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De mão em mão, uma hora a vida fará sentido

Já faz mais de um mês que o Eduardo me chamou para falar um pouco sobre o último single lançado pela Pug Records. Na ocasião, me contou a história de um cara que, insatisfeito com o primeiro registro do seu novo som, teria resolvido regravar tudo novamente e fazer uma releitura da sua própria música antes que muita gente escutasse a versão original. Pouco tempo depois, separando algumas pautas para escrever, retornei ao link que eu havia recebido durante aquela conversa e comecei a ouvir repetidamente aquela faixa chamada “Vida Sem Sentido”, cantada por um cara chamado Filipe Alvim, o menino insatisfeito do qual haviam me falado. Fui entendendo por que tanta gente havia o comparado com referências vindas do Canadá, como Mac Demarco e até Homeshake. Comecei a ouvir, comecei a lembrar da conversa com o Eduardo e comecei a pensar em algumas outras coisas.

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Bom, lembra do Eduardo? Ele mora em Juiz de Fora, em Minas. Ele fundou o selo Pug Records e é o responsável pela rádio online/blog Database FM, que desde a sua recente criação vem produzindo conteúdo e aquecendo contatos, utilizando o espaço possível para divulgar novos sons de artistas daquela região e para trazer até aquela região artistas de terras mais distantes. Dá pra dizer que tem dado certo. Com uma equipe bem reduzida, que quase sempre conta somente com o próprio Eduardo, esse pequeno conglomeradozinho fonográfico já conseguiu alinhar parcerias com selos importantes no Brasil e no exterior. Também foi através desse trabalho artesanal ao estilo mineiro que a pérola do Felipe Alvim,  encartada em poucas polegadas, chegou até a caixa de entrada do New Yeah.

Ninguém empreende tanta coisa praticamente sozinho se não amar muito o que faz, então toda vez que analiso aquele ambiente em torno do Eduardo eu logo penso que há uma boa dose de amor por ali.

Esse amor pela música e por produzir ela da melhor forma possível mesmo que isso custe horas de sono madrugada a dentro é a principal características da Pug Records, e, por consequência, essa característica acaba contaminando os artistas que fazem parte do seu catálogo. Até por isso, os lançamentos que saem dali dificilmente se abraçam ao baixo orçamento para se contentarem com o simples formato digital. Eles costumam ultrapassar a barreira dos bytes, se materializar em vinis e até em fitas cassete, porque faz parte do jogo do afeto poder tocar com as mãos.

De mão em mão: Felipe Alvim assina manualmente todas as cópias do single "Vida Sem Sentido".

De mão em mão: Felipe Alvim assina manualmente todas as cópias do single “Vida Sem Sentido”.

Então voltamos ao Felipe (não se perca no meu raciocínio, por favor). Constituído da mesma essência que paira sobre o selo, Filipe, o artista, deixa bem clara a importância que a música tem em sua vida não só nas falas em suas entrevistas ou nas letras de suas canções. Essa importância se espalha pela forma como ele se comporta nos vídeos, pela forma como toca ao vivo e pela maneira como conduz os seus lançamentos, sempre transbordando em tudo quem é a pessoa por trás de cada acorde. Ele praticamente lança o seu primeiro disco em cada nova canção que divulga. Se percebe, por exemplo, que nem só de acordes repetidos e ritmos melancólicos se faz a sua identidade. Há também ali muitos sentimentos e muitas histórias cotidianas que surgem em meio a arranjos, letras e estética.

Zero, seu primeiro EP, lançado em 2013, trazia baladas mais contentes, daquelas de deixar um sorriso no canto do rosto mesmo quando o assunto não é dos mais agradáveis. Um punhado de situações do cotidiano peneiradas por um filtro de baixa fidelidade e aditivadas com riffs chicletes.

Em “Vida Sem Sentido”, Felipe faz um exercício de introspecção ainda maior, retratando a relação que ele tem com a sua filha de três anos chamada Cecília. É uma obra autobiográfica, mas que acaba servindo como espelho para quem ouve, já que traz angústias e pensamentos que já passaram pela cabeça de muitos de nós: “as coisas nem sempre são como gostaríamos que fossem”; “não fazemos nada para mudar”.

Argumento e direção: Inhamis e Old Man Filmes / Fotografia: Luciano de Azevedo, Fernanda Roque e Francisco Franco / Ass. de fotografia: João Pedro Castanheira e Luan Azevedo / Edição e finalização: Fernanda Roque e Francisco Franco / Figurino: Carolina Queiroz / Produção de locação: Diego Navarro / Produção de set: Isabela Cutrim e Pedro Carcereri

Tanto Eduardo quanto Felipe acabam sendo grandes exemplos de que existem pessoas que estão preocupadas em produzir música de uma forma verdadeira, seja empunhando guitarras, seja organizando a distribuição das faixas gravadas por outras pessoas, mostrando que as cenas independentes nacionais conseguem se sustentar pelos seus próprios meios e alcançar, mesmo que em pequenas escalas, pessoas que também compartilhem desse mesmo desejo de profundidade.

E foi nisso que eu pensei quando comecei a ouvir repetidamente o single: na arte que fazem e nas iniciativas onde metem a cara, os dois meninos nos ajudam a acreditar que, por mais que em algumas situações a vida realmente não faça tanto sentido, no final das contas ela pode ser completa quando as coisas legais acontecem. E talvez o esforço em fazer aquilo em que se acredita possa ser o início para encontrar uma parte desse sentido que tantas vezes nos falta.