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Cinco discos para entender a new wave

Misturança sonora, ritmo dançante, flerte com elementos eletrônicos e cores em abundância. Para quem vive no século XXI, enumerar as características da new wave surgida nos anos 80 parece tarefa simples. Também pudera: desde que a tal “nova onda” foi noticiada pela primeira vez, os seus elementos já foram trazidos à tona em diversos revivals em diferentes décadas e, a cada nova retomada, aqueles mesmos elementos são reafirmados no nosso imaginário eliminando qualquer dúvida conceitual. O que poucos imaginam é que toda essa herança de cores e beats gerou muita controvérsia quando surgiu, e que o conceito e o legado daquele delírio juvenil só foram ser compreendidos muito, mas muito, tempo depois.

The Cars, 1978 - New Wave

Estreia do The Cars, de 1978: primeiro grande marco comercial da new wave.

A história oficial conta que o termo “new wave” foi utilizado pela primeira vez na metade dos anos 70 em um artigo da ensaísta Caroline Coon. No texto, ela tentava explicar o cenário cultural que se estruturava nos principais pólos de produção do mundo (leia-se Estados Unidos e Inglaterra). Na época, o punk rock estava em crescimento e ameaçava dominar o grande circuito. À sombra do movimento punk, que retomava valores surgidos nos anos 50, Caroline narrava o surgimento de um pessoal mais “novo” que se identificava com o caráter transgressor do punk, mas que queria fazer conexões diferentes por achar que aquela linguagem quadrada e revestida de couro era esteticamente limitada.

Dessa discordância estética com o punk, nasceu um outro movimento, menos rígido e mais diversificado que, assim como o punk, se desenvolveu no cinema, na moda, na TV e no varejo, mas, também como o punk, pode ser explicado muito bem através da música. O que proponho a seguir é uma narrativa baseada em dados que colhi e que explica de que forma a new wave surgiu como gênero, como construiu o seu legado e como se diluiu na cultura pop.

Talking Heads: 77 (Talking Heads, 1977) – a gênese da new wave

A nomenclatura “new wave” surgiu em 1976, mas até 1977 não havia um grande disco que pudesse mostrar às pessoas de forma palpável o que era a tal “nova onda” que tantos alardeavam na mídia especializada. O disco de estreia dos Talking Heads teve esse papel no mundo pop. Lançado um ano depois da estreia dos Ramones, o disco mostrava uma banda surgida do mesmo embrião alternativo de Nova York, mas que contradizia os principais pilares do gênero promovido por Johnny Ramone e seu pessoal. Onde os Ramones colocavam letras simples, os Heads colocavam complexidade lírica; onde os punks eram retos e sem curvas, os Heads colocavam o balanço; onde os punks colocavam a crueza do modelo baixo-guitarra-bateria, os Heads encontravam espaço para teclados, sintetizadores e até flertes modestos com a disco music. Os dois grupos habitavam muitas vezes os mesmos espaços e conviviam em harmonia no underground das grandes cidades, mas, ao menos no som, a diferença estava demarcada a partir dali.

The Cars (The Cars, 1978) – a new wave no topo das paradas

Os Cars, liderados por Ric Ocasek, deram continuidade à onda de misturas, balanços e melodias em 1978. Enquanto o disco de estreia dos Talking Heads ficou marcado como o grande marco estético do movimento, a estreia dos Cars marcou por ser o grande marco comercial da coisa toda, com canções que entraram no top 30 dos Estados Unidos, lugar onde nem punks, nem new wavers haviam estado ainda naquele final de década. Foi o trabalho que apresentou a new wave às massas e que deu ao gênero a capacidade de venda que o acompanharia dali em diante.

Quando o The Cars chegou ao topo das paradas, o punk rock já estava em decadência e bandas como The Cure e Joy Division se estruturavam em um terceiro movimento, que receberia posteriormente o nome de “pós-punk”. No pós-punk, os artistas também buscavam uma alternativa que utilizasse mais recursos e que trabalhasse com uma maior variação de temas em relação ao punk tradicional. O que diferenciava esta terceira via da new wave já estabelecida era sobretudo o clima das duas vertentes: enquanto new wavers eram dançantes, divertidos e irônicos, os pós-punks eram mais melancólicos e existencialistas. Na febre pop e cult da new wave, não havia espaço para um Ian Curtis e seu suicídio prematuro aos 23 anos de idade, para citar um caso trágico onde essa distinção de propostas ficou bem clara.

Duran Duran (Duran Duran, 1981) – a new wave reinventada

Quando os Cars começaram a emplacar hits atrás de hits, empresários e gravadoras de todo o mundo começaram a desgastar o termo “new wave”, aplicando ele indiscriminadamente a qualquer artista para tentar vendê-lo com maior facilidade. Para ajudar na confusão, artistas já estabelecidos como David Bowie e Elton John aceitaram a influência do novo gênero e flertaram com ele sem necessariamente caírem de cabeça. Enquanto a maioria do show business se interessava em aderir aos clichês da new wave de olho nos lucros ou na pura experimentação, pouca gente ofereceu novos rumos ao que já estava posto.

A exceção à essa mesmice foram os músicos ligados ao sub-gênero new romantic, liderados pelo Duran Duran, que criaram dentro do movimento new wave uma vertente onde o som era ainda mais eletrônico, a guitarra saía do primeiro plano, o baixo segurava a base e o teclado assumia o protagonismo. O sub-gênero acabou se revelando ainda mais popular do que o modelo apresentado anteriormente e revolucionou a cultura noturna europeia levando o rock para as pistas. O resultado foi definitivo para os anos 80, afetando de alguma forma quase toda a produção mainstream que apareceu depois daquilo, do rock brasileiro oitentista ao Thriller de Michael Jackson, lançado um ano depois da estreia do Duran Duran.

Colour By Numbers (Culture Club, 1983) – a new wave na tela da MTV

Com o advento da MTV em 1981, a música passou aos poucos a ser tecnicamente mais visual. Nesse processo de transição, a new wave foi a grande base da programação da emissora por bastante tempo. No vídeo, as gravatas finas, os trajes indefectíveis e os cabelos carregados de mullets que antes se limitavam aos shows e às capas de disco passaram a entrar diariamente em todas as casas que tinham a TV como hábito de consumo. Foi quando a new wave se consolidou como movimento visual também, transcendendo a música e transbordando para a moda, para a arte gráfica, para a propaganda, afetando os demais programas de TV e gerando reverberações no cinema por meio da geração Brat Pack.

Curiosamente, a popularidade dos videoclipes acabou colocando os álbuns fora de discussão e supervalorizando o sucesso solitário dos singles. Nessa época, diversos artistas (Spandau Ballet, Human League, Simple Minds…) chamaram a atenção e logo saíram dos holofotes, com poucos nomes posando para a posteridade com obras mais completas. Na selva dos artistas de um hit só, quem possuía vários hits era rei, e foi quando o Culture Club do andrógino Boy George experimentou o seu breve reinado pop com o punhado de hits do álbum Colour By Numbers de 1983.

Cosmic Thing (The B-52s, 1989) – o ato final da new wave oitentista

Quanto mais a new wave se afundava em sintetizadores e efeitos mil, mais ela obtinha sucesso comercial e mais se distanciava do passado ligado às guitarras dos Talking Heads. Aos poucos, a divisão entre a “nova onda” e o simples estilo pop de cantoras como Madonna e Cyndi Lauper desaparecesseu na prática, jogando o termo “new wave” em desuso nas principais publicações especializadas da época. O Brasil, que viveu e febre com atraso em relação aos países de primeiro mundo, ainda se referia a várias bandas usando a nomenclatura na época do Rock in Rio I, como mostra essa matéria veiculada na TV brasileira em janeiro de 1985.

Os B-52s, que chegaram com status de popstars ao evento em solo brasileiro, seriam o último grande grupo da época de ouro da new wave, que depois seria soterrada pelo grunge na virada para a década de 90. Antes de sair de cena, o gênero deixou o seu testamento na obra Cosmic Thing, do grupo norte-americano. Num retorno às guitarras lembrando a sua origem ligada ao punk, no balanço do groove fazendo bom uso de todo o desenvolvimento oitentista, na sintetização que não abria mão da herança new romantic e com o visual colorido em seu auge, o grupo martelou a imagem da new wave que ficaria marcada no subconsciente coletivo em um disco que vendeu milhões de cópias ao redor do mundo. Após idas, vindas e algumas contradições, o disco dos B-52s organizava a herança do gênero que depois se tornaria sinônimo de década de 80.

Até hoje, o legado da new wave é um pouco controverso. Durante muito tempo, a desaprovação sobre o diversificado e colorido gênero rendeu aos anos 80 a alcunha de “década perdida” pelo menos em termos musicais, mas essa visão passou a ser reinventada quando a gênese do college rock noventista se mostrou muito ligada ao que os new wavers haviam fundamentado anos antes. Mais do que isso: quando manifestações culturais mais contemporâneas – de bandas moderninhas a catálogos de verão – souberam se utilizar de todo aquele arsenal de referências promovido pelos anos 80 sem cair na caricatura que originalmente foi praticada, até os mullets passaram a parecer uma boa ideia.

Um dia tudo foi perda de tempo e pura purpurina jogada ao vento; barulho da indústria cultural que logo passaria e não deixaria saudades. O tempo então fez bem à extravagância e transformou aquele confuso caleidoscópio em uma das modas passageiras mais duráveis da história da cultura popular.

Por fim, no próximo verão, dê uma olhada atenta na beira da praia. Se houver por lá algo que lembre os B-52s, lembre-se de não ficar surpreso e tenha a certeza de que não será a última vez.