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Frank Jorge e a figura do ídolo que “sabe envelhecer”

Você pode negar por teimosia, mas o fato é que algo inevitável ocorre quando ouvimos o disco novo de um artista que já tem muitos discos. Mentalmente, começamos a associar o disco atual com alguma coisa antiga do mesmo criador. Buscamos semelhanças, destacamos as diferenças, comparamos como quem analisa um jogo dos sete erros e concluímos algo com base no relatório que montamos na nossa cabeça. Esse “algo” que concluímos, aí sim, varia de pessoa para pessoa.

Os mais conservadores costumam concluir algo como “o artista X jamais será tão bom quanto foi na época do disco Y”. Os mais arejados costumam aceitar o fluxo da vida e concluir que o artista evoluiu desde o seu último lançamento, assimilou coisas novas e, de forma geral, “soube envelhecer”. Recentemente, o Frank Jorge (Cascavelletes, Graforréia Xilarmônica, Cowboys Espirituais e mais de 15 anos de carreira solo) lançou o disco Escorrega Mil Vai Três Sobra Sete. Um prato cheio para os comparadores de plantão, dada a extensão da obra que o cara já possui.

Escorrega Mil Vai Três Sobra Sete

O esforço de comparação não encontra dificuldades no início: de cara, “Nem Tão Real” e “No Horizonte” mostram arranjos mais “cheios” do que aqueles apresentados pelo músico nos trabalhos anteriores. Agrada, em especial, a forma como Frank “encheu” as canções mais volumosas do disco, optando por soluções que conversam mais com a geração 2010 do que com qualquer outra coisa de tempos passados. Não que o passado deva ao presente em termos de qualidade musical (na maioria das vezes, muito pelo contrário), mas é sempre animador ver um medalhão do rock que ainda se dá ao trabalho de aprender com o que é produzido na atualidade. O contrário disso se chama conservadorismo, e conservador é algo que o Frank nunca foi.

Por falar em atualização constante, Frank Jorge não caiu da cama este ano, bateu a cabeça e decidiu ouvir a banda preferida do seu sobrinho. Reconhecer nele a capacidade sempre presente de se abrir para novos sons, neste caso, é quase uma questão de fazer justiça com a história. Resgatando na memória, por exemplo, tenho o músico como o primeiro artista brasileiro consagrado a indicar os Strokes como audição obrigatória, em entrevista à extinta Revista Atlântida, em 2002, quando a banda norte-americana ainda era uma mania indie adolescente que recém havia lançado o seu primeiro álbum. E mesmo antes disso Frank sempre se manteve atual e (desde as investidas com as suas ex-bandas) algo transgressor, se reinventando continuamente.

A overdose de atualidade comum ao Frank obviamente não o priva de ter os seus elementos recorrentes. No disco novo, “O Viajante” e “Nicodemo” retomam a veia country com a qual o músico sempre manteve um flerte fatal, “Só Distância” tem um pé no punk bubblegum (onde ele sempre acaba pisando) e “Hey Hey” (como o próprio nome sugere) aparece para explicitamente mostrar que a Jovem Guarda sempre será uma fonte válida para o criador de Carteira Nacional de Apaixonado. Mas nada do que se referencia no passado, aqui, tem cheiro de mofo e, portanto, Frank não canta sempre o mesmo rock’n roll. Ele sabe que precisa sempre de um pouco mais, então não compromete a atualidade do disco nem quando coloca a sua coleção de discos antigos à mostra.

No discurso do álbum, há uma mescla do já clássico repertório romântico (que para muitos pode soar desatualizado em tempos de modernidade líquida) com temáticas bastante contemporâneas, como a angústia descrita em “Sempre Procurando”: uma versão pós-moderna do vagabundo que aparecia na música d’Os Incríveis. Aliás, compare as letras:

Se caminhando eu encontrar alguém que pensa como eu / Será o fim dessa estrada / E finalmente irei parar (Os Incríveis, 1969)

Sempre procurando sem saber muito bem o que / (…) Assim que eu encontrar algo que funcione, eu vou parar (Frank Jorge, 2016)

Uma não parece a neta da outra? As mesmas feições no rosto, o mesmo desejo de busca, a mesma idealização do que fazer quando o objeto da busca for encontrado… com a diferença de que a mais nova não sabe direito o que está procurando. Nada mais atual do que baratinar nas angústias da vida, apostar todas as fichas na carreira (“procurando vida onde a vida se consome”?) e na semana seguinte apostar todas as fichas na demissão. Não sei se foi a intenção do artista, e não quero ser o cara que coloca palavras onde elas não existem, mas há ali uma baita reflexão pós-yuppie.

Frank Jorge versão 2016: assumindo os cabelos brancos com a mesma naturalidade com que assume as influências do rock contemporâneo. Foto de Raul Krebs

Frank Jorge versão 2016: assumindo os cabelos brancos com a mesma naturalidade com que assume as influências do rock contemporâneo. Foto de Raul Krebs.

Quando parei para escrever esse texto, muita gente já tinha vindo até mim falar do Escorrega Mil Vai Três Sobra Sete. Em todos os comentários, o vigor criativo do Frank (e a sua capacidade de gerar novos formatos mesmo já tendo consagrado formas antigas) foi colocado em evidência, numa prova de que o ritmo andante de sua obra fez com que ele tivesse pouquíssimos fãs conservadores.

Alguém, que não lembro mesmo quem foi, o chamou de “um bem-sucedido Peter Pan”. Achei uma designação criativa, mas não concordei por inteiro, porque a imagem do Peter Pan sempre esteve para mim ligada a uma frustração com a maturidade, e o Frank, como já comentei, não se recusa a assimilar o passar dos anos: ele simplesmente sabe lidar com o passar do tempo melhor do que a média das pessoas. Aliás, ponto para ele, porque essa é a grande diferença entre quem é longevo e quem é simplesmente velho.

Houve também quem comparasse o artista ao vinho (“quanto mais velho, melhor fica o Frank”). Pensei um pouco e também não achei que fosse um paralelo razoável, porque comparar a obra arejada de Frank Jorge com algo que fica enclausurado em um barril por anos seguidos é no mínimo injustiça. Nos dez anos que normalmente são usados para envelhecer um Romanée-Conti, Frank consegue ir dos anos 50 ao século XXI duas vezes e absorver todas essas décadas sabiamente, sem hierarquizar com espírito sectário, sem apontar gregos e troianos e sem conferir vagos juízos de valor, estudando o Queens Of The Stone Age com a mesma devoção que usa para estudar os discos antigos dos Talking Heads.

No fim, Escorrega Mil Vai Três Sobra Sete é um disco atual, que poderia ter sido gravado por qualquer banda surgida em meados de 2014, desde que essa banda tivesse repertório o suficiente para agrupar tantas referências e a maturidade necessária para extrair da mixagem os melhores timbres. Acrescentaria aos requisitos a necessidade de um produtor afiado o bastante para polir o som na medida certa e ainda manter as arestas onde elas caíssem bem e, por fim, a posse de um vocalista que soubesse se impor com a mesma naturalidade em canções tão distintas e instrumentalmente variadas.

Ao fim do disco, fiquei imaginando o que diria um fã conservador sobre a obra recém-lançada, mas conclui que a vida é pequena demais para perder tempo ouvindo gente que não sabe lidar com a própria nostalgia. Imaginei então o fã mais progressista apreciando cada faixa para, depois de tudo, admitir com um sorriso no rosto que o Frank “soube envelhecer bem”. Esse eu ouviria com mais apreço, mas, para manter a minha mania de discordar de todo tipo de gente, discordaria desse cara também. É que eu acho estranho dizer que “soube envelhecer” alguém que sempre se manteve rigorosamente jovem em sua obra independente da idade apontada em seu RG.

Ouça o álbum completo aqui. Acompanhe as novidades do Frank por aqui.