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D. Selvagi: seu novo disco e a cuidadosa estética do descuido

No final de 2016, tive a oportunidade de conhecer a Hierofante Púrpura, uma banda de música psicodélia da cidade de Mogi das Cruzes (SP) com mais de 10 anos de estrada e que figura em listas e votações de melhores do ano já há algum tempo. Na época, fui responsável por escrever sobre o seu último lançamento, Disco Demência, um registro carregado de experimentações e digno de atenção para quem gosta de música deste tipo. Poucos meses depois, Danilo Sevali, integrante da banda, volta à tona com um novo lançamento, Eu vi vários eus / Eu vi vários eus, o primeiro disco do seu pseudônimo D. Selvagi lançado hoje com exclusividade pelo New Yeah.

O álbum foi produzido por Lê Almeida e João Casaes em apenas um dia, registrado ao vivo em fita cassete, reunindo uma série de tracks gravadas no formato guitarra, bateria e voz, tudo tocado ao mesmo tempo através dos braços, pernas e cordas vocais de D. Selvagi, a mais nova banda de um homem só.

Quem conhece um pouco da carreira da Hierofante Púrpura e de Danilo com o estúdio Mestre Felino sabe da fascinação que o músico tem pela experimentação nos formatos de gravação, captação e pelos equipamentos utilizados para isso, principalmente se eles forem de décadas passadas. Disco Demência (2016) exemplifica muito bem essa atmosfera vintage que paira sobre a banda e seus integrantes, apresentando um registro feito em rolo e gravado a partir de equipamentos totalmente analógicos. Bebendo dessa fonte, Danilo vai ainda mais longe no seu primeiro lançamento solo, se despindo de grandes retoques ou equipamentos extremamente complexos, apenas utilizando um gravador de fita cassete e alguns canais ligados aos seus instrumentos, tudo com a supervisão dos ouvidos atentos dos dois produtores conhecidos do selo carioca Transfusão Noise Records.

Um bumbo e uma caixa de bateria aos pés, uma guitarra ao colo e um microfone à sua frente, captando voz e ruídos que preenchem cada fresta das canções.

Além do registro soar como um experimento de um dos principais laboratórios do lo-fi brasileiro, as sete faixas trazem a inusitadas configuração de banda proposta pelo multi-instrumentista e também produtor, com um bumbo e uma caixa de bateria em seus pés, uma guitarra em seu colo e um microfone à sua frente, captando não só a sua voz, mas também os ruídos ambientes que preenchem cada fresta de suas canções. Utilizando uma técnica “solitária” e incomum de gravação, o resultado acaba sendo uma espécie de blues, sujo, noventista e experimental, trazendo a guitarra quase sem modulação ao lado de beats de bateria que seguem um ritmo desajustado em termos de andamento, nem sempre respeitando o tempo exato da canção, mas se deixando levar pela esquizofrenia.

Nas letras, Selvagi traz relatos plurais sobre angústias de amor e vida, caminhando por histórias que em cada frase se conectam aos poucos ao ouvinte, como “eu não nasci pra essa vida, eu atrasei todas as minhas dívidas – atolado em dívidas, atolado em dívidas, você também”, em “Atolado em Dívidas”, afinal, quem nunca ficou puto com a quantidade de boletos no início do mês, não é mesmo?

Percorrendo cada faixa do álbum, se pode notar diferentes influências e sonoridades, indo de ritmos mais rápidos, como em “Peanut RUSH!” e “Eu, normal”, até baladas que transitam entre a calmaria e o descontrole, como na suave e sensível “A Descabelada” e na cadência de “A Luz Vai Chegar”. Na faixa número 4, o single “PRESO” traz nuances sonoras se aproximam um pouco do estilo dos primeiros sons de Lê Almeida, tanto na forma de cantar como na base de guitarra quase em loop, grandes características também dos lançamentos saídos da mão do produtor carioca e que representam uma estética bem marcante das músicas gravadas e lançadas pelo selo do qual é o fundador.

Danilo Sevali, D. Selvagi

A “formação” da D. Selvagi sobre o palco: Danilo, o descompasso e o aparato instrumental.

Ao fazer uma análise geral de Eu Vi Vários Eus / Eu Vi Vários Eus e relacionar com o momento musical que se vê, se percebe o quanto o álbum pode ser significativo para uma geração que se produz, grava, lança e divulga de forma totalmente solitária. D. Selvagi aparece como um oposto do retoque, das muitas faixas, dos tratamento e preenchimentos que muitas bandas e músicos costumam usar mesmo quando estão sozinhos em seus quartos, ele é um registro totalmente cru, gravado com poucos recursos, por apenas um músico e dois produtores.

Por conta dessa construção estética elaborada com o cuidado de ser descuidada, o desalinhamento e a desafinação não aparecem como um erro, mas como características ímpares de uma obra que dificilmente será executada da mesma maneira ou com as mesmas nuances por duas vezes. De um lado menos técnico, os relatos trazidos, as histórias contadas, tudo isso somado à estética empregada na gravação, trazem uma exposição grande de Danilo Sevali através do personagem de D. Selvagi, usando o pouco que tem em suas mãos para contar momentos de grande significado e cheios de intensidade.