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Fantomaticos III e a arte de não seguir tendências

Existem vários tipos de bandas. Com mais peso, menos peso, mais integrantes, menos integrantes, populares, desconhecidas, bem-sucedidas, frustradas, comerciais, alternativas… a lista de classificações é enorme, mas, numa divisão brusca arriscada, existem basicamente dois grandes tipos de bandas quando falamos na evolução da sua obra: as bandas que se pautam pelo que está acontecendo no mundo da música e as bandas que simplesmente ignoram isso e produzem músicas anacrônicas. Os Fantomaticos sempre pertenceram a esse segundo grupo, e esse pertencimento fica ainda mais claro no álbum homônimo lançado pelo grupo porto-alegrense na semana passada.

Fantomáticos III saiu na semana passada pela Ué Discos.

Fantomaticos III saiu na semana passada pela Ué Discos. A arte gráfica é de Fábio Alt.

Quando falo em seguir tendências, logicamente não estou falando de bandas que mudam completamente a sua estética conforme a cor da onda. Essas existem, mas fazem parte de um outro fenômeno. Estou falando de bandas que mantêm a espinha dorsal de uma obra sólida e variam o entorno de acordo com as práticas de gravação e arranjo mais utilizadas no momento.

Para aderir à tendência, é preciso ter muita informação. E bom senso também, principalmente se quiser aderir sem se tornar uma caricatura. Para não aderir à tendência, como fazem os Fantomaticos, é preciso ter muita, mas muita personalidade, porque bastante gente irá estranhar o resultado e é necessário manter a confiança naquilo que se está fazendo para não pirar no meio do caminho. “Ela Me Pegou”, com seu riff nada moderno e seu tom robustamente orgânico, a anos luz do shoegaze reavivado por tantos e em galáxia distante da neo-psicodelia contemporânea tão evocada, abre o disco mostrando mais ou menos a intenção do trabalho como um todo.

A música de abertura também ajuda a localizar o novo disco dentro da obra do grupo. Em relação aos demais trabalhos, se mantêm as estruturas de músicas que destacam os vocais, com todo o resto da canção se construindo ao redor da melodia. Entretanto, em relação ao disco Dispersão (Ué Discos, 2013), o novo trabalho está menos experimental e mais “básico”: os arranjos estão mais diretos, os instrumentos são apresentados mais próximos da sua sonoridade pura e tudo parece ser uma grande apresentação ao vivo. Isso é reflexo do método de gravação utilizado pela banda, que priorizou o uso de poucos takes para ter como resultado músicas que fossem mais fáceis de serem executadas nos shows.

O clima de registro ao vivo se mantém em “Estonteante” (em momento de latinidade exposta), “Nada de Mais” (com uma dose extra de melancolia) e “Teimoso Como Um Satélite” (onde a bateria à la Ringo Starr aparece como precioso detalhe).

“Tenso”, a seguir, tem uma base mais acústica e se desenrola sobre o violão de Augusto Stern, que também é o compositor da canção, em um trabalho onde praticamente todos os membros da banda tiveram canções suas catalogadas.

As duas faixas seguintes, “Rio Verde” e “Biduim”, ambas do baixista André Krause, são bem diferentes e ao mesmo tempo muito parecidas. Se diferem no andamento, na temática e até na energia empregada em cada instrumento. Se aproximam na forma como André, um letrista muito peculiar, utiliza as palavras: sempre em versos aparentemente incompletos e em frases quase sempre vazias de sentido que se somam a outras para gerar um grande significado na união.

“Biduim”, por sinal uma das grandes pérolas do disco, tem cara de música de encerramento, embora seja apenas a faixa de número sete.

O andamento lento e as conclusões abertas da faixa parecem funcionar como arremate perfeito para o conjunto de canções questionadoras ouvidas até então. E, de certa forma, a música encerra uma parte do disco mesmo, porque a partir dela o tom existencialista sai de cena e dá lugar a verbalizações mais descontraídas e a instrumentais mais ecléticas do que na primeira parte do disco. É como se o álbum tivesse um lado B, que se desenrola a partir da faixa oito.

Em contraste à primeira parte do disco, onde o rock cru foi a base de tudo, “Nervoso” tem dinâmica de blues, “Domingo de Tarde” é quase um ska e “Te Vi Em Madri” flerta com a música eletrônica. A primeira dessas é um autorretrato bem humorado, a segunda tem uma letra propositalmente despretensiosa e a terceira é a simples descrição de uma imagem cotidiana comum. O existencialismo de alguns minutos atrás ficou por lá mesmo.

O disco se encaminha para o fim quando “Papapa” retoma o rock básico da primeira parte, mas mantém o clima descontraído na sua letra debochada e principalmente no seu refrão cheio de onomatopeias (que apareceu pela primeira vez em público na session que gravamos com eles no inverno deste ano, antes do disco sair).

Ao longo de todo o disco, permanece a figura de uma banda democrática na distribuição de seus espaços e bastante aberta à colaboração de cada integrante naquilo que ele tem de melhor para contribuir. O resultado dessa mentalidade anárquica é um álbum onde quase todo mundo canta e quase todo mundo compõe. E o único membro que não aparece com a sua voz em primeiro plano ou com o seu nome no crédito de alguma canção ainda assim tem uma influência que percorre todo o álbum. Da abertura até o encerramento (com “Pergunte ao Amor”, que tem trejeitos de “Hey Jude” e temática de “All You Need Is Love”) o baterista Pedro Petracco, mais novo integrante da banda, dita o pulso de cada faixa e permeia as músicas de percussões que surgem como boas surpresas em momentos milimetricamente calculados.

O disco, sob uma visão mais ampla, é uma viagem por todas as facetas de um grupo que nunca preocupou-se em estar atrelado à uma cena específica, pagando um preço por isso, mas lidando muito bem com a herança, evoluindo a cada disco até chegar no seu melhor trabalho. Também é uma viagem desprendida do tempo, porque é um disco que se encaixaria em qualquer fase da música brasileira justamente por não se ligar tão diretamente a qualquer uma delas.

Se há algo de muito contemporâneo no disco, esse algo está nas entrelinhas: o disco foi claramente gravado com a intenção de ser bem executado ao vivo depois. Aí fica a pergunta: quantas bandas optarão por este caminho de gravação nos próximos anos, uma vez que a venda de discos é cada vez menos numerosa e as apresentações ao vivo se solidificam como mantenedoras das finanças em projetos musicais? No futuro, a importância da estrada exigirá que as músicas soem tão bem sobre o palco quanto soam nos fones de ouvido e a necessidade de possuir um bom show possivelmente afetará o processo criativo dos artistas.

Viveremos uma fase mais orgânica e direta no rock nacional impulsionada por questões práticas e até econômicas? Isso só o tempo irá dizer. Mas, se um dia ocorrer de fato, o disco Fantomaticos III será visto como obra de artista de vanguarda, e será muito irônico que esse título seja dado a uma banda que nunca se preocupou em ditar caminhos que não fossem os da sua própria autonomia.

Fantomaticos: André Krause (voz e baixo), Augusto Stern (voz, violão e guitarra), Fernando Efron (voz e guitarra), Pedro Petracco (bateria) e Rodrigo Trujillo (voz, piano e teclados). Todas as músicas produzidas e gravadas pela própria banda no Bunker Studio, em Porto Alegre.