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Diversidade e preconceito musical no Brasil

Quando se procura desenhar o panorama da formação cultural do Brasil, palavras como diversidade e miscigenação são frequentemente usadas para retratar a ampla confluência de etnias, credos e infindáveis culturas que acompanhou a ocupação do território nacional por indígenas, portugueses, africanos e milhões de imigrantes de toda parte do mundo. Abraçar o argumento da diversidade sem analisar a fundo nosso cenário cultural, entretanto, é um equívoco. Gêneros musicais que disseminam-se entre as classes menos abastadas, por exemplo, são envoltos em um preconceito social – embasado em questões muitas vezes morais – que, por vezes, nada tem a ver com qualidade de fato. Neste panorama, o funk e o tecnobrega hoje despontam como vanguardas musicais no exterior, enquanto ainda lutam para serem aceitos no Brasil.

O baile todo

Dos morros de onde o samba começou a reverberar, hoje se ouve o funk, o pagode e os “ritmos de ostentação”. Ao longo de um território brasileiro muito mais descentralizado econômica e culturalmente, porém, regiões outrora isoladas servem de berço para as novas vanguardas. Mistura de ritmos locais como o caribó e o calypso com a temática brega, o tecnobrega nasceu no Pará e se espalhou país afora ao longo da década de 2000. Hoje despontando no mainstream com expoentes como Gaby Amarantos e o grupo Gang do Eletro, o ritmo já emplacou música-tema de novela, colecionou honrarias nacionais e internacionais e tem ganhado espaço em programações de festivais estrangeiros, como o “caçador de talentos” South by Southwest, realizado anualmente em Austin, no estado norte-americano do Texas.

Por situação parecida passou o funk carioca, há cerca de dez anos. Totalmente distinto do ritmo homônimo surgido nos Estados Unidos em meados dos anos 60, o pancadão das favelas foi herdeiro do miami bass e adequou a seu repertório elementos de freestyle, tornando-se conhecido internacionalmente, para efeitos de diferenciação, como baile funk.

Mais sobre a história deste gênero pode ser conferido em outra reportagem da JPress, publicada em outubro de 2012.

Já o pagode, ramificação do samba bastante disseminada em festas de fundos de quintal no Rio de Janeiro, popularizou-se entre as décadas de 80 e 90 através de figuras como Jorge Aragão, Zeca Pagodinho e Beth Carvalho, ganhando em seguida uma visibilidade sem precedentes através de grupos como o Raça Negra, o Exaltasamba e o Art Popular. Com letras carregadas de romantismo e herdando elementos de gêneros aparentemente distantes como o rock e a MPB, o pagode dos anos 90 merece um capítulo à parte na história musical brasileira, devido às marcas deixadas não só no mainstream, mas no imaginário de centenas de artistas do underground.

Embora dotados de sonoridades díspares, estes ritmos compartilham situações semelhantes não apenas entre si, mas com inúmeros outros movimentos, como o forró, a lambada e até mesmo a tropicália. Os fatores que agregam ou segregam os estilos musicais de público e crítica se adaptam ao longo dos tempos, mas em essência são sempre os mesmos. Fazem parte de um jogo entre mainstream e underground, estética e essência, e, ainda, evidenciam uma luta entre elite e classes menos abastadas.

Muita treta

Ao final da década de 60, durante o regime militar, eclodiu no Brasil o movimento tropicalista, destoando das correntes musicais da época e bastante influenciado pela cultura estrangeira, sobretudo o pop norte-americano e britânico. Gilberto Gil, Caetano Veloso e Os Mutantes foram alguns dos que enfrentaram críticas de uma sociedade habituada a ritmos nacionais como a MPB e a bossa nova. Á época, em 1967, chegou a ser organizada em São Paulo uma passeata contra a guitarra elétrica, instrumento considerado símbolo do imperialismo e disseminado entre os traidores.

Dois anos antes, outro episódio famoso envolvendo a guitarra elétrica ocorreu no tradicional Newport Folk Festival, em Rhode Island, Estados Unidos. No show mais simbólico de sua carreira, Bob Dylan foi vaiado por grande parte de sua audiência, que criticava o maior expoente do folk por usar uma guitarra elétrica em sua performance, em contrapartida à tradicional instrumentação acústica, com violão e gaita. O episódio mostra que, embora a intolerância inicial com o samba e a tropicália encontrem eco em outros problemas bem atuais do Brasil, o preconceito não é característica exclusivamente nacional, e, sim, um incômodo natural diante do diferente, do estranho, do novo.

A discriminação sobre os ritmos mais recentes, como o funk e o tecnobrega carregam também um amplo fator social. No caso do pancadão carioca, a estrutura lírica ainda contribui para este distanciamento. “O funk tem sim letras proibidonas, sexistas e machistas, mas a pessoa sequer ouve o funk menos agressivo e já iguala tudo no ruim. Já no caso do tecnobrega, o lance é o preconceito pelo desconhecido mesmo”, afirma Marcos Lauro, jornalista e colaborador da revista Rolling Stone.

Forró e música eletrônica misturados em cena comum no norte do Brasil. (Foto: BÉCO DRANOFF)

Para Marcos, o preconceito tupiniquim “é igual aos tantos outros preconceitos que o ser humano tem, independente de ser brasileiro ou não”. Entre esses seres humanos, está Rachel Sheherazade, por exemplo, âncora SBT Brasil famosa por opiniões rígidas e reacionárias feitas em rede nacional. Recentemente, Sheherazade direcionou seus ataques a uma estudante carioca, mestranda em Culturas e Territorialidades, que elaborou um projeto de dissertação acerca da funkeira Valesca Popozuda e as relações de suas letras com o pensamento feminista. Na crítica à estudante, a jornalista não só se revelou pouco receptiva à sonoridade do funk como equivocadamente questionou a presença do ritmo na cultura nacional.

A rejeição causada pelas produções simples e pelas letras simplificadas é colocada como questão de gosto, e, como diz a máxima, este “não se discute”. Entretanto, a insistência em marginalizar alguns gêneros musicais, excetuando-os do conceito de cultura e reservando minutos de um telejornal para colocar-se contra a realização de um trabalho acadêmico revela a continuidade de um elitismo cultural que aceita novidades apenas dentro de limitações e, geralmente, sob influência da mídia.

No Pará, a relação do tecnobrega com o público é semelhante. Oriundo sonora e ambientalmente das periferias, o ritmo compartilha uma produção simplista com o funk e isso mantém uma larga parcela da população distante. Os olhos e ouvidos reprovadores adaptam-se conforme a produção evolui e o movimento ganha visibilidade, embora – como em qualquer outro gênero – sua extensão menos pop, mais enraizada na localidade, e que atrai e destila um caráter transformador à população mais carente, segue pouco divulgada e disseminada.

Festas de aparelhagem

A promoção de uma diversidade musical é, há tempos, preocupação dos diferentes segmentos culturais, ainda que estes sejam delimitados e “pasteurizados”. Gaby Amarantos, que com sua música-tema de novela navegou pelas águas de grandes emissoras ao mesmo tempo que crescia no underground, serviu como expoente do tecnobrega, mas tornou-se mais um caso sui generis do que uma disseminadora efetiva do ritmo paraense. Para Yuri de Castro, jornalista e repórter do site Fita Bruta, hoje Gaby não é “nada para ninguém, nem para o indie e nem para o ouvinte de FM.[…] Não deu certo. Investiram e não tocava em rádio. Ela tava dançando no Faustão, mas ninguém sabia que música ela cantava”.

Na opinião de Yuri, a também paraense Banda Calypso serve como um exemplo bem sucedido de disseminação dos ritmos e artistas locais, através da exposição que obteve no rádio. No entanto, ele afirma que ainda acha “muito pouca a invasão dos ritmos populares nas FMs e nas casas dos brasileiros”.

Por outro lado, o meio independente investe em produções diversificadas, como Jeito Felindie, tributo ao Raça Negra em forma de compilação de covers do grupo gravados por bandas independentes. Idealizado pelo jornalista Jorge Wagner com grande apoio do Fita Bruta, o projeto reuniu artistas de regiões e sonoridades diferentes, todos fãs confessos do pagode de Luiz Carlos e cia., presença constante nas FMs de outras décadas. Sem o mesmo investimento pesado e os grandes riscos do mainstream, a cena independente é ideal para projetos de qualidade e que rompam paradoxos. Segundo Marcos Lauro, “hoje o meio independente tem toda a força do mundo para fazer [as misturas] continuarem acontecendo”.

Ariane Alves, Marcelo Grava e William Nunes são jornalistas e colaboram com o New Yeah e com o portal Jornalismo Júnior, da Escola de Comunicações e Artes da USP.