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Por que estamos parando de ouvir música em grupo?

Recentemente, uma matéria do jornal Nexo aprofundou a ideia de que os festivais de música estão cada vez mais focados na experiência de compra do usuário e cada vez menos focados na música em si. A estrutura além dos palcos é cada vez mais elaborada e a música é cada vez mais apenas o plano de fundo da história. A transformação desses festivais, obviamente, é resultado de uma competitividade grande no setor de grandes de eventos que obriga cada evento a tentar parecer imperdível, nem que para isso precise se descaracterizar por completo. Mas essas mudanças que os festivais têm enfrentado, indo da música à experiência (investindo em food truck, teleféricos e barbearia 24 horas) seguem também as necessidades financeiras desses acontecimentos, que têm precisado se munir de recursos para atrair pessoas que não viriam apenas pela música, uma vez que cada vez menos temos nos disposto a ouvir música em grupo.

Por que estamos parando de ouvir música em grupo?

Um estudo financiado recentemente pela empresa Sonos, que trabalha comercializando hardwares e softwares de reprodução musical e (nas palavras da própria empresa) acredita nos efeitos humanizadores do som, entrevistou mais de nove mil famílias e concluiu que mesmo no ambiente doméstico a escuta de música tem sido cada vez mais individualizada. Apesar do suspeito caráter mercadológico da pesquisa, a massa de dados reunida, que também ouviu especialistas da área de psicologia, antropologia e sociologia, é bem interessante para começarmos a entender alguma coisas.

Mas por que, afinal, estamos parando de ouvir música em grupo? O estudo traz algumas sugestões.

1. Porque estamos ficando velhos

Porque estamos ficando velhos

Segundo a pesquisa, quando somos jovens, nossa vida gira em torno da música. Ouvir música é o ritual que dá sentido ao caos em que vivemos e a prática que ajuda a moldar a identidade da maioria das pessoas nesta fase da vida. À medida que se envelhece, uma série de outros rituais (entre eles, o próprio trabalho) toma o lugar da música, que passa ao segundo plano, deixando de ser prioritária e merecedora de grandes investimentos. E não estamos aqui falando necessariamente de dinheiro, mas de empenho humano.

Obviamente, outras gerações vêm no lugar das antigas nutrindo pela música um afeto algo semelhante ao que antes existia nas gerações anteriores, mas a geração envelhecida segue em frente tendo a sensação de que ouvir música, e sobretudo dividir essa experiência com outras pessoas em rituais coletivos, é algo relacionado à sua adolescência e que, portanto, ficou para trás.

2. Porque o tempo é cada vez mais curto

Porque o tempo é cada vez mais curto

Entre as pessoas entrevistadas pelo estudo, 58% disseram que as horas do dia são insuficientes para a realização de todas as tarefas planejadas e 80% indicaram que gostariam de passar mais tempo com família e amigos se a correria da vida permitisse.

A sobrecarga do ser humano na contemporaneidade nitidamente diminuiu o seu tempo de lazer em relação às épocas mais antigas e modifica hábitos urbanos importantes. Entre um milhão de atividades, a música, que em outros tempos seria ouvida em grupo, passa a ser ouvida a partir de dispositivos que permitem a audição no local de trabalho ou durante o deslocamento para algum compromisso. A música deixa de ser o foco não só nos grandes festivais, mas também na vida, onde ela sai do protagonismo para se tornar um plano de fundo de atividades práticas, rotineiras e quase sempre burocráticas.

3. Porque estamos isolados em nossas telas

Porque estamos isolados em nossas telas

A revolução digital tornou as pessoas teoricamente mais conectadas do que nunca, mas as relações pessoais não estão cada vez mais estreitas. Quase 50% das famílias entrevistadas pelo estudo da Sonos disseram que, quando seus membros estão em casa, eles passam boa parte do tempo interagindo com seus dispositivos tecnológicos. 62% das pessoas ouvidas admitiram que a maioria de suas interações sociais aconteciam através do mundo digital.

O fenômeno de esvaziamento dos locais de convivência coletiva e a proliferação de conexões no ambiente digital se expressa pela dificuldade na realização de encontros físicos apesar da aparente vontade dos convidados de comparecer. Cada evento criado no Facebook possui centenas de confirmações e apenas uma pequena parcela desta quantidade confirmada realmente aparece no dia.

4. Porque estamos sempre em estado de alerta

Porque estamos sempre em estado de alerta

Com a onipresença dos contatos eletrônicos, o que se oferecia como uma promessa de fim da solidão se transformou em um perigo de estar disponível para o trabalho durante as 24 horas do dia. Atentos a chamados de urgência, respondendo e-mails no ato do recebimento ou mesmo planejando a agenda do dia posterior, no fim do dia não trabalhamos apenas oito horas e isso interfere na nossa capacidade de apostar em atividades lúdicas ou extravasantes, como ir a um show ou frequentar lugares movimentados em geral.

Na pesquisa da Sonos, 58% dos entrevistados desejavam um melhor equilíbrio entre a vida profissional e a pessoal. Nenhuma surpresa, então, que sete entre cada dez americanos afirmem dormir com o telefone ao lado da cabeceira da cama.

5. Porque não vivemos quando estamos preocupados em planejar a vida

Porque não vivemos quando estamos preocupados em planejar a vida

Um velho bordão nacionalista dizia que o Brasil era o país do futuro. Os críticos deste bordão concordavam com a afirmação, mas lamentavam que o futuro estivesse sempre amanhã e que, assim, o país nunca cumprisse a sua sina. Na vida contemporânea pós-yuppie, somos todos um pouco Brasil: planejamos, criamos expectativas, mantemos o otimismo pelo amanhã e esquecemos de viver o que está ao alcance das mãos.

Segundo os especialistas ouvidos pela pesquisa, até mesmo as tarefas de integração interpessoal da vida pós-moderna foram afetadas pela insatisfação do ser humano com o presente e pela sua necessidade de cumprir o que dele se espera. Há uma obsessão pelos objetivos futuros e uma colocação do presente no piloto automático que afeta valores humanos como a felicidade, a autoestima e a própria vontade de conviver com o grupo.

6. Porque temos cada vez mais necessidade de silêncio

Porque temos cada vez mais necessidade de silêncio

Com horas diárias cada vez mais insuficientes, com a rotina cada vez mais exaustiva e com a agenda cada vez mais abarrotada de coisas, o ser humano tende a buscar o refúgio nos seus momentos de lazer, e não a interação interpessoal. O silêncio passa a parecer mais interessante do que o barulho por oferecer a sensação de descanso que parece necessária para recobrar as energias após o tumulto cada vez mais natural do dia.

As casas têm sido cada vez mais silenciosas e, na pesquisa da Sonos, 44% dos entrevistados relataram que ouvem música para se isolar do mundo, manifestando preferência pelos fones de ouvido.

Essa realidade tem interferido em relações humanas óbvias e já descritas acima, e tem se expressado também economicamente na formatação de negócios já contextualizados à uma realidade que encara o fone de ouvido como um escudo e a casa como ambiente de proteção social do indivíduo. Nesta relação, podemos listar a ascensão de serviços de streaming que substituem locadoras e lojas de disco, a multiplicação das empresas online de self service e o desenvolvimento de fones de ouvido que isolam cada vez mais a audição do ouvinte em relação ao ambiente.