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Coletivo Filé de Peixe explora os limites entre arte e comércio ilegal

“Estamos vendendo o nosso trabalho, que é uma apropriação de centenas de obras de videoarte”. É assim que Alex Topini, do coletivo carioca Filé de Peixe, se refere ao mais célebre projeto do grupo, denominado Piratão: uma ação sem precedentes na história da distribuição de arte visual no país. Basicamente, uma galeria ambulante de filmes de vanguarda embalados em envelopes xerocados e vendidos a preços de camelô. No ato da venda, uma performance que discute o acesso à arte, a pirataria e a propriedade intelectual.

Coletivo Filé de Peixe e o Piratão

Da esquerda para direita, Fernanda Antoun, Felipe Cataldo e Alex Topini: uma armação de ferro com alguns envelopes para começar a desglamourizar a arte contemporânea.

A ideia do Piratão surgiu em 2008 e já resultou em várias ações em praças públicas, sobretudo na capital do Rio. Topini, que vive no bairro carioca de Santa Teresa – reduto de ateliês e de diversos representantes da safra contemporânea de artes brasileiras –, é um sujeito expansivo, elétrico, incapaz de produzir uma frase sem que o seu raciocínio se espalhe por outras questões ligadas ao objeto em discussão. Com trabalhos nas áreas de fotografia, vídeo, poesia experimental e arte sonora, ele já participou de mostras coletivas no Brasil e no exterior. Em 2006, passou a compor o coletivo em parceria com o jornalista, poeta e cineasta Felipe Cataldo e a fotógrafa Fernanda Antoun, realizando com eles projetos de intervenção urbana e ocupação de espaços não muito utilizados pela arte no Rio de Janeiro.

O Piratão, projeto do coletivo que mais gerou debates, vem sendo entendido por muitos como simples e costumeira pirataria. Na prática, a intenção do grupo é levar a arte para a rua na expectativa de que o cidadão comum tenha acesso a trabalhos contemporâneos cuja circulação quase sempre se limita a galerias, museus ou coleções particulares.

O símbolo do Copyleft: o um © invertido e a ideia de democratizar o acesso à produção intelectual.

O símbolo do Copyleft: o um © invertido e a polêmica ideia de democratizar o acesso à produção intelectual.

Propriedade intelectual e apropriação da arte alheia para uso comercial são objeto de discussão há muito tempo. No Brasil, Túlio Lima Vianna, doutor em Direito pela UFPR, ecoa as ideias do norte-americano Lawrence Lessig, guru do Creative Commons. Os dois sugerem que a lei de direitos autorais se baseie no “copyleft” (com as obras não podendo ser modificadas por terceiros, mas podendo ser copiadas e distribuídas por qualquer pessoa).

Na esfera política, o ex-ministro da cultura Gilberto Gil defendeu uma discussão mais ampla com relação à pirataria, fazendo inclusive uma apaixonada defesa ética da prática, enquadrando-a como “desobediência civil”. Na Suécia, se testemunhou em 2006 o surgimento do Piratpartiet, partido pirata que já se espalha pela Europa e defende o fim dos direitos autorais. O Piratpartiet já é o terceiro maior do país escandinavo em número de membros e em 2009 elegeu um deputado no Parlamento Europeu (sempre lembrando que a Suécia é um dos países do mundo onde a pirataria é tratada com ares de calamidade pública e não é coincidência que o Spotify tenha nascido justamente lá).

Sem se alinhar necessariamente à desobediência proposta por Gil, a ideia do Piratão é ampliar a audiência das obras, disponibilizando e democratizando o seu acesso (nas ações do coletivo, um DVD é vendido por R$ 5,00 e três saem por R$ 10,00). Mas, vendendo assim tão barato, qual acaba sendo o lucro? Topini responde: “o Piratão é uma performance, não um comércio. Fazemos alusão à pirataria, simulando esse comércio informal, mas investigamos essa prática e fazemos um uso circunstancial dela. É uma ação efêmera, esporádica, onde a venda e o lucro em si não são o objetivo final”.

Apesar de muitos pedidos, o Filé de Peixe não vende qualquer vídeo por encomenda. “Recebemos telefonemas e emails de vários cantos do Brasil e de países como Argentina, Portugal e Canadá, mas a resposta é sempre a mesma, direta e firme: não. Os vídeos só poderão ser adquiridos no momento da performance. Não faz sentido se for de outra forma”.

Alguns dos itens na "vitrine" do Piratão: a embalagem padronizada...

Alguns dos itens na “vitrine” do Piratão: a embalagem padronizada em torno de obras antológicas de Bill Viola.

“Por que haveríamos de ser processados? O que estamos fazendo não é pirataria. O vídeo é um arquivo e pode circular sem prejuízo à obra em si. Não estamos vendendo o trabalho de ninguém. Logo, não estamos cometendo crime.”

Mas é fato que o coletivo se apropria de obras sem autorização, e é claro que surgem saias justas por conta disso. Quanto à possibilidade de sofrer um processo jurídico, Topini é enfático: “Por que haveríamos de ser processados? O que estamos fazendo não é pirataria. O vídeo é um arquivo e pode circular sem prejuízo à obra em si. Não estamos vendendo o trabalho de ninguém. Logo, não estamos cometendo crime. São objetos performáticos que ativam redes de troca em torno da produção audiovisual voltada para o campo das artes plásticas”.

O acervo do Filé de Peixe contém centenas de títulos. A lista inclui artistas internacionais consagrados como Andy Warhol, Bill Viola, Joseph Beuys, Marcel Broodthaers e Paul McCarthy, que inclusive estão entre os mais vendidos. Entre os nacionais, nomes ainda desconhecidos se misturam a obras de Andrei Müller, Letícia Parente, Márcia X e Fernando Cocchiarale (com o raríssimo vídeo “Chuva”). Há também a requisitada trilogia “OçapseOprocZul”, organizada por Marcos Bonisson, que consiste em três mostras com meia hora de duração, cada uma contendo vídeos de até um minuto. Além da venda dos DVDs, o coletivo também promove a “Sessão Pirata”, com alguns vídeos do acervo rodando em uma TV comum enquanto as vendas ocorrem. Não há divulgação prévia e o público só fica conhecendo os horários e os locais durante a própria performance.

"Sessão Pirata" na capital fluminense: a proposta é estranha, mas o cidadão comum assiste mesmo.

“Sessão Pirata” na capital fluminense: a proposta é estranha, mas o cidadão comum assiste mesmo.

A mescla de autores consagrados e novatos implicou em alguns percalços à ação, já que há um interesse natural do público pelos nomes mais conhecidos. A solução para o problema foi criar alguns desdobramentos da ideia original: “começamos a pensar em uma operação que pudesse se servir da atração causada por esses autores”, explica Alex. Foi então que surgiu a promoção “Inserções em Circuitos Clássicos”: ao comprar um vídeo do Andy Warhol, por exemplo, a pessoa leva para casa também um vídeo surpresa, de um autor novo, enxertado de maneira compulsória no disco do DVD. Sim, a pessoa leva um vídeo para casa sem saber junto com aquele que ela desejava levar.

Deixando de lado as polêmicas estéticas e contextuais, a ousadia do Filé de Peixe remete às ações audaciosas de grupos como o paulista Ruptura e o carioca Frente, ambos ativos nos anos 1950, ou mesmo o Neoconcreto, surgido da cisão do Movimento Concreto em 1959 e que reuniu Hélio Oiticica, Amilcar de Castro, Lygia Clark, Lygia Pape e Franz Weissmann. Se ainda não podemos falar em vanguarda com relação ao Filé de Peixe, ao menos eles demonstram uma interessante coragem de quebrar padrões, tendo em vista um diálogo com o seu próprio tempo.

Apesar desses exemplos mais próximos, porém, a maior influência do Piratão é a Pop Art dos anos 60: “nos baseamos nela, sobretudo no que diz respeito à relação entre arte e consumo de massa”, diz Topini. “A diferença é que estamos relativamente sugerindo uma direção contrária: em vez de levarmos ícones de consumo de massa para galerias e museus, como fez o Warhol com as Campbell’s Soups, estamos deslocando um filme que estaria no museu para as ruas, conferindo-lhe um status de produto. Produto audiovisual comum, comercializado de maneira banal e a preço vulgar”.

Contrastes. A arte tem disso.

Adaptado de matéria publicada na edição #013 da Revista Soma.