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Disco Demência, Hierofante Púrpura

Disco Demência, novo disco da Hierofante Púrpura

Desde sempre, olhar para o passado é uma das principais formas de se fazer música. Partindo disso, existem basicamente dois grandes grupos de bandas: aquele das bandas que param na simples referenciação e aquele das bandas que ousam criar novos caminhos a partir do que já foi aberto pelos antepassados. A esse segundo grupo, pertencem os paulistas da Hierofante Púrpura, uma banda que, da composição à gravação, retrabalha o passado de forma muito particular. Disco Demência (Balaclava Records), novo disco do grupo, é uma demonstração dos resultados dessa prática, e até por isso o registro é um passaporte nostálgico que ainda assim é capaz de surpreender.

Disco Demência, Hierofante Púrpura

A Hierofante é muito mais do que apenas uma banda psicodélica experimental, e isso você já consegue perceber de cara quando dá um play em qualquer item da sua discografia de três discos e alguns EPs. Sua forma de construir as canções varia não só a cada disco, mas também a cada faixa. Levando o experimentalismo ao pé da letra, a banda se apoia sempre em referências infindáveis e as embala em métricas totalmente desconcertantes em que a voz é (sim!) o instrumento principal.

Na primeira faixa do novo disco, “Cachorrada”, o grupo recorre a timbres distorcidos e pianos bem marcados, revisitando algumas levadas já ouvidas em grandes clássicos do tempo em que a psicodelia e o groove andavam de mãos dadas. O som ainda conta com distorções e linhas de bateria que transitam entre explosões rítmicas e calmarias cadenciadas.

Logo na sequência, “Acalenta Lua” traz a sua tranquilidade regida por uma cama de sintetizadores e vocais arrastados que, ao decorrer da faixa, são tomados por uma jam de solos distorcidos que são muito valorizados pela gravação ao vivo.

Todas as faixas foram gravadas ao vivo, em 16 canais, de forma analógica. O método foi ao mesmo tempo um atrativo estético, uma satisfação de fetiche da banda e um desafio, afinal, sobrepor camadas no digital já é algo recorrente de tão prático que se tornou, mas no analógico o mesmo efeito exige mais do músicos e dos timbres de cada instrumento. A coisa deixa de ser tão simples assim.

“Baratas (Elas Continuam As Mesmas)” traz um refrão pesado e bem característico, conversa com o metal em seus primórdios, mas logo é encoberta pelas camadas de lisergia que a banda tem como costume e como característica estética mais marcante ao lado de suas bases totalmente desconstruídas.

Logo após, uma sequência de quase 20 minutos em apenas mais duas faixas, “Colapso Colorido” e “O Óxido da Rotina”, encerra o trabalho.

As duas canções se apoiam em longas sequências de solos e sobreposições. O resultado não emula nada feito em tempos passados, mas é possível encontrar a origem de cada elemento se você prestar bastante atenção.

Em Disco Demência, a Hierofante parece ter alcançado o auge do experimentalismo em sua discografia. E, melhor do que isso, conseguiu levar a prática experimental para muito além do jargão que ultimamente tem sido bastante utilizado para definir bandas estranhas que ninguém entende muito bem em qual praia está.

Ficha técnica:

Hierofante Púrpura é Danilo Sevali: Voz, Teclas, Guitarra Barítono / Helena Duarte: Baixo, Voz / Gabriel Lima: Guitarra Lead, Voz / Rodrigo Silva: Bateria. Participações especiais de Dinho Almeida (chorus em “Acalenta Lua” e “Colapso Colorido”), Paulo Barnabé (voz em “Baratas”) Victor V.B. (Vibraphone em “Colapso Colorido”) e Jonas Morbach (chorus e percussões em “Cachorrada” e frituras ritualísticas em “O Óxido da Rotina”). Arte da capa por Renan Cruz Produzido por Hierofante Púrpura e Jonas Morbach. Produção executiva por Mestre Felino Gravação. Mixagem e masterização por Jonas Morbach. Gravado ao vivo em plataforma analógica (16 track 1inchTape) no estúdio Mestre Felino em Dezembro de 2015, Mogi das Cruzes (SP-Brasil).