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Talking Heads Psycho Killer

Em 1977, as cabeças pensantes não eram punks (nem disco)

Era uma vez uma banda que merecia ter os seus quatros primeiros álbuns em qualquer lista de “melhores de todos os tempos”. Essa história é verdadeira e o nome desta banda é Talking Heads; e os álbuns acima citados são 77 (1977), More Songs About Building and Food (1978), Fear of Music (1979) e Remain in Light (1980). O primeiro destes, 77, ficou marcado por fazer oposição ao punk rock e à disco music no auge dos dois movimentos, e acabou posando para a posteridade com  influência maior do que boa parte dos trabalhos gerados por essas duas correntes praticamente adversárias.

Talking Heads: 77

O três últimos LPs listados já contavam com as mãos do “não-músico” Brian Eno na produção, parceria que seria decisiva para levar o som dos Heads a oceanos musicais nunca dantes navegados, influenciando de modo incisivo o panorama da música pop dos anos 80. No entanto, verdade seja dita, a gênese de toda aquela gradativa fusão de sons eletrônicos com polirritmia percussiva do grupo já estava condensada na despojada instrumentalização e na força das composições do LP de estréia, do qual Eno não participa.

O álbum transcendia por sua criatividade mesmo contextualizado em um ambiente de absoluta efervescência criativa, em que despontavam nomes como Patti Smith, Ramones, Blondie e outros tantos que tornaram legendário o então obscuro clube noturno CBGB, em Nova York.

O núcleo inicial dos Heads surgiu quando David Byrne decidiu formar uma banda junto com seu colega da Rhode Island School of Design, Chris Frantz, mas a idéia só tomou fôlego mesmo quando convocaram a namorada de Chris, Martina Weymouth, para tocar baixo. Eles se mudaram para Nova York em 1974 e já no ano seguinte começaram a se destacar no circuito local. Com a entrada de Jerry Harrison (ex-Modern Lovers) na segunda guitarra/teclados, a banda tomaria o seu formato clássico e a sua sonoridade definitiva.

Talking Heads 1977

Os Talking Heads sem peito peludo e beca branca; sem jaquetas de couro e canções 4×4: ninguém até hoje sabe como eles foram parar em 1977.

Com essa formação definida, os Talking Heads entraram em um pequeno estúdio durante janeiro de 1977 para as sessões de gravação de seu LP de estréia: um álbum extraordinário, dadas as circunstâncias em que foi gravado.

O clima no estúdio era de tensão permanente entre a banda e um dos produtores, Tony Bongiovi, que a princípio queria outros músicos tocando os instrumentos no disco por não considerar os membros da banda suficientemente competentes para gravar. Byrne também não era fácil, e recusava-se a gravar qualquer vocal com a presença de Bongiovi no estúdio.

No meio de todo esse impasse, prevaleceu a concepção da banda, que forjou ali uma trama musical ímpar para as canções que Byrne trazia de casa. Algumas eram repletas de observações cortantes a respeito das relações interpessoais:

Outras eram perpassadas pela mais fina ironia:

Embora até hoje a obra do grupo soe muito comercial – o hit indie “Psycho Killer” é um grande exemplo disso – o disco 77 foi na época uma oposição a tudo que se produzia de mais comercial no meio alternativo e, justamente pela sua originalidade, foi tão influente na cena de então quanto grandes movimentos que viviam sua grande fase. Basta lembrar, por exemplo, que o ano de 1977 foi marcado por discos de Ramones, Clash e Sex Pistols, todos eles duros e retilíneos (o Clash só piraria no groove anos mais tarde), ao avesso do que propunham Byrne e seu pessoal ao som de batidas que poderiam facilmente ser dançadas. Nos anos 80, essas batidas vazariam na obra de muita gente.

O final dos anos 70 também marcava o auge da disco music no norte do planeta. “Os Embalos de Sábado à Noite”, com John Travolta dançando com o peito peludo à mostra, também é de 1977. Mas até diante da disco music os Talking Heads marcavam oposição ao apostar em instrumentais mais complexas e produzir sons que certamente não poderiam ser dançados em pistas iluminadas por aqueles globos reluzentes – bandas de origem punk, como o Blondie, seriam surpreendentemente absorvidas por estas pistas com mais facilidade.

Em meio a tantas fontes que davam pistas sobre o que era mais viável artística e financeiramente, os Talking Heads decidiram ser um elo perdido na dualidade pop de sua época e marcar presença justamente por isso. Essa atitude talvez significasse ser a “cabeça pensante” no meio de tanta informação: saber filtrar o que havia de matéria-prima, fugir de rótulos fáceis e tentar ser criativo numa época que teimava em lapidar apenas gregos e troianos. Se desse para ser marcante, melhor; do contrário, bastaria ser único. No fim, 77 acabou conseguindo as duas coisas.