito distante, seguindo a lógica previsível da própria gentrificação.

A Gentrificators vem, portanto, para – felizmente – engrossar o coro dos atentos e descontentes. Em seu mais recente e segundo trabalho, o álbum intitulado Apt Kids (Lezma Records, 2017), impera o comentário político à atual situação de nosso país e persiste a tarefa de sublinhar as dinâmicas da gentrificação, reforçada pela sempre presente/inevitável afetação do vocalista Marcelo Conter (o “gentrificator original”) pelo tema, ex-morador do Brooklyn, em Nova Iorque, condado que é um case mundialmente conhecido das transformações higienistas da metrópole.

Sobre o título do disco: ele pode ser encarado como uma anglofonização do termo “guri de apartamento”, tipicamente usado para designar crianças e jovens que crescem sob a superproteção de seus pais, isolados das agruras do mundo dentro da suposta segurança dos condomínios, outra arquitetura muito característica dentro do processo de gentrificação já comentado.

Temática e intenções políticas à parte, a Gentrificators investe em um som mais polido nesta nova obra, e, se não traz o verniz de grande originalidade sonora – considerando que o som aqui é uma espécie de coleção/bricolagem de boas referências do indie rock dos anos 90 e 2000 –, tem o mérito de manter a tradição de aliar harmonias e melodias bem cuidadas a timbres guitarrísticos familiares e sempre bem-vindos independente da época.

Canções como “CCTV.” – que abre os trabalhos, com sua batida acelerada sob uma harmoniosa e convidativa melodia – ganham em significado diante da apresentação do contexto em que o disco foi feito. “Skinny Jeans”, a segunda canção, não faria feio em nenhuma boa mixtape só com bandas legais.

O processo criativo da banda é variado: o baixista André Araujo nos contou que os arranjos geralmente “nascem nos ensaios, de maneira bastante discutida”. Acrescentou ainda: “canções como ‘T5’ e ‘School Surfin’’ foram compostas via chat do Facebook, com o pessoal escrevendo a letra e gravando trechos quase em tempo real”.

Sobre a dinâmica das letras, por falar nelas, há duas interpretações possíveis. Na primeira, entende-se que aquela realidade do Brooklyn se mistura à do sul do Brasil organicamente por conta da inevitável interferência da vivência, uma vez que o processo de composição do disco bebeu das duas geografias. Na segunda interpretação, mais apocalíptica, mas tão possível quanto, entende-se que o disco narra uma única realidade que já abate os dois lugares de maneira muito parecida, como resultado de uma globalização que visivelmente tem “democratizado os problemas” ignorando fronteiras ou formalidades. O discurso resignado de “T5” – onde o narrador descreve a espera pelo ônibus que conecta o Aeroporto Salgado Filho e a Arena do Grêmio ao bairro Menino Deus em Porto Alegre – poderia valer para qualquer linha de transporte coletivo que cortasse uma cidade violenta e mal-planejada, como é a Porto Alegre dos dias de hoje a exemplo de outras milhares de cidades na mesma situação.

Por falar em Porto Alegre, a banda destaca a brodagem e a qualidade da música local, a despeito das dificuldades de morar e de ser artista independente em uma época onde a cultura como um todo é questionada por uns e ignorada por outros. Na conversa que tivemos às vésperas da publicação deste texto, André Araujo, o baixista da banda, comentou sobre as iniciativas do selo Lezma Records – que divulga a Gentrificators –, que em dois anos quadruplicou a sua quantidade de lançamentos, acompanhando um crescimento que envolve ainda outros selos locais. “Há um processo de retroalimentação acontecendo, que cria uma espécie de união entre o pessoal que está engajado em movimentar a cena independente”, comentou, “estamos em um bom momento, tanto do ponto de vista dos shows, que são sempre memoráveis, quanto dos discos”.

O que é evidente, de qualquer maneira, é o crescimento sônico da banda comparada a si mesma e, num plano maior, o valor de um disco como Apt Kids no contexto onde ele se insere. Filtrando referências dos anos 90 e 2000, selecionando e organizando um extenso songbook e entregando isso aos ouvintes, a banda inevitavelmente cumpre um papel: a Gentrificators preenche – talvez não de maneira intencional, mas com certeza de maneira eficiente – um espaço importante nesta mesma cena que André comentou. Em épocas onde a experimentação é muitas vezes mal compreendida pelo público que não habita a bolha, é fundamental que uma banda com repertório e competência ofereça um som que soe familiar dentro e fora dos nichos, se oferecendo como porta de entrada para quem vem de fora. Para além do engajamento conceitual, portanto, Apt Kids possui a sua carga de engajamento real.