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Tonho Crocco

ENTREVISTA: Tonho Crocco, independente até a medula

Há vários conceitos sobre o que vem a ser um “artista independente”. Há, por exemplo, quem diga que o artista independente é aquele que não se vale da grande mídia para divulgar o seu trabalho. Há quem defenda que o artista independente é aquele que não possui uma grande gravadora ou alguma marca que o financie. Os conceitos são múltiplos. Para mim, o artista independente sempre foi aquele com capacidade de entrar e sair de diversas estruturas sem nunca ter a sua arte e a sua autonomia afetadas. Tonho Crocco é um desses caras. À frente da Ultramen desde o início dos anos 90, ele sempre esteve inserido nas rádios, tocou em grandes festivais onde até a Ivete Sangalo estava no line up, gravou um especial para a MTV e nunca se rendeu aos desejos da indústria, mantendo a coerência do seu trabalho acima de qualquer modismo que parecesse comercialmente válido. Pagou um preço por isso, lógico.

Tonho Crocco

Esses dias, Tonho completou 25 anos de carreira sem nunca ter ganhado um disco de ouro e sem jamais ter ouvido uma de suas canções na trilha de uma telenovela. Também, quem se importa? Como recompensa, tornou-se um dos artistas mais versáteis da música gaúcha, com uma credibilidade que transbordou o plano da sua banda e se estendeu a dois discos solo. O mais recente, Das Galáxias, lançado há poucos dias, é um compilado de canções ensolaradas que passeiam por diferentes estéticas da música negra sem derrapar em uma única nota. Com as músicas novas tocando em loop no fone de ouvido, fui até o médico para entender melhor o monstro. Aproveitamos e trocamos uma ideia rápida sobre como o mercado da música se apresenta aos artistas na atualidade em contraste com o cenário que havia nos anos 90.

Uma vez vi o Frejat dizer em uma entrevista que o disco novo dele não tinha uma mensagem em especial: era só o resultado da vontade dele de tocar e de se divertir, sem os objetivos mirabolantes de quando ele era mais jovem. Teu disco novo é mais ou menos isso também? Um resumo apurado da tua coleção de discos traduzido em músicas que tu simplesmente sentiu vontade de compor e cantar?

Tonho Crocco – Sempre é um pouco isso. Pra mim, sempre vai ser vontade de tocar e de me divertir. E, nesse disco novo, por exemplo, vontade de me divertir fazendo coisas diferentes do que já fiz na Ultramen. Ainda assim eu não encaro o trabalho solo de maneira despretensiosa. Talvez o Frejat, por ter tido muito sucesso com o Barão Vermelho, queira ter uma carreira paralela mais tranquila mesmo. OK. Como a história dele não é a minha, eu continuo encarando com muita seriedade tanto os meus trabalhos na banda quanto na carreira solo.

Esse é o teu segundo disco solo, gravado com os mesmos músicos do disco anterior. Imagino que esses músicos sejam ainda os mesmos ou quase os mesmos que tocam contigo nos shows Brasil afora. Sua carreira solo não acaba sendo quase a mesma coisa que estar em uma banda?

Tonho Crocco – Então, a banda que me acompanha hoje, a Partenon 80, é a mesma desde os meus primeiros trabalhos solo mesmo. Houve uma ou outra alteração na formação, mas é basicamente a mesma banda. Só que tocar e gravar com eles acaba sendo diferente de estar em uma banda porque na carreira solo as canções são todas minhas e eu tenho como dar uma direção ao pessoal. É diferente do que ocorre, sei lá, no Rappa ou nos Titãs, onde todo o processo é bem democrático com vários integrantes opinando. Na carreira solo, eu que direciono e não há várias pessoas mandando ao mesmo tempo e apontando os caminhos. Tá principalmente aí a diferença. E tem a questão do ritmo de trabalho também. Na Ultramen, a gente lançava um disco a cada dois anos, mas fazíamos isso porque havia vários compositores no grupo. Na carreira solo, eu fiquei agora cinco anos sem lançar um disco, mas foram cinco anos compondo, idealizando canções… a construção do trabalho obedece a regras diferentes também.

“Se é pra tocar nas rádios pagando jabá, eu prefiro nem tocar. A internet fez com que a gente não precisasse mais tocar no rádio”.

O disco novo tem uma canção que fala sobre o jabá das rádios. E, por falar em rádios, a tua geração foi a última que teve receptividade nas emissoras populares do estado. Por que tu acha que os artistas locais perderam esse espaço?

Tonho Crocco – Isso é bem complicado. Apesar de as rádios serem concessões públicas, praticamente quem administra elas são as gravadoras, então são os artistas dessas gravadoras que acabam dominando a programação. Em muitos casos, a única forma de entrar na programação é pagando mesmo. Foi sobre isso que a gente falou em “É Com Jabá”, parceria minha com o Carlinhos Presidente. A música fala sobre essa coisa estranha e irônica que é o artista pagar para que a sua música toque no rádio. E, cara, é muita grana. Às vezes, é coisa de uns 100 mil reais pra tua música tocar por uma semana. Então eu prefiro não tocar. E, sendo bem sincero,  não fico frustrado por as rádios não tocarem o meu som. A internet fez com que a gente não precisasse mais tocar no rádio, sabe? Dá pra pegar esse dinheiro todo do jabá e investir em outras coisas. Bem melhor.

Analisando a situação atual, os espaços na grande mídia como um todo se reduziram bastante para artistas que fazem um som menos pop, né? A própria MTV, que de algum jeito cumpria esse papel de fazer circular a produção artística nacional menos massiva, mudou completamente o seu conteúdo ao longo dos últimos anos. Com isso, as bandas novas têm colocado muitas fichas (quase todas) na internet.

Tonho Crocco – Mas é isso. A nossa única esperança é a internet. Hoje, é através ela que tenho conseguido fidelizar o meu público. Tenho conseguido eliminar os atravessadores, vender o meu vinil e o meu CD direto pro meu fã. As pessoas, pelo menos comigo, veem o show na internet e comparecem ao local depois. A internet tem sido a saída para os alternativos e independentes. A MTV, pegando o gancho do teu comentário, fez essa função nos primeiros anos da emissora. Nessa época, ela lançou todo aquele movimento da Banguela e abriu espaço para as bandas da Rock It – a Ultramen, a Comunidade Nin-Jitsu, o Jorge Cabeleira etc. Depois, aconteceu com a MTV a mesma coisa que aconteceu com as rádios: as gravadoras começaram a tomar conta da playlist. Hoje, a MTV praticamente nem existe mais. Virou um canal de reality shows. Que pena, né? Uma lástima.

“Aconteceu com a MTV a mesma coisa que aconteceu com as rádios: as gravadoras tomaram conta da playlist. Hoje, aquilo virou um canal de reality shows. Uma lástima”.

Muito tem se falado atualmente de uma mudança na forma como o artista sustenta a sua carreira e se mantém financeiramente: fala-se que, antigamente, a venda de discos garantia alguma verba; hoje, os shows se tornaram a principal fonte de renda porque a comercialização de música já não fecha com os mesmos números de tempos atrás. Mas tenho a impressão de que com a Ultramen, por exemplo, os shows sempre foram o carro-chefe, né? Mesmo quando a indústria fonográfica enriquecia muita gente.

Tonho Crocco – Cara, as bandas independentes NUNCA ganharam dinheiro vendendo discos, nem antes da internet, nem antes da pirataria. Eram vendas de 10, 20, 30 mil no máximo e isso não sustentava os gastos de uma banda. Depois, com a pirataria, vender 10 mil já era  bater no teto. Claro que sempre teve quem vendesse o suficiente pra viver dessa venda. Havia, por exemplo, os caras que ganhavam discos de ouro, vendendo mais de 100 mil cópias, mas esses caras estavam em outro patamar de popularidade. Eram artistas de massa ou eram fenômenos independentes muito isolados, como os Raimundos, por exemplo, que eram independentes, estouraram e começaram a vender muito de uma hora pra outra. Com a Ultramen, isso de explodir e começar a vender em larga escala nunca aconteceu, então sempre trabalhamos com números baixos, nunca contando com este valor, que mal pingava no nosso bolso. Tanto antes quanto agora, o show sempre foi onde ganhamos o nosso dinheiro. Talvez por nunca termos chegado a ser uma banda mainstream, ou talvez porque a própria indústria em si seja assim mesmo.

Parte do teu disco novo foi financiado através de um edital. Outros artistas têm buscado fundos de cultura, apostado em financiamentos coletivos… há vários modelos e nenhum parece tão melhor do que os demais. Pela tua experiência, como tu acha que o mercado da música vai caminhar no Brasil daqui pra frente?

Tonho Crocco – Olha… o meu disco novo saiu por um edital da Natura. Ou seja, uma empresa privada investindo em música através de mecanismos estaduais e federais. No meu caso, através do PRÓ-CULTURA, que é do governo do estado. Eu particularmente acho que esse exemplo da Natura precisa ser adotado por mais marcas, porque não é só o governo que tem que bancar cinema, teatro, discos e espetáculos, sabe? É um erro depender tanto do dinheiro do governo. E o crowdfunding é outra coisa que tá aí pra ajudar e que já tem ajudado muito. Vejo esse modelo com possibilidade de aumentar e melhorar bastante nos próximos anos.

Em uma entrevista tua há algum tempo, tu comentou que o TNT, os Replicantes e o De Falla haviam sido algumas das tuas principais referências no início da carreira. Quando o teu disco novo saiu, muita gente nova que trabalha com música veio comentar dele pra gente. Hoje, tu é a referência para os mais novos. Rola de pensar nisso às vezes?

Tonho Crocco – Pois é… eu tinha 16 anos e ouvia todas essas bandas. Ouvia Cascavelletes e Garotos da Rua também! O rock gaúcho como um todo. Depois, fui abrindo o leque para outras coisas, mas no início era bem isso. E hoje eu vejo garotos de 16 anos ouvindo Ultramen, Comunidade, Tequila Baby… são os ciclos que ocorrem na arte. A melhor forma que encontrei de lidar com isso foi tratar bem quem vem até mim, porque eu sei que a pessoa nunca vai esquecer da forma como eu tratei ela. A gente nunca esquece do contato que tem com alguém que vemos como uma referência.

Tem pelo menos um lado ruim em se tornar um artista com obra muito conhecida, né? Outro dia, caí em um link de YouTube com a música “Peleia” e, nesse link, vários internautas elogiavam a letra (aparentemente sem tê-la entendido) e discutiam em tom xenófobo e quase fascista uma possível emancipação do Rio Grande do Sul.

Tonho Crocco – Bom… são uns caras que não entenderam nada, né? Mas não tem nada de novo nisso, porque xenófobo e fascista sempre é muito burro mesmo.  Tá lá na letra: “Somos BRASILEIROS do Rio Grande do Sul”. Enfim, cada um interpreta como quer, mas é um pouco acéfalo usar “Peleia” pra falar de separação, porque a letra fala justamente do contrário. Fala sobre fazer com que o Rio Grande do Sul se faça mais presente no país.

Ao longo da tua carreira, tu nunca te privou de discutir esses temas mais polêmicos. A Ultramen já discutia o machismo nos anos 90, por exemplo. “Tubarãozinho”, de 2007, era um tabefe na cara do ativismo playboy de fachada. Tem ainda aquele teu episódio de 2011 com o rap “Gangue da Matriz”, que criticava o aumento salarial dos deputados estaduais gaúchos. Atualmente, o país é um varal de temas polêmicos e discussões infindáveis e, no contraponto disso, Das Galáxias é bem romântico e “good vibes”. Como tu acha que o disco novo se relaciona (ou não se relaciona) com o atual momento do país?

Tonho Crocco – Então, na Ultramen a gente sempre falou de política e levantou os debates quando sentimos que era necessário. No meu trabalho solo, não só nesse disco mais recente, mas no primeiro também, eu trato de temas mais introspectivos. Vejo que são dois discos que falam do amor, por exemplo, de um jeito que a Ultramen nunca falou. Na banda, a gente usava muito o ódio, a indignação e a ironia. No trabalho solo, eu tenho outra linha e falo sobre coisas de pele mesmo: a tristeza, a solidão, o amor… e esse clima “good vibes” que tu comenta acaba aparecendo porque as canções são mais ensolaradas mesmo e, por que não dizer, mais vivas. Nos discos solos, não existe a guitarra pesada com distorção, não existe o reggae, não existe o rock’n roll. Na carreira solo a parada é samba, samba-rock, suingue, funk, R&B e soul music. Esse é o papo.