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Egberto Gismonti

Egberto Gismonti: ágil como um menino e sensível como um ancião

Você pode discutir música falando de influências, de técnicas, de letras, de melodias… mas tem uma coisa que está impregnada no som, que raramente é discutida e que invariavelmente afeta o que escutamos: a quilometragem do artista que executa a música. Discutir a música de Egberto Gismonti falando apenas de coisas objetivas, sem considerar a “dimensão tempo”, é deixar de discutir o mais importante e é perder de vista o único fator capaz de explicar o quão ímpar Egberto consegue ser sobre o palco mesmo após acumular 70 verões na sua conta. Isso ficou outra vez evidenciado na passagem do músico pelo Bourbon Street no último dia 25.

Egberto Gismonti

Egberto Gismonti no Bourbon Street: com 70 anos sobre os ombros, o artista revisitou a sua obra oferecendo novos olhares sobre cada nota. Foto por Felipe Mioti.

Nascido em 1947 na pequena cidade do Carmo, no Rio de janeiro, Egberto sempre foi um estudioso da música. Aprendeu a tocar muito cedo e, ainda jovem, já conseguia flutuar por diferentes instrumentos demonstrando a mesma destreza. Ainda sem cabelos brancos, destacou-se nos antigos festivais populares, chegou a morar e trabalhar na Europa, mergulhou em gêneros tipicamente brasileiros e acumulou muita bagagem ao longo de uma carreira que praticamente começou junto com a sua existência. As colaborações junto a Naná Vasconcelos e Charlie Haden, que deram grande visibilidade a Egberto, vieram a comprovar o que depois se tornaria a sua marca: apesar de estudar muito, sua maior qualidade sempre foi oferecer nova visão às coisas que assimilava; conhecia amplamente as escolas, mas nunca obedeceu cegamente a elas. Seu som sempre foi muito seu.

Em seu primeiro show no Bourbon Street, uma das casas mais tradicionais de jazz em São Paulo, o espaço estava apinhado para observar os improvisos que só quem conhece muitas enciclopédias é capaz de executar. Talvez por isso Egberto Gismonti soe como jazz ainda que toque chorinho, baião ou violão clássico. O improviso é sua retórica preferida. Volta e meia, em suas apresentações, um gênero destes aparece dentro de outro. A única coisa certa em uma apresentação do músico é que ele irá surpreender os presentes.

Egberto Gismonti no Bourbon Street

Egberto Gismonti no Bourbon Street: canções e histórias curiosas contadas pelo músico fizeram o apanhado geral de uma carreira com mais de 50 anos. Foto por Nome em Vão.

Passeando pela própria obra – o show era uma comemoração aos 50 anos de carreira, dizia o release distribuído à imprensa – e dividindo o show entre momentos ao violão de 10 cordas e ao piano, Egberto homenageou os já citados Naná Vasconcelos e Charlie Haden, sem esquecer de Pixinguinha, uma de suas eternas fontes de inspiração. Egberto conseguiu unir arpejos dos mais complexos a gestos mais singelos e ainda encantou a plateia com sua simplicidade ao narrar pequenas histórias de suas tours por Japão, Índia, Estados Unidos e Europa. Nas histórias e no talento revigorante sobre as releituras que fez, Egberto mostrou como a experiência é capaz de afetar os sons, ainda que colocar este afeto em palavras seja bastante difícil para o jornalista.

Após os 90 minutos de uma musicalidade bastante particular, a maior reclamação sobre o show era quanto ao serviço da casa, que acertadamente interrompeu o atendimento ao mezanino para não atrapalhar um espetáculo que precisava de silêncio para acontecer. Como falamos no início, você pode mesmo discutir a música a partir de critérios mais burocráticos, e também pode discutir um show com base em apontamentos específicos como o atendimento dos funcionários locais. Para os sempre bem-vindos burocráticos, sempre haverá quesitos objetivos para se avaliar a noite. Para quem esquece essas objetividades e se entorpece na experiência, felizmente, sempre haverá um Egberto Gismonti.