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A Beethoven's Nightmare em ação: um trio de deficientes auditivos que aprendeu a ouvir de um jeito muito particular.

Como a primeira banda surda do mundo sente música

Como a maioria das crianças nos anos 60, Steve Longo teve uma experiência marcante com os Beatles: quando seu irmão trouxe um LP da banda para casa e pousou a agulha sobre o disco fazendo com que o som do quarteto de Liverpool ecoasse pela casa, Steve se sentiu finalmente conectado à música. Depois de uma infância em contato com músicas de Natal e rimas infantis, aquela foi a primeira vez em que ele realmente se emocionou ouvindo algo. Detalhe: Steve nasceu surdo.

Beethoven's Nightmare

A Beethoven’s Nightmare em ação: um trio de deficientes auditivos que aprendeu a ouvir de um jeito muito particular.

Ao contrário do que muitas pessoas pensam, as pessoas surdas escutam alguns sons. Não escutam da mesma forma que as pessoas comuns, mas têm uma experiência com as sonoridades que é toda especial. Quando ouvia os Beatles, por exemplo, Steve não ouvia as frequências mais altas das canções. Também não ouvia com clareza todas as letras, pois não captava letras como “S” e “Z”. Para entender o que os cantores estavam dizendo, ele precisava ler os encartes dos discos.

Enquanto isso, Bob Hiltermann crescia como o único membro surdo de sua família. Seus dez irmãos ouviam muita música, mas ele, com uma surdês diferente da de Steve, não ouvia uma nota sequer daquilo que tocava na sua casa. Um dia, sua irmã mais velha trouxe um disco dos Beatles para casa e passou a ouvi-lo por vários dias seguidos. Curioso sobre as canções que tanto prendiam a atenção da sua irmã, Bob cravou a orelha no alto-falante e, bem baixinho, conseguiu ouvir música pela primeira vez.

Apaixonado por aquilo que invadia os seus ouvidos, Bob quis aprender a tocar bateria. “Mesmo treinando bastante os meus ouvidos, eu só conseguia ouvir uma parte do que eu mesmo tocava”, explicou ele certa vez em uma entrevista. “Não conseguia ouvir o som do chipô aberto e nem o barulho dos pratos mais estridentes. Em compensação, conseguia ouvir a marcação do bumbo e a diferença de timbre entre caixa, surdos e tons. Assim fui aprendendo, melhorando um pouco mais a cada sessão de treinamento que ensurdecia os meus vizinhos”.

Ed Chevy, longe dali, crescia em uma família onde todos os membros eram surdos, mas ainda assim gostavam muito de música. Seu pai, por exemplo, sempre colocava música country para tocar em casa, porque não gostava de ambientes silenciosos demais. Já sua mãe era dançarina de flamenco, e compensava sua falta de audição com uma precisão absurda no bater das suas castanholas: batendo sempre na hora certa, ela conseguia dançar no tempo correto sem se perder, por mais que boa parte da canção lhe fosse inaudível.

Aos sete anos, Chevy ganhou um aparelho auditivo e começou a ressignificar os ruídos que sempre estiveram ao seu redor. Passou a ouvir com mais detalhes as músicas do seu pai e as batidas de castanhola da sua mãe. De repente, apaixonou-se por música, especialmente pelas linhas de contrabaixo que ele ouvia melhor por estarem em frequências mais baixas. Logo aprendeu a tocar e logo depois já estava compondo.

Beethoven's Nightmare

Ed Chevy, Bob Hiltermann, uma dançarina e Steve Longo: reparem que a dançarina, além de obviamente dançar, também “canta” em linguagem de sinais.

E o destino é uma coisa muito divertida: esses três jovens, iniciados na música apesar da dificuldade inicial, conseguiram avançar nos estudos e chegar à Universidade Gallaudet de Washington, onde se conheceram e formaram uma banda: Beethoven’s Nightmare. Juntos há quase 40 anos (!), eles já fizeram muita gente rever os seus conceitos sobre a surdez.

O baixista Chevy diz que seus pais lhe ensinaram a perceber a arte visualmente. Hoje, isso influencia muito a sua composição. “Estou olhando para um retrato na parede, e esse retrato mostra a imagem de uma mulher olhando para baixo, segurando uma rosa junto ao coração”, explicou. “Se componho sobre esta imagem, toco de acordo com a história no quadro. No fim, estou sempre transformando imagens em sons”.

Ele considera o seu processo uma nova forma de arte. Mas ainda há desafios: ao compor, gravar ou mesmo executar uma música, o maior obstáculo é sempre garantir que a guitarra e o baixo estarão sincronizados. Por isso, Chevy e Longo aprenderam a se concentrar nos dedos um do outro para perceber a troca entre as notas.

Para não se perderem nas reviravoltas das músicas, os membros do trio aprenderam a ler a expressão corporal uns dos outros. Cada gesto indica uma ação a ser tomada, como se o show fosse uma longa peça de teatro repleta de deixas visuais.

Com um tipo de surdes mais severo, Chevy também tem problemas para ouvir o tom e a melodia das canções. Para seguir as reviravoltas de uma música e não vacilar em mudanças mais bruscas, ele então está sempre atento ao show de luzes do palco e à uma série de pistas visuais dadas por seus colegas de banda, que escutam um pouco melhor. Toda banda é um corpo coletivo, mas na Beethoven’s Nightmare isso é elevado à enésima potência.

É possível olhar para esse esforço do trio sob duas óticas: a primeira, ressaltando a criatividade dos três para conseguirem tocar coletivamente, inventando métodos de trabalho em equipe que precisam ser ainda mais aguçados dos que os métodos de uma banda comum. Outro ponto a se ressaltar, aí não tão positivo, é que a dificuldade deles – que faz florescer a tal criatividade – é o reflexo de uma área que nunca esteve preparada para pensar a sua própria acessibilidade. Graças a novas ferramentas, esse ponto negativo pode estar com os dias contados.

Richard Burn é um estudante de doutorado na Universidade de Birmingham, Inglaterra, e está pesquisando ferramentas para tornar mais fácil a atividade de músicos surdos. O foco principal do seu estudo está sobre os sintetizadores – computadores conectados a teclados do tipo piano e que reproduzem os mais diversos sons.

No momento, Richard está desenvolvendo um software que cria uma “impressão digital sonora” para cada som tocado. Sua invenção, em resumo, cria uma representação visual para cada combinação de teclas, permitindo que um usuário alfabetizado nas simbologias do software consiga “ouvir” o som tocado através dos olhos.

Burn também está explorando como os músicos “ouvem” com os seus corpos. Segundo o pesquisador, os humanos surdos (a exemplo do que fazem outros mamíferos) desenvolvem diante da surdez uma capacidade de sentir as ondas sonoras utilizando diferentes pontos da própria pele. Essa propriedade do corpo humano já foi trabalhada pela Universidade de Tecnologia e Design de Cingapura, que inventou uma “cadeira tátil”: um equipamento ainda em fase de testes, semelhante à uma cadeira de massagem, onde um alto-falante comanda pequenas vibrações sobre o corpo do cidadão massageado, dando aos fãs de música surdos uma experiência de “escuta de corpo inteiro”.

“Assim como a expressão facial é fundamental para que um surdo entenda o que alguém está dizendo na linguagem de sinais, a movimentação da banda sobre o palco é fundamental para que os surdos entendam o que cantamos”.

Chevy, baixista da Beethoven’s Nightmare, conta que a sua banda possui muitos fãs surdos, e que tocar para eles exige que a banda produza shows que vão muito além do som, trabalhando também a sensibilidade e a visão da plateia. “Eu nunca paro como uma árvore morta durante as nossas apresentações; eu me movimento constantemente, de acordo com o que estamos tocando”, disse. “Acho que, assim como a expressão facial é fundamental para que um surdo entenda bem o que alguém está dizendo na linguagem de sinais, a movimentação da banda sobre o palco também é fundamental para que os surdos entendam sobre quais sentimentos estamos cantando”.

Assista a um show da Beethoven’s Nightmare e você entenderá melhor como isso funciona. Chevy e Longo giram o tempo inteiro, dançam entre si e com os seus instrumentos como se a sua arte realmente dependesse disso.

O aspecto visual da apresentação também incorpora luz. Uma plataforma de luz deslumbrante “toca” junto com a banda, brilhando em vermelho, verde e amarelo sobre a banda e sobre a plateia, parecendo estar sincronizada com as frequências baixas, médias e altas.

“Eu sempre quis que os surdos vissem a nossa música, já que não poderiam ouvi-la”, disse Longo. “Parece que tem dado certo”.

Acessibilidade e rock’n roll como provavelmente nunca se viu e ouviu. Seja você surdo ou não, a criatividade do trio é um show que desde já merece todos os aplausos possíveis.

Muitos fragmentos deste texto foram extraídos da produção publicada originalmente pelo antropólogo Josh O’Connor, em inglês, no blog da revista Dose em junho de 2017. O conteúdo foi alterado em várias partes onde as frases aparentemente não faziam sentido em língua portuguesa e alguns sentidos foram adaptados com base no documentário Labyrinth, do diretor Dimitris Papathanasis. Os dois autores não necessariamente concordam entre si ou conosco.