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Elis Regina & Maísa

Elis & Maísa: almas meio-irmãs

Era um apartamento que Elis tinha alugado para ficar durante uma temporada de shows no Canecão. Ficava na Rua Francisco Otaviano, Posto Seis, perto do Forte Copacabana. Ali, em uma entrevista que fiz para a revista Fatos & Fotos, guardei uma frase que ficou marcada na minha mente como sendo o retrato de Elis: “É mais fácil me encontrarem fazendo comida para os meus filhos do que numa festa da high society fazendo cara de Barbra Streisand”. Apesar da autenticidade da frase, ela não parecia feliz, e foi a última vez em que conversamos.

Elis Regina & Maísa

Corte a cena e vamos para um bar, em véspera de sábado. Maré cheia e tudo mais. Uma amiga em comum veio me chamar porque Maísa estava triste em outro cômodo do lugar e precisava conversar com alguém. Fui arrastado, aflito e, chegando lá, vi apenas o corredor vazio por onde ela havia acabado de sair com todas as carências que carregava naquela noite. Foi a última vez em que quase vi Maísa.

Anos depois, a Brasília placa FJ-5505, de São Paulo, bateria na mureta que até hoje divide as pistas da ponte Rio-Niterói. Maísa, a motorista, seguia sozinha para Maricá, no litoral Fluminense, onde tinha uma casa de praia. Dirigia sozinha e levava utensílios, alimentos e alguns objetos que usaria no final de semana ao lado de seus cachorros e gatos. Usava calça jeans, blusa amarelo-claro e botas. Pouco antes do acidente, havia escrito uma poesia que não chegou a virar música: “Há no ar um imenso desejo de adeus / Não há a menor dúvida”.

Tanto o copo meio cheio quanto o copo meio vazio foram pouco para as sedentas Maísa e Elis.

Elis e Maísa. Biografar é fácil, impossível é retratar de verdade. Dados, datas, recordações e percalços fatais. O quanto nos contam? Adjetivos nos sobram: talentosas, famosas, maravilhosas, irreverentes. Angustiadas, acima de tudo, porque nenhuma delas conheceu a paz. Foram duas vidas consumidas em buscas incessantes e viscerais. Duas biografias que nos permitem enxergar as coisas de diversas formas. Há quem goste de enxergar o copo meio cheio, e há quem enxergue o copo meio vazio. Ambos foram pouco para quem teve tanta sede.

O primeiro show de Elis Regina estava pronto desde maio ou junho de 1964. Faltava tirá-lo do papel. Começamos a levá-la ao Beco das Garrafas para que a então jovem promessa se acostumasse com o ambiente e entendesse a barra pesada que era a noite carioca. Em termos de competição, ninho de cobra era pouco. Diante da música, no entanto, ela ignorava o ambiente de casa de marimbondo e mais parecia uma criança diante dos presentes de uma árvore de Natal. Não parava na cadeira. Ali, viu Sérgio Mendes, ainda sem barba e sem dólares; Jorge Ben, ainda chamado de Jorge Babulina; Flora Purim, mais desafinada que o sambinha de Tom; e Edu Lobo, na época, ainda “o filho do Fernando Lobo”.

Elis Regina - Fotos

A Elis deslumbrante sobre o palco (à esquerda) trazia dentro de si a mãe atenciosa (ao centro) e a mulher meiga (à direita), por mais que o clichê planifique a sua personalidade para as gerações atuais.

Nos ensaios, Elis se comportava como se estivesse sempre em sua estreia. Dava tudo de si mesmo sem plateia presente. Era a primeira a chegar e a última a sair. Isso cantando. Quando largava o microfone, era uma menina que já não aguentava a pressão precoce. Queria largar tudo e voltar para Porto Alegre. Permanecia no Rio apenas porque queria que o Brasil a tivesse como a maior cantora em atividade, posto que ela própria já tinha tomado para si em conversas mais informais. Convencida e petulante, como sempre foi, antes ou depois do sucesso, e como não era comum que as mulheres fossem naquela época. Elis, ame-a ou deixe-a. Muitos a deixaram, mas muitos a amaram também, como mostrou a comoção nacional naquele 19 de janeiro de 1982, quando ela partiu. A comoção, inclusive, foi a prova de sua popularidade. Uma pena que tal prova tenha vindo postumamente, já que em vida ela sempre reclamou de vender menos discos que a (“bunda da”) Gretchen.

Maísa, que dizia ter muitos machucados pelo corpo inteiro, morreu machucada. Dizia ter muita necessidade de dizer o quanto amava as pessoas, e também dizia só conseguir fazer isso com o auxílio da bebida. Por amor, bebeu. Dizia que costumava ela própria destruir os amores que mais queria, e de fato destruiu muitos deles. Sentia falta de muita coisa, e sempre falava da infância, não para justificar, mas para tentar se entender melhor.

Como o colégio interno era o certo na opinião da família, ela deixou para trás um casarão no Rio, com suas mangas doces mordidas de morcego, e passou boa parte da infância no Sacré-Coeur. Sentia falta do perfume da mãe, então pediu que levassem ao colégio um vidro do mesmo perfume para que ela o derramasse no próprio travesseiro. Anestesia em cima de anestesia. Talvez por isso o gosto mais forte de sua infância tenha sido o licor que ela bebia quando sobrava algo nos copos das visitas que iam embora.

Maísa - Fotos

Pode parecer estranho, mas Maísa também sorria (à esquerda), sabia ser simpática (no centro, ao lado de Chacrinha) e às vezes era triste (à direita, com a face que a mídia mais gostou de retratar).

Uma vez, um crítico escreveu que Maísa tinha despontado como uma Cinderela às avessas: moça da alta sociedade, casada com um grande magnata paulista, se dispusera a descalçar os sapatinhos de cristal. Gostava mesmo era de andar descalça. Certa noite, inclusive, ficou descalça porque atirou os seus sapatos em uma mesa de boate que estava fazendo muito barulho. As vítimas do arremesso talvez imaginassem que ser bonita, rica e talentosa fosse o suficiente para ser feliz. Maísa queria ainda silêncio e muitas outras coisas que talvez nunca chegasse ou chegou a ter.

Quando Jayme nasceu, ainda não se sentia mãe e chegou a ter ciúme do próprio filho por ele poder ser a criança que nunca a deixaram ser. Morreu tentando ter a sua infância ou algo dela de volta, na verdade. E, cinco anos depois, se foi a Pimentinha que tentou o mesmo. Duas mulheres complexas e multifacetadas, esculpidas pela dor e apimentadas por sentimentos dos mais diversos. Entre as duas, cinco anos, histórias cruelmente parecidas e construídas numa época hostil à mulher. Por isso o desejo de voltar para casa do qual Elis tanto falava. Por isso o perfume sobre o travesseiro. Por isso o licor. Por isso agora a saudade, que é toda nossa.

Edição sobre texto de Renato Sérgio publicado originalmente pela revista Ele Ela em 1992, recuperado com a ajuda de Adilson Oliveira e Césio Vital Guaudereto.