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Estratégias Oblíquas: frases genéricas e perturbadoras para tirar o criador da zona de conforto, casa do bloqueio criativo.

Estratégias Oblíquas: um baralho que promete acabar com o bloqueio criativo em segundos

Quem tem o uso da criatividade como rotina às vezes é assombrado pelo fantasma do bloqueio criativo. Com ele pairando sobre a cabeça, terminar de compor uma canção, finalizar um layout ou escrever o parágrafo final de um texto exige um processo doloroso cujo resultado quase sempre desagrada. Atividades que em outros momentos levariam apenas alguns minutos se tornam um longo martírio porque a solução adequada “não vem”. De tanto passar por situações desse tipo, o britânico Brian Eno criou em 1975 um baralho de cartas com frases que auxiliam na “retomada da criatividade”. Deu ao baralho o nome de Estratégias Oblíquas. Você sorteia uma carta, coloca a sugestão em prática e coisas mágicas acontecem.

Estratégias Oblíquas: frases genéricas e perturbadoras para tirar o criador da zona de conforto, casa do bloqueio criativo.

Estratégias Oblíquas: frases genéricas e perturbadoras para tirar o criador da zona de conforto, que nada mais é do que casa do bloqueio criativo.

Para quem não sabe, Brian Eno é músico, compositor e produtor musical. Integrou a banda Roxy Music nos anos 70 e lançou depois disso discos solo que redefiniram os limites entre a música pop e a produção experimental. Ao longo das décadas, tornou-se também (na opinião de quem escreve aqui) o produtor de maior impacto na história do rock, ajudando a descobrir, definir e moldar a sonoridade de artistas distintos como Talking Heads, U2, Genesis, Slowdive, Coldplay e Paul Simon. Em todos os trabalhos que produziu, Eno fez com que os artistas produzidos se reinventassem completamente e explorassem a sua criatividade ao máximo. Como produtor, esteve por trás também da “trilogia de Berlim” lançada por David Bowie nos anos 70. Resumindo: o cara tem alguma autoridade para falar de criação.

Mas de onde surgiu o baralho?

Para driblar a zona de conforto, Eno se fazia perguntas desconfortantes que o obrigassem a buscar soluções em lugares onde ele nunca havia procurado.

Brian Eno sempre teve um jeito muito particular de trabalhar com a criação musical. Ao lado de Bryan Ferry, seu companheiro na Roxy Music, tinha longas conversas sobre cada som gravado pelo grupo. Gostava de testar novas formas de composição, novas sonoridades de instrumentos e diferentes recursos do estúdio. Por ser um bom observador e ter uma sensibilidade acima da média, tornou-se um estudioso de todos estes processos, passando a se auto-analisar com frequência. Notou então que muitas vezes o seu processo de criação era interrompido por bloqueios de criatividade. Notou também que, nestes momentos, ele buscava a solução na sua zona de conforto (usando a ideia que havia melhor funcionado em outra oportunidade, o recurso que ele melhor sabia utilizar no momento, a saída mais óbvia para o problema etc.) e viu que isso quase nunca rendia bons resultados.

Para driblar a zona de conforto, Eno começou a fazer-se perguntas desconfortantes que desafiassem a sua capacidade de resolver os problemas e o obrigassem a buscar soluções em lugares onde ele nunca havia procurado: o que o meu melhor amigo faria nessa situação? Qual é, de maneira clara e simples, o verdadeiro problema nesta canção?  Quando uma pergunta funcionava bem para essa finalidade, ele a anotava num cartaz pregado na parede de seu estúdio. Outros músicos e produtores o ajudaram nisso e o cartaz acabou reunindo uma série de perguntas que eram potenciais gatilhos para boas ideias.

Mas ainda não estava legal: ter todas aquelas frases instigantes em um cartaz não resolvia totalmente o problema, pois, atraídos pela zona de conforto, os músicos que gravavam no estúdio vasculhavam a lista em busca da solução que melhor se adequasse ao problema que enfrentavam. Eno entendeu que isso tirava do experimento o elemento surpresa, então transformou aquilo em um baralho cujas cartas eram retiradas aleatoriamente.

Brian Eno (à esquerda) e David Bowie (à direita) gravando a trilogia de Berlim nos anos 70: a série de clássica de discos teve o baralho das Estratégias Oblíquas como fonte fundamental.

Brian Eno (à esquerda) e David Bowie (à direita) gravando a trilogia de Berlim nos anos 70: a série de clássica de discos teve o baralho das Estratégias Oblíquas como fonte fundamental.

Após alguns testes caseiros, o baralho foi então publicado em 1975 e se tornou bastante popular entre músicos e criadores em geral, sobretudo no Reino Unido. Segundo a rádio BBC de Londres, de 1977 a 1979 as cartas desafiadoras estiveram com Bowie nos bastidores da gravação dos discos Low, Heroes e Lodger, quando o Camaleão finalmente deixou para trás a figura de Ziggy Stardust e provou que poderia ser muito mais do que um alienígena tocador de guitarra.

Depois de Bowie, David Byrne também se tornou utilizador das cartas, conforme informou matéria do Guardian. Depois, a banda Devo seguiu o mesmo caminho e, mais recentemente, grupos como Coldplay e Phoenix também utilizaram o método em diferentes momentos da criação de sua obra. Hoje, o ritual de auto-desafio representado pelas cartas de Eno é recomendado a criadores dos mais diversos tipos, sendo inclusive citado em oficinas de escritores e roteiristas como válido na resolução de problemas com histórias que sequer envolvem a música.

Mas funciona mesmo?

Vamos por partes. A essência das Estratégias Oblíquas é quase a mesma dos biscoitos da sorte e dos conselhos ditados pelo seu horóscopo diário, dois especialistas em frases genéricas como “esteja atento ao que acontece ao seu redor no ambiente de trabalho”. O baralho, os biscoitos e o horóscopo possuem um conjunto de conselhos que servem para todo mundo em qualquer situação (todo mundo, ao que me parece, precisa estar atento no ambiente de trabalho, mesmo que tenha o ascendente em Libra).

Comparado com essas outras duas fontes de conselhos aleatórios, no entanto, há algumas diferença básicas que jogam a favor do baralho em questão.

Primeiro, o baralho de Eno possui sugestões muito práticas desenvolvidas por especialistas em criatividade para serem depois utilizadas por outras pessoas que têm a criatividade como objeto de trabalho. Já não é um conjunto de conselhos desenvolvido por qualquer pessoa. É quase como se o horóscopo que sugere atitudes para o seu ambiente de trabalho fosse escrito por um coaching de carreiras ou por um especialista em RH (algo que não ocorre, infelizmente). Os conselhos de Eno aos criativos são logicamente muito mais relevantes do que as dicas do astrólogo João Bidu a um professor universitário de engenharia.

Algumas outras cartas de Estratégias Oblíquas: cada frase presente no deck teve a sua eficácia testada anteriormente e o conjunto de frases vem sendo atualizado periodicamente desde os anos 70.

Algumas outras cartas de Estratégias Oblíquas: cada frase presente no deck teve a sua eficácia testada anteriormente e o conjunto de frases vem sendo atualizado periodicamente desde os anos 70.

Outra diferença importante: enquanto os biscoitos da sorte e o horóscopo estão envolvidos por um misticismo cultural que sugere serem ambos manifestações cósmicas, energéticas ou sobrenaturais, as Estratégias Oblíquas se assumem desde o início como um baralho comum criado por homens normais. Em contato com esse baralho, tudo é assumidamente obra do acaso, inclusive a carta que você seleciona em meio a um monte de outras opções. Puro acaso, e por isso mesmo funciona: porque a aleatoriedade ajuda o cérebro a sair dos labirintos que ele mesmo criou.

O bloqueio criativo é fruto da razão. Acontece quando estamos transtornados demais para ter acesso às reservas de inspiração ou quando a nossa inteligência (baseada no que sabemos e nos processos que habitualmente usamos) perdeu-se em meio à racionalidade e não sabe mais o que fazer. Neste caso, o baralho de Eno auxilia oferecendo ao processo criativo um pouco de aleatoriedade. Da carta recolhida, vem uma sugestão de atitude que você normalmente não tomaria e isso pode ser o suficiente para que a engrenagem da sua criatividade volte a funcionar naturalmente. Não é feitiçaria. É a pura e sempre útil lógica do caos.

MAIS: o baralho pode ser comprado no site de vendas de Brian Eno. Para quem não quer pagar, há uma opção online totalmente free, mas sem o baralho atualizado. Há também aplicativos com as cartas para iPhone e Android.