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A boa notícia por trás da febre dos “festivais politizados” pelo mundo

Recentemente, o festival norte-americano Moogfest anunciou que terá na sua próxima edição um “palco-protesto”: um espaço dedicado exclusivamente à resistência em oposição às absurdas leis que foram impostas há um ano na Carolina do Norte. A legislatura conservadora do estado norte-americano aprovou o Projeto de Lei 2, que, entre outras medidas, revogou as proteções anti-discriminação baseadas na orientação sexual e na identidade de gênero. Com artistas como a ícone queer Mykki Blanco e o cultuado produtor sírio Omar Souleyman, a própria escalação já fala bastante sobre a intenção da proposta. O Moogfest é o mais novo integrante do clube dos festivais politizados.

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Manifestantes/foliões no Shangri-la Glastonbury de 2015: diversos fatores ocasionaram a politização de festivais nos último anos e alguns deles são verdadeiramente comemoráveis.

Não. A politização de massas ligadas à música não é notícia nova. De uma forma ou de outra, os festivais sempre tiveram, ao menos no papel, algum cunho político. Isso desde o Woodstock, que simbolizou o auge da contracultura hippie e da negação à guerra do Vietnã nos anos 60. Como comenta neste texto o jornalista Camilo Rocha, festivais como o Harlem Cultural Festival ou até mesmo o Glastonbury em seus primórdios pregavam o ativismo e se estruturavam sob uma aura de resistência.

No entanto, com o novo boom dos festivais neste novo milênio, a espinha dorsal da resistência parecia ter desaparecido, ter sido trocada pela “experiência” de festivais de entretenimento puro que possuem o seu valor, mas que caminham em outra linha. Nos últimos anos, com o avanço de políticas conservadoras em várias partes do mundo, diversos festivais passaram a abraçar causas nobres outra vez. No ano passado, o Sziget, o Roskilde e o Glastonbury (olha ele de novo) levantaram diferentes bandeiras em prol de um mundo melhor. Em 2017, é a vez do Moogfest com o seu palco temático, como comentamos lá no início.

Um pouco longe do grande circuito, mas também com estrutura imponente, o Afropunk vem ganhando cada vez mais espaço tanto na web quanto nos veículos tradicionais por se posicionar politicamente e ter neste posicionamento a sua grande marca.

Ativismo do lineup à fachada: no palco do Afropunk Festival de 2015, a política integra a identidade visual.

Ativismo do lineup à fachada: no palco do Afropunk Festival de 2015, a política integrada à identidade visual.

Quando falo de uma “politização dos festivais”, obviamente não caio na ilusão de que os agigantados interesses por trás da indústria do entretenimento estejam necessariamente alinhados com o bom futuro do planeta. Pode até ser que sim em alguns casos, mas fica evidente que esta transformação – este aprofundamento político visto em tantos casos – se dá na busca por uma fatia de mercado. As grandes corporações por trás dos também grandes festivais observam bem que o público alternativo em geral tem se posicionado de maneira cada vez menos conservadora. E está aí a grande notícia nisso tudo, a coisa que podemos comemorar por enquanto: o público em frente aos palcos está cada vez mais interessado em bandeiras humanistas.

Esse novo posicionamento da plateia está expresso no cerco ao sócio majoritário da Golden Voice AEG (empresa dona do Coachella), que teria apoiado causas contra a diversidade de gêneros. Está também na aprovação massiva ao “fora Temer” da BaianaSystem no bloco Navio Pirata do carnaval de Salvador. Está no “olê olê olá Lula Lula” durante o show do Cage The Elephant no último Lollapalooza Brasil. E OK que Lula não seja uma unanimidade entre os progressistas, mas ali, como forma de resistência, muita gente que enxerga conservadorismo no ex-líder sindical gritou junto com o bando como forma de irritar a conservadora Rede Globo que fazia a transmissão do show.

E a roda continua a girar, oferecendo de bate-pronto algumas pistas dos possíveis rumos para os próximos anos.

Primeiro, é interessante observar que a introdução do “palco-protesto” no Moogfest deste ano pode simbolizar uma abertura da organização aos temas sociais; mas também pode representar uma tentativa da organização de encaixotar os protestos em torno de um único palco do evento antes que as manifestações aleatórias do público possam afetar a atmosfera do festival de maneira mais ampla. Nisso, chegamos à perigosa dualidade que envolve a tal politização dos festivais: à medida que o público se politiza e essa politização se torna mais difundida, ela se torna também mais facilmente estudável, podendo ser contornada e aproveitada pelo mercado de marcas. Se essa absorção significar um adestramento das causas (e já vimos isso acontecer com o próprio Woodstock), temos um grave problema.

O espírito contracultural da plateia, a melhor notícia na conjuntura atual, pode levar à criação de festivais cada vez mais conscientes, SIM. E, na ressaca disso, a inteligência do mercado pode levar à mercantilização da contracultura e do próprio progressismo, acomodando as sinceras faixas de protesto em paisagens lotadas e inofensivas que os patrocinadores adoram fotografar. Resta acompanhar para saber qual dos dois efeitos acontecerá primeiro.

Muitos fragmentos foram extraídos de texto publicado originalmente por Diego Moretto no blog do Projeto Pulso em março de 2017. O conteúdo foi adaptado pela Editoria de Remix do New Yeah e complementado com informações novas, de forma que o autor original não necessariamente concorda conosco.