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Di Melo. Ele voltou!

Depois de ser dado como morto em um acidente de moto, Di Melo, um dos maiores expoentes da black music no Brasil (movimento que já pincelamos por aqui) voltou e voltou imorrível. Com seu recente disco Di Melo – Imorrível, lançado em março deste ano, o cantor pernambucano mostra como o amor pela música e pela família foram capazes de tirá-lo de um hiato de shows e lançamentos oficiais que durou mais de 40 anos.

Di Melo, Imorrível!

Para quem não sabe onde essa história começa, Di Melo apareceu no cenário da black music em 1975, quando lançou o seu primeiro álbum, homônimo. E o cantor pernambucano só conseguiu lançar este disco porque antes foi “descoberto” por Jorge Ben enquanto cantava numa feira em Recife.

“Ter encontrado o Ben ali me escancarou uma porta que foi essencial para minha carreira de músico. Ele olhou pra mim e disse ‘rapaz, você leva muito jeito pra coisa’. Só de ter ouvido isso do Jorge, um cara que pra mim, até hoje, é o maior gênio da música brasileira, já fiquei feliz demais”, me contou Di Melo no intervalo de um ensaio para um show em Manaus.

Além do elogio, Jorge Ben deixou com Di Melo um cartão com o contato do empresário Roberto Colossi, que trabalhava com Chico Buarque, Paulinho da Viola e outros artistas de sucesso na época. Di Melo foi para São Paulo encontrar Colossi. O empresário o apadrinhou e possibilitou que o cantor circulasse pela cidade tocando as suas músicas. Porém, logo depois, o empresário acabou falecendo.

“Então eu comecei a trabalhar na noite mesmo, desamparado. Graças ao Colossi, eu havia feito alguns contatos”, contou o cantor pernambucano lembrando da fase pós-empresário. “Eu era um cara que fazia amizade fácil e um dia o Alaíde Costa me levou para conhecer o diretor da gravadora EMI-Odeon, Moarcir Meneghini Machado. O cara me ouviu cantar e já me contratou”.

Di Melo recebeu tratamento diferenciado dentro da gravadora. O álbum de 1975, por exemplo, contou com um time de peso composto pelo multi-instrumentista Hermeto Pascoal, pelo maestro Ubirajara e por Rafael Medeiros, músico de apoio do argentino Astor Piazzolla. Fora isso, a EMI prensou três mil discos para divulgação e Di Melo ainda foi chamado para fazer músicas para outros artistas. Nessa onda, caras como Wando e Jair Rodrigues gravaram canções do mais novo astro da companhia, mas a frustração bateu em Di quando ele recebeu, por direito autoral, apenas 11 cruzeiros.

“Era uma prova cínica e sinistra de que eles estavam metendo a mão no meu dinheiro. Se eu tivesse, naquele momento, capacidade de perceber as coisas, eu teria ido à luta para receber decentemente pelo meu trabalho. Ao invés disso, eu saí fora. Tinha que ir a Recife trabalhar na promoção do disco. O combinado era que eu ficasse oito dias por lá, mas acabei ficando dez meses. Passei a não levar a sério ninguém e nem a gravadora”, explicou o cantor.

A partir dalí, o cantor se recolheu. Depois disso, pintou quadros (também é artista plástico) e criou músicas sem o intuito de apresentá-las à qualquer gravadora. Chegou a acumular mais de 400 canções, de onde saiu um álbum inteiro gravado por Geraldo Vandré. Só em 2002, quando a gravadora relançou o disco de 1975, o cantor viu que dava para retomar os trabalhos.

“Eu já havia perdido a vontade de fazer música profissionalmente, mas nunca deixei de compor e de tocar. Era só o sistema de produção que me desencantava mesmo. Mas daí a Gabi, minha filha, nasceu e fez com que eu arregaçasse as mangas de novo”.

Di Melo, Imorrível!
Foto: Paula Tonelloto

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O novo disco de Di Melo prova que ele, além de bem vivo, está aberto a novas misturas e experimentações. Aliás, o cantor fez questão de comungar o seu novo trabalho com caras novas da música brasileira, como BNegão, Larissa Luz e Olmir Stocker, que participam do álbum.

“Tenho hoje preocupações que me fizeram voltar para o mundo da música. Além da Gabi, há a dona Jô (esposa e assessora de Di Melo)”, contou ele, antes de lembrar que, mesmo após tantos anos escondido, ainda há quem lembre e goste dele em cada cidade onde tem pisado com a nova tour.

Ele então agradece a entrevista, mas pedimos um último recado, para finalizar a matéria. “O importante é perseguir a coisa. Se ela tiver que acontecer na sua vida, ela virá, como uma bandeira de prata com cobertura de marshmallow”. A conclusão otimista e psicodélica de Di Melo ficou no ar. Dias depois, saiu a capa do disco novo e aí deu pra entender melhor. É que a nova fase do cantor não é só viva, é imorrível. E ser imorrível significa, além de estar vivo, estar também cercado de uma porção de cores que façam a imortalidade valer a pena.