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Produtos à venda expostos durante o Festival Grita

GRITA: percepções sobre um festival totalmente produzido por mulheres no interior do Rio Grande do Sul

Faz algum tempo que as discussões sobre a participação feminina na música ganharam fôlego, tensionando esse espaço historicamente ocupado e visibilizado por homens. De uns anos para cá, muita coisa tem se modificado, mas ainda não dá para dizer que esta questão esteja encaminhada. Cada novo espaço liberto dos paradigmas exige muita transpiração. Os passos vão ocorrendo um a um. Um novo passo foi dado com a primeira edição do Festival GRITA, que ocorreu no final do mês passado em Santa Maria. Um festival independente de arte feminina organizado totalmente por mulheres que levou bandas e pautas feministas para o espaço público aqui de Santa Maria, no interior do Rio Grande do Sul.

Materiais expostos durante o Festival Grita

Materiais expostos durante o Festival Grita: o evento contou com shows das bandas She Hoos Go (Pelotas), 3D (Porto Alegre), STEREA (Porto Alegre), Musa Híbrida (Pelotas) e Glass (Santa Maria), além de exposições, intervenções artísticas e uma roda de conversa com Daniele Rodrigues, do WE ARE NOT WITH THE BAND. Foto: Rainbow Visual Club.

Santa Maria é conhecida pela quantidade de estudantes universitários que circulam pelas suas ruas, porém é comum por aqui as reclamações a respeito da falta de eventos alternativos para os jovens. A iniciativa de organizar o GRITA teve isso como base: colocar a arte à disposição dos insatisfeitos, obviamente pensando também na visibilidade e na bravura de ver mulheres mostrando para o mundo a arte que elas mesmas produzem sem medo de serem julgadas. Quanto a essa arte: não falo das pinturas de Frida Kahlo, nem da música de Rita Lee, igualmente importantes, mas já devidamente aceitas inclusive por setores conservadores. Falo de uma arte produzida por mulheres de uma geração mais nova que, diferente de Frida e Rita, não vão esperar por décadas até que sejam reconhecidas enquanto homens com muito menos talento se tornam ídolos instantâneos. Falo de mulheres que vão se organizar pra “queimar etapas”, ainda que isso envolva algumas frustrações normais ao processo.

“Não íamos fazer um festival”, me contou a jornalista Carolina Barin, uma das organizadoras do evento. “A ideia inicial era fazer em Santa Maria um show de uma banda de mulheres de SP, mas acabou não dando certo por conta das burocracias”. Mesmo diante do revés, Carolina, a produtora editorial Laura Garcia e a estudante de psicologia Luiza Ross já haviam sido iluminadas pela ideia. Continuaram a conversar, estenderam a conversa para outras mulheres envolvidas com a música na região, chegaram até meninas envolvidas com bordado, produção de zines e defesa pessoal. Todas as ideias se misturaram e o produto final acabou sendo um festival com um pouco de quase tudo isso.

Buscando manter a iniciativa como algo totalmente independente, as meninas ainda organizaram um financiamento coletivo no site Vakinha, atingindo 78% da meta. O retorno do público antes mesmo do festival começar colocou ainda mais gás na proposta. Definição de lineup, problemáticas logísticas e burocracias de produção se tornaram apenas importantes detalhes ofuscados pela vontade de colocar o evento em pé. Detalhes, mas ainda assim inteligentemente pensados e articulados.

(…)

No dia do festival, a abertura dos shows ocorreu pelas 16:00, sucedendo o som mecânico que ecoou uma playlist com vozes femininas através dos amplificadores instalados no Parque Itaimbé. A primeira banda a se apresentar foi o trio STEREA. Nessa hora, ventava bastante e eu estava sentada na grama, a alguns metros da banda, tentando me esconder do sol, que ainda estava forte quando o grupo She Hoos Go subiu ao palco para o segundo show da tarde. No intervalo entre as bandas, era a vez das intervenções artísticas.

Sterea

Sterea abrindo os trabalhos no palco GRITA: um pouco de peso para apedrejar os estereótipos. Foto: Juliana Brittes.

Maura Poeta, artista do projeto Rubra Poesia, fez uma fala improvisada sobre a visibilidade lésbica, sendo muito aplaudida por um público predominantemente feminino. O sol ia dando trégua e o vento se mantinha forte quando um grupo de meninas com bambolê fez uma breve apresentação de dança que infelizmente vi de longe, pois a essa altura eu já estava voluntariando no bar. Foi de lá também que vi a banda 3D subir ao palco.

A 3D é uma das bandas mais importantes do Rio Grande do Sul. Não porque emplacou músicas nas rádios e nem porque tem uma base de fãs enorme. A importância da banda consegue vir de elementos maiores do que esses. Formada em Porto Alegre nos anos 80, a 3D fez parte de um levante de bandas de rock surgidas na capital do estado naquela época. Curiosamente, uma boa parte dos grupos surgidos deste movimento alcançou o grande público em algum momento, ganhou o seu espaço maior ou menor, enquanto a 3D teve um rumo diferente.

Polaca Rocha, vocalista da 3D

Polaca Rocha, vocalista da 3D: resistência feminina no rock três décadas depois. Foto: Rainbow Visual Club.

Em entrevista aqui para o New Yeah em janeiro deste ano, a vocalista Polaca Rocha falou um pouco sobre como o fato de ser uma banda composta só por mulheres acabou colocando a 3D num fluxo particular em relação às demais bandas de sua geração: enquanto nomes como DeFalla, TNT, Replicantes, Engenheiros do Hawaii e Nenhum de Nós saltaram dos bares de Porto Alegre para a grande mídia se profissionalizando rapidamente, as meninas da 3D, envolvidas pela forte carga de trabalho que consistia em cuidar dos filhos, trabalhar fora e ainda administrar o lar, acabaram abandonando diversos de seus projetos ao longo do tempo. A própria 3D chegou a acabar, mas voltou e hoje está aí bem viva.

Fico imaginando quantas bandas não acabaram antes de chegar aos nossos ouvidos por conta dessa estrutura social que sobrecarrega a mulher. Enquanto eu via as meninas conduzindo a plateia, pedindo para que o público se aproximasse do palco enquanto emendavam uma faixa na outra como se não houvesse amanhã, pensei em como aquele momento era especial para elas, que atravessaram as décadas e viveram para ver o Festival GRITA acontecer. Enxergar a 3D sobre o palco, 30 anos depois, foi também uma vitória para o público. As meninas da 3D formam a banda gaúcha que o machismo não conseguiu derrubar.

Musa Híbrida no Festival Grita

Camila Cuqui, vocalista da Musa Híbrida: uma voz rasgante à frente do groove. Foto: Rainbow Visual Club.

Já era o entardecer do horário de verão quando a Musa Híbrida saudou a plateia. Foi a única banda do dia com alguns integrantes homens, que souberam entender o seu lugar enquanto a vocalista Camila Cuqui brilhou naturalmente fortalecida pelo contexto ao redor do palco. Houve a presença masculina no palco, como houve também na plateia, mas com equilíbrio, sem roubo de protagonismo. E as mulheres conseguem perceber facilmente quando isso acontece ou deixa de acontecer, por mais que a lógica da sociedade insista às vezes em dizer que tanto faz. O synth pop do grupo ecoou fazendo com que os presentes dançassem de olhos fechados, antes que o show final, protagonizado pela banda Glass, natural de Santa Maria, encerrasse os trabalhos em grande estilo, fazendo um show impecável.

(…)

O final do evento deixou o Parque Itaimbé em silêncio de novo, tomado pela noite que poderia parecer triste depois de todo o barulho que ocorreu ali durante o dia. Mas cada mulher que esteve ali tratou certamente de levar a felicidade consigo, seja por ter passado a tarde em um ambiente acolhedor, seja porque saiu de lá se sentindo capaz de fazer ao menos uma parte do que fizeram aquelas mulheres. Afinal, representatividade serve para isso mesmo, né? Abrir caminhos e mostrar como outras pessoas podem trilhá-los se assim sentirem vontade. Cada batida, cada palavra transmitida, cada movimento, cada verso cantado foi uma pequena vitória que, como todo gesto de representatividade, é apenas a alavanca para outros gestos que certamente virão.