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Elas têm voz?

Há exatamente um século, ela sacudiram as fábricas russas durante vários dias e literalmente deram a vida por melhores condições de trabalho, visibilidade e direitos iguais aos dos homens. 100 anos depois, alguns campos da sociedade ainda parecem pouco acolhedores para as mulheres, e a música é um deles. Em especial, o terreno da composição. Em pleno século XXI, a luta das mulheres compositoras ainda busca aumentar a participação das mulheres em um mercado que continua sendo dominado por homens.

Texto publicado originalmente na Revista UBC #27.

Chiquinha Gonzaga em seu mais famoso registro fotográfico: a primeira mulher a compor profissionalmente no Brasil viveu de música até os 87 anos.

Chiquinha Gonzaga em seu mais famoso registro fotográfico: a compositora que viveu de música até os 87 anos ainda é um ponto fora da curva na história da música brasileira, dominada por compositores homens.

Para ilustrar o desafio, cabe trazer um número interessante: apenas 8% dos compositores filiados a União Brasileira de Compositores são mulheres. Fernanda Takai, líder da banda mineira Pato Fu e dona de 44 composições desde o seu surgimento no cenário nacional na década de 90, acredita que esses dados devem melhorar aos poucos, porque o desejo das mulheres de se expressar através das letras cresce à medida que as mulheres conquistam mais posições na sociedade.

“A história do nosso país é muito recente e a das mulheres no poder é mais ainda. Lembro que meu pai gostava muito de Dolores Duran e, quando ela morreu, ficou um vazio. Mas acho que o vácuo foi sendo preenchido com o passar dos anos. E nada mais justo porque, em um país com grandes vozes femininas, é também muito justo que as mulheres se sintam à vontade para escrever e falar diretamente através de uma canção”. Fernanda Takai, Pato Fu

Realmente essa história é bem recente. Mais especificamente, só foi começar em em meados do século XIX. Na época o piano era o objeto que traduzia claramente um status social numa sociedade escravista e colonizada. Mulheres já tocavam e até criavam canções, mas não se profissionalizavam como os homens, porque ficavam atadas ao lar e à família. Nascida em 1847, Chiquinha Gonzaga foi a primeira mulher a se firmar como compositora, tendo começado em 1877 com a polca “Atraente”, a primeira de suas mais de duas mil (!) composições. A mais famosa, “Ô Abre Alas”, foi escrita em 1899, quando Chiquinha já era uma artista consagrada. Enfrentando todo tipo de preconceito, ela conseguiu realizar o sonho de viver de música até a sua morte, em 1935, aos 87 anos.

Com o fim da produção musical de Chiquinha, afirma-se por aí que foi instaurado um vazio no universo das compositoras que durou até os anos 50, quando despontaram nomes como Dolores Duran e Maysa. Mas um trabalho de pesquisa quase arqueológico mostra que, nas décadas de 30 e 40, três nomes também fizeram parte da história das mulheres na música, mas acabaram negligenciados pela falta de registros: Bidu Reis, cantora de rádio que produziu baiões, sambas e boleros; Dora Lopes, compositora com mais de 300 canções registradas em disco; e Carmen Miranda, maior símbolo brasileiro no exterior durante aquele século, cuja faceta compositora acabou abafada pela de cantora, atriz e ícone popular. “Os Hôme Implica Comigo”, de Carmem, é uma parceria dela com Pixinguinha que destaca a mulher brasileira como vítima do preconceito tentando a todo custo viver em uma sociedade dirigida e organizada por homens.

Na época em que Carmem Miranda brilhou, surgiu também Ivone Lara, que enfrentou a resistência machista e compôs em 1947 o enredo da extinta escola de samba Prazer da Serrinha: “Nasci Para Sofrer”. A década de 40 ainda viu surgir outra mulher que compôs canções de sucesso, Anastácia, que utilizava ritmos nordestinos, mas que acabou abafada pelo trabalho de seu marido, o acordeonista Dominguinhos. Já Dolores Duran, uma das poucas mulheres a desbravar o universo do mainstream naquela metade de século XXI, começou como atriz de rádio e logo estava cantando em boates impulsionada por amigos que acreditavam na sua música. Frequentando um universo nada receptivo para artistas do sexo feminino, ela abriu caminhos para a geração que ainda teria Maysa como expoente de grande visibilidade.

Enquanto Maysa criava suas canções sobre amor e fossa no Rio, em Juiz de Fora (MG), a carioca Sueli Costa começava a dar os primeiros passos de uma carreira marcada por inúmeros sucessos. Ainda na ativa aos 73 anos de idade, ela sequer sabe o número de músicas que criou ao certo. O Dicionário da MPB, de Ricardo Cravo Albin, elenca 95 faixas, grande parte em parcerias com Abel Silva Cacaso e Tite de Lemos.

Quando surgiu, Sueli não tinha muitas referências femininas para seguir, tanto que atribuiu aos seus amigos homens à época o gosto pela música.

“Eu tinha muitas amigas mulheres e, de repente, do nada, fiquei só com amigos homens. Coincidentemente, todos eram ligados à música e me despertaram o desejo de viver da arte. Naquele tempo, as únicas mulheres do nosso grupo eram as namoradas e esposas dos meus amigos. E eu, ali no meio. Todos perguntavam ‘que mulher é essa?’. Felizmente, as coisas mudaram muito nos últimos 50 anos. Outro dia, li uma entrevista de uma estrela de Hollywood que reclamava da ausência de bons papéis para as mulheres nos filmes. Ela tem razão, mas, se soubesse como era no meu tempo…”. Sueli Costa, cantora e compositora

Contemporânea de Sueli, Joyce surgiu tocando violão e escrevendo músicas na primeira pessoa do singular, causando um escândalo logo em sua primeira apresentação no Festival Internacional da Canção de 1967, com a música “Me Disseram”.

Joyce é uma compositora incrível, uma violonista maravilhosa e uma mulher que viveu de perto os preconceitos de ter sido pioneira no que faz. Ela sempre fala do dia em que um cara disse que ela ‘tocava tão bem que parecia um homem’. Que bom que ela teve atitude e persistiu. Rita Lee e Marina, que vieram na sequência, também são muito importantes para todas da minha geração, que é a mesma de Adriana Calcanhotto e da Marisa Monte. A Rita Lee é uma desbravadora. Dizia que era ‘mais macho que muito homem’. Isso inspira a gente a ser autoral na vida”. Zélia Duncan, cantora e compositora

Na década de 60, grande parte das sugestões das ideias e das inovações na música dos Mutantes eram propostas Rita, que depois levou o bom humor de suas tacadas às canções que compôs em sua carreira solo, após sair (ou ser “saída”, nunca saberemos) da banda em 1972. Em parceria com o seu segundo marido, Roberto de Carvalho, ela escreveu seus maiores sucessos, vindo a ser considerada hoje a primeira compositora de rock do Brasil, referência para diversas mulheres que seguiram a carreira artística.

“Eu gostava muito de pegar o violão e dublar, fingir que estava tocando. Um dia a minha mãe, que não era musicista, me flagrou e decidiu me mostrar os três acordes que ela sabia. Aprendi a tocar ‘Ovelha Negra’, da Rita, e, com os três acordes da minha mãe, consegui fazer um monte de músicas”, conta Tulipa Ruiz, que demorou a se assumir como profissional da música, mas agora já acumula 59 composições. A compositora paulista acredita que os avanços da mulher na música, ainda que tímidos são frutos de melhorias na autoestima da mulher dentro da sociedade.

Isabella Taviani, que já compôs mais de 125 músicas profissionalmente, assume que o que faz de melhor é cantar, mas que foi inspirada a compor observando as referências que apareceram à sua frente.

“Meus primeiros ídolos na música, Simone, Maria Bethânia e Elis Regina, não compunham, mas com o tempo me encantei com Adriana Calcanhotto e Sueli Costa, que tinham como característica maior o seu trabalho autoral. Eu notei com elas que a mulher poderia ter o seu próprio texto, e não só tocar o coração dos outros com a voz. Acho que essa experiência praticamente me obrigou a compor”. Isabella Taviani, cantora e compositora.

Inspiração, autoestima, mais referências… os ingredientes para que a mulher tome a sua parte em um mercado ainda muito masculino parecem estar na mesa, mas logicamente qualquer avanço vai depender muito do engajamento. Ainda sem regulamentação, a profissão dessas mulheres promete ser pauta de muitas discussões para que, no futuro, não haja necessidade de dúvida quanto à flexão do gênero na hora de escrever “Profissão: Compositora” na ficha de um hotel. Culinariamente falando, tudo o que há em termos de conquistas ainda é apenas “ingrediente” do que está por vir: o “modo de preparo” para o surgimento de mais compositoras não é apenas deixar que o tempo cumpra o seu papel, e sim investir em atitude e mobilização.