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John Frusciante em seu home studio: entre um disco e outro com o Red Hot Chili Peppers nos maiores estúdios do mundo, o guitarrista se refugiava no silêncio de casa, onde gravou sozinho quase duas dezenas de álbuns.

Eu tenho uma banda sozinho

A cada ano cresce a quantidade de músicos que produz de forma solitária, dispensando a ajuda de uma banda ou mesmo de um produtor. Seria isso um reflexo dos nossos tempos de autossuficiência e solidão?

Outro dia escrevemos por aqui que a música é uma coisa essencialmente coletiva: geralmente é feita em equipe, executada em grupo e consumida em bando. Ou pelo menos foi assim que a música se fortaleceu no nosso inconsciente e foi assim que ela aconteceu até bem pouco tempo atrás. Mas a interação entre os seres humanos como um todo vem diminuindo em todas as áreas da vida. Embora as redes sociais permitam o contato contínuo 24 horas, não é segredo que as pessoas têm se visto cada vez menos, interagido cada vez mais raramente e tido cada vez menos contato com verdades que não sejam as suas. Nesse cenário, a solidão tem aparecido como opção viável para bastante gente.

John Frusciante em seu home studio: entre um disco e outro com o Red Hot Chili Peppers nos maiores estúdios do mundo, o guitarrista se refugiava no silêncio de casa, onde gravou sozinho quase duas dezenas de álbuns.

John Frusciante em seu home studio: entre um disco e outro com o Red Hot Chili Peppers nos maiores estúdios do mundo, o guitarrista se refugiava no silêncio de casa, onde gravou sozinho quase duas dezenas de álbuns.

Os motivos que levam à solidão como estilo de vida são muitos: a decepção com os antigos círculos de amizade, os aplicativos que terceirizaram as relações interpessoais e a própria correria da vida têm feito com que o isolamento seja característica marcante dos tempos atuais. Nada mais natural que a preferência por algumas facetas da solidão chegasse na música, onde um grande número de artistas vem optando por fazer música sozinho, em substituição ao tradicional modelo de banda. E não estou falando simplesmente de artistas solo: estou falando de bandas de um artista só, onde o mesmo indivíduo, dispensando quase completamente a ajuda de terceiros, domina todas as etapas da produção, indo da composição à mixagem. Esses artistas são os agentes de uma produção musical solitária característica do século XXI. Cada qual na sua solidão, eles alimentam um fenômeno que diz mais sobre o nosso século do que boa parte dos livros de antropologia.

Meu quarto é meu playground

“O meu processo todo é solitário”, explica Claudio Romanichen (Curitiba-PR), cabeça do projeto paranaense Lindberg Hotel. “Mantenho uma rotina de tocar ao menos meia hora de guitarra por dia e uso esse tempo para compor”. Tocando guitarra sozinho no quarto de hóspedes da sua casa em Curitiba, Claudio já criou dois discos e meio. Nesses trabalhos, as canções soam como se fossem tocadas por uma banda completa, mas a sonoridade volumosa e cheia de canais esconde na verdade um processo criativo solitário que assim se fez por conta de uma série de percalços que o músico foi encontrando ao longo da vida.

“Até os 20 anos, eu sempre toquei em bandas. Depois disso, fiquei quase 15 anos só compondo em casa, sem mostrar nada pra ninguém, até porque eu não conseguia encontrar parceiros com quem as ideias batessem”, explica o músico, lembrando que os poucos parceiros com quem encontrava algum tipo de afinidade rapidamente se inviabilizavam por questões de agenda. “Depois dos 25 anos de idade, fica meio impossível estudar, trabalhar e ter banda”, contou ele, lembrando de quando, em 2008, sem paciência para esperar os parceiros perfeitos, resolveu fazer um EP sozinho. “Gostei do resultado e, em 2010, comprei equipamento pra gravar em casa”. Um artista solitário estava se formando ali.

De maneira geral, dá pra notar que o modelo de banda não foi dado como morto, mas se tornou impraticável para muita gente. A produção musical coletiva não acabou, mas enfrenta uma crise histórica que é resultado de uma conjuntura social e tecnológica: a dificuldade de reunir três ou quatro pessoas com o mesmo interesse estético e ideológico provavelmente não nasceu no século XXI, mas hoje criar um disco sozinho é tarefa muito mais fácil, então a paciência de quem quer levar a música a sério está bem menor do que sempre foi. Quando os parceiros da vida vão dificultando as coisas por desinteresse, falta de grana ou pura implicância, seguir sozinho se apresenta como uma saída viável para os mais românticos que desejam persistir.

Claudio e seus headphones dando origem às músicas da Lindberg Hotel.

Claudio e seus headphones: em um dia normal de criação, dando origem às músicas da Lindberg Hotel.

Até bem pouco tempo atrás, ser um “homem-banda” significava adotar um método bizarro de execução ao vivo onde o mesmo fulano tocava ao mesmo tempo uma série de instrumentos, parecendo um carro alegórico, cheio de penduricalhos. Todo mundo viu um exemplar desse alguma vez na vida e pode atestar que aquele ser humano ali, escondido por traz da gambiarra, se caracterizava mais pela esquisitice do que pela qualidade musical. Mas isso mudou desde que a tecnologia de canais tornou-se acessível. Desde que os home studios se tornaram possíveis e desde que produzir e lançar um álbum se tornou tarefa mais fácil, um mesmo homem/mulher pode fazer o papel de vários instrumentistas e definir sozinho os rumos de um projeto, sendo ele mesmo, em diferentes momentos psicológicos, seu próprio companheiro de criação.

A solidão como refúgio

O fenômeno dos músicos solitários é uma tendência atual, mas não tem a sua origem no século XXI, como fica claro quando começamos a vasculhar os arquivos da cultura pop.

Em 1968, antes mesmo do fim dos Beatles, John Lennon refugiou-se em um estúdio caseiro e, dividindo o processo apenas com Yoko Ono, deu origem ao disco Unfinished Music No.1: Two Virgins. Na época, os Beatles viviam uma fase de tensão interna e superexposição midiática. As produções do grupo haviam se tornado faraônicas: cada disco exigia o envolvimento de dezenas de músicos contratados e alojados nas luxuosas instalações do estúdio Abbey Road. O afastamento temporário de John neste episódio marcou um desejo de fugir daquilo tudo e o fato de ter gravado caseiramente um disco durante esse período de reclusão manifestou um desejo do músico de se reconectar com o seu eu-musical que havia se perdido em meio à pirotecnia do show business.

O resultado foi um disco introspectivo e experimental que a EMI inclusive se recusou a lançar. O trabalho só não caiu no esquecimento por conta da ação de gravadoras independentes que o fizeram circular. Essa situação toda trazia duas pistas sobre o que aconteceria com a música no futuro: a) quanto mais a solidão servisse como método de criação, menos comercial seria o resultado sonoro; b) a evolução da música introspectiva e solitária dependeria do fortalecimento de estruturas alternativas ao modelo das grandes gravadoras e dos grandes estúdios, porque aparentemente a introspecção neste grau não interessava às grandes corporações (mesmo que o criador do experimento fosse o John Lennon).

Conforme as facilidades de gravação caseira foram evoluindo, mais casos foram surgindo de artistas que faziam do quarto um ambiente de criação. Sobretudo nos anos 90, diversos artistas de bandas renomadas se esconderam em home studios e deram vida a registros de intimidade que não seriam possíveis em suas bandas de origem. Foi o caso de Kathleen Hanna, eterna vocalista da Bikini Kill, que, durante uma fase triste da vida em 1997, em meio a um hiato da sua banda, comprou um moderno gravador de fitas cassete (estúdio para que?), improvisou baterias eletrônicas (pra que ter um baterista mesmo?) e sobrepôs tudo com a sua guitarra minimalista, exorcizando em forma de som todas as suas angústias daquele período. O resultado foi o disco Julie Ruin na Kill Rock Stars, retrato cru de tudo o que sentia a artista, mas que que nunca seria gravado pelo Bikini Kill mesmo em sua fase mais cabeça aberta.

E a tecnologia, lógico, nunca mais parou de evoluir, fazendo com que casos de produção solitária se tornassem cada vez mais frequentes e cada vez mais simbólicos: sempre representando uma fuga do modelo tradicional marcado pela estressante relação com o mundo; sempre uma forma de reencontro com a própria origem, explicitando que criar sozinho quase sempre faz parte de um processo muito particular de desintoxicação.

Minha música sou eu (e nem ouse tocar nela)

“Na maioria das vezes, tudo começa em um instrumento de cordas: sento e solto alguns acordes, fico cantarolando qualquer coisa e já vai me ocorrendo a letra”, explicou Marcus Manzoni (Santiago-RS), tentando relatar o seu processo criativo que é uma espécie de meditação. “Se estou gostando da ideia, já vou gravando, testando timbres, adicionando mais instrumentos… a música vai nascendo assim”.

Marcus é artista solo desde 2013, mais ou menos a mesma época em que desistiu de ter banda por discordar esteticamente de seus antigos companheiros. Desde então, tem optado por produzir sozinho e passado por um processo onde o estúdio que montou em sua casa funciona cada vez mais como extensão do seu corpo. Imaginar melodias e sequências de acordes, registrando tudo automaticamente em rascunhos fonográficos, é para ele cada vez mais natural. Pensar e gravar têm sido processos cada vez menos separados, ainda mais com a facilidade de ter tudo em casa ao alcance das mãos a qualquer instante. Como resultado, a música de Marcus vem se tornando cada vez mais (nas palavras dele mesmo) “egoísta” e ele, como músico, tem se tornado cada vez menos aberto ao debate. “Minha música sou eu. Ela é como parte de mim. Quem ouve me reconhece nela. Em uma banda, eu estaria exposto ao conflito de informações e hoje não saberia mais lidar com isso”.



Nicole Patrício
(São Paulo-SP), voz, alma e coração da banda Alambradas (que contem apenas ela na formação!), também trilhou o caminho da solidão quando concluiu que não encontraria pessoas no seu círculo social aptas a montarem uma banda com ela. Havia muita gente ao redor, mas pouca gente partilhava  dos mesmos gostos musicais. Os poucos que até tinham gostos em comum já estavam envolvidos em outros projetos e ela queria trabalhar com gente que se envolvesse de forma mais profunda. “Quando vi que procurar era inútil, decidi que iria tocar sozinha, e optei por ainda assim chamar de BANDA, porque ‘projeto’ parecia pouco ambicioso e eu queria mostrar para as pessoas que aquilo ali não era uma coisisinha, um passatempo na minha vida, e sim o meu principal empreendimento na música”.

Nicole Patrício: teclado, voz, programações e longas conversas sozinha.

Nicole Patrício: teclado, voz, programações e longas conversas sozinha.

O primeiro sinal de vida da “banda de uma mulher só” foram algumas músicas gravadas sob condições bem precárias de forma caseira. O resultado foi um trabalho ouvido por pouca gente e que hoje até a própria Nicole tem dificuldade de encontrar. Desse primeiro trabalho, ela evoluiu, “conheceu mais pessoas”, e passou a produzir de maneira mais profissional, tratando o processo criativo como uma tarefa quase sempre solitária e terceirizando a pós-produção a fim de ter resultados mais profissionais. Cíclica, EP lançado em 2016, retrata o amadurecimento desse processo semi-conjunto, onde vários músicos participam, mas onde a espinha dorsal segue sendo a composição solitária e introspectiva, com direito a grandes períodos de meditação ao longo das gravações.

Quem produz sozinho (Marcus e Nicole deixam isso bem claro) tem na música uma forma de expressão das suas divagações mais individuais. Essas pessoas sentem que precisam expressar os seus pensamentos mais íntimos, escolheram a música para fazer isso e aparentemente só aceitam expressar esses pensamentos se puderem fazer isso com a mínima (ou inexistente) intervenção de terceiros. São pessoas que tratam a música como uma extensão intocável da própria individualidade.

Dança da solidão

A solidão e o individualismo são fenômenos característicos da vida moderna. E, de maneira geral, ainda não há em qualquer campo do conhecimento um consenso sobre serem fenômenos bons ou ruins.

Críticos da chamada “sociedade de mercado” entendem que o isolamento humano é um resultado catastrófico da competitividade que nos fez enxergar a todos como concorrentes ou empecilhos, fazendo com que desenvolvêssemos formas de fazer sozinhos aquilo que antes exigia a socialização. Especialistas da mente, em contraponto, tratam o “ser feliz sozinho” como uma evolução do ser humano moderno, que sempre foi coagido a socializar e que só agora entende que a felicidade mora dentro de si mesmo.

A mesma dualidade é encontrada nas redes sociais, ícones desses novos tempos. Ao mesmo tempo em que essas formas de interação facilitam o contato prolongado a qualquer hora do dia (o que seria algo benéfico à primeira vista), elas quantificam em likes, seguidores e retweets a relevância e a influência de cada usuário, alimentando o clima de competitividade que leva à desunião. Tudo é um paradoxo ainda bastante confuso, como são todos os fenômenos modernos ainda pouco estudados.

Na música, essa nova configuração social alçou determinados meios de produção à condição de tendência. Numa época em que ouvir música em grupo dá aos poucos lugar ao hábito de utilizar fones de ouvido, também a produção da música encontra formas de ser feita de maneira individualizada, driblando assim a falta de tempo característica das grandes cidades e se adaptando aos tempos de liquidez: as pessoas possuem cada vez mais likes e cada vez menos laços, então a arte vai encontrando formas de ser produzida mesmo sem que qualquer laço exista, e sem que a qualidade sonora seja prejudicada.

Marcus Manzoni:

Marcus Manzoni: a produção musical como extensão dos pensamentos mais íntimos.

Marcus Manzoni, entre as divagações que a entrevista lhe despertou, parou para pensar mais sobre esse tipo de produção centrada no EU e transformada em processo individual. Para ele, ela é uma extensão sonora da selfie: “a super valorização de si nos dias que vivemos – vide redes sociais, selfies, etc. – são os principais motivos de isso tudo ocorrer”, comenta ele, que não se culpa por aderir a este método criativo, por mais egocêntrico que ele pareça. “Eu costumava achar que isso tudo era ruim, mas depois compreendi que é apenas um reflexo dos tempos atuais e tem que ser assim”, comenta, antes de concluir: “a arte sempre vai acompanhar os costumes do ser humano, por mais estranhos que sejam os costumes”.