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Música LGBT

Cinco discos importantes para o meio LGBT

Quando o pessoal do blog pediu que eu listasse cinco álbuns importantes para a comunidade LGBT, minha cabeça começou a fervilhar, pois a questão musical é extremamente importante na “cultura gay” de maneira geral, tanto para lésbicas quanto para gays, trans, drags, transformistas ou qualquer outra divisão neste universo incrível e diverso. Como o próprio universo gay é muito diverso, a questão musical sobre ele também é. Então, pensei que seria meio impossível resumir tudo em cinco álbuns, mas, como era essa a regra da matéria, resolvi ir peneirando e pegando como referência a minha vivência e o que me influenciou de alguma forma.

Música LGBT


Secos e Molhados
(Secos e Molhados, 1973)

Quando eu era criança, escutava e ficava morrendo de vontade de sair dançando “Homem com H” do gênio Ney Matogrosso. Eu era criança e ouvia as pessoas dizerem que o Ney era gay, mas eu não sabia o que isso significava. Na escola, se você fosse afeminado, era chamado de Ney Matogrosso pelas outras crianças. Anos depois, fiquei sabendo que o cara de “Homem com H” havia surgido no grupo Secos e Molhados, que simplesmente revolucionou a música no Brasil em 1973 com o seu álbum de estreia .

O que o grupo fez foi incrível e corajoso, ainda mais se lembrarmos que tudo foi feito no auge da ditadura militar. No palco, as apresentações ousadas, acrescidas de figurino e maquiagem extravagantes, fizeram a banda ganhar imensa notoriedade e reconhecimento. No disco, canções como “O Vira”, “Sangue Latino”, “Assim Assado” e “Rosa de Hiroshima” misturavam danças e canções do folclore popular com a poesia de Cassiano Ricardo, Vinícius de Moraes, Oswald de Andrade, Fernando Pessoa e João Apolinário, mesclando tudo isso a um discurso de crítica ao regime militar. Acredito que o álbum Secos e Molhados deve ser lembrado e cultuado como um álbum que explorou a diversidade em vários aspectos: tanto musical, quanto sexual e de gênero numa época em que não se falava muito sobre o assunto.

The Immaculate Collection (Madonna, 1990)

Pulando da década de 70 para os anos 90 – quando eu comecei a perceber mais a música e descobrir as coisas de maneira mais concreta -, não temos como falar em cultura LGBT sem pensarmos na rainha Madonna.

Meu primeiro contato com ela foi pela coletânea The Immaculate Collection, que trazia músicas e sucessos dela lançados entre 1983 e 1990. Podemos falar de várias canções desta coletânea, que talvez tenha sido a mais vendida da história, mas só por “Vogue” e “Justify My Love” já podemos ter noção do que ela representou. “Vogue” trazia em seu título o nome da dança também conhecida como voguing, popularizada na década anterior em clubes gays dos grandes centros norte-americanos. A dança ficou ainda mais conhecida depois da citação da Madonna e acabou influenciando a cultura gay em todo o mundo. Inclusive, segue influenciando até hoje!

“Justify My Love” virou um hino. Seu clipe, que até chegou a ser censurado, mostra lésbicas, gays, travestis, andróginos e até a própria Madonna beijando outra mulher. Lembro que era viciante escutar as músicas e assistir aos clipes relacionados a esta coletânea. The Immaculate Collection influenciou muitos gays e drags. Saber a coreografia das músicas era regra nas festas!

Diva (Annie Lennox, 1992)

A cultura musical LGBT é diversificada nas suas preferências e nos seus estilos. Para mim, particularmente, algumas das maiores referências musicais e visuais estão em Annie Lennox. Ela estourou com o lendário Eurythmics nos anos 80 (quem aí nunca cantarolou “Sweet Dreams”?) e depois do término da dupla, em 1991, Annie lançou-se em carreira solo com o álbum Diva. Simplesmente incrível! O trabalho traz uma atmosfera transformista e andrógina, além da mesma voz incrível que a cantora já havia mostrado na década anterior.

O álbum foi lançado em 1992 e foi aclamado por crítica e público, tendo vendido 15 milhões de cópias mundialmente, sendo 2 milhões só nos Estados Unidos e 1,2 milhões no Reino Unido. A revista Q Magazine colocou o disco na lista dos 50 melhores álbuns de 1992.

Conheci a Annie Lennox através deste álbum e só depois descobri o seu trabalho com o Eurythmics. Fiquei tão fascinado por ela que fui pesquisar e me apaixonei! Com certeza ela é uma referência, tanto para a cultura LGBT quanto para quem curte uma música pop mais inteligente. E não posso deixar de revelar que o videoclipe de “Why”, extraído deste álbum, foi uma referência para o meu último clipe, “LoveLoveLove”.

World Clique (Deee-Lite, 1990)

Em 1996, eu conheci o movimento clubber e me conectei naturalmente a ele! Meus amigos e eu adorávamos nos produzir e ir aos clubes para enlouquecer com o dance music e a house music da época. Naquele momento, acontecia um boom destes estilos nas festas. Foi aí que eu conheci o Deee-Lite. Talvez você não lembre pelo nome, mas provavelmente já dançou o maior hit deles, “Groove Is In The Heart”! Detalhe: eles tinham lançado essa música em 1990 e a faixa já havia feito sucesso em outros países muito antes de eu conhecer (não me culpem, porque as coisas naquela época demoravam um pouco pra estourarem por aqui). Lá em 1990, eles haviam lançado o primeiro álbum da banda, World Clique, com participações de Bootsy Collins, Q-Tip, Fred Wesley e Maceo Parker. O sucesso inicial do álbum ocorreu no Reino Unido, onde teve pico na décima quarta posição ainda no ano de lançamento. Simultaneamente, na Billboard Hot 200, o álbum estreou na centésima quinta posição, pulando para a vigésima posição após o sucesso de “Groove Is In The Heart”.

Esse trio incrível e colorido formado por um japonês, um russo e uma americana marcou muito a minha adolescência gay e a de muitas outras pessoas! Eles arrasavam não só na questão visual (a vocalista Lady Miss Kier serviu de referência visual para muitas drags!) mais também no som. Tinham um vocal maravilhoso e trabalhavam com sonoridades que misturavam house, disco, funk e pop de forma fantástica! Vira e mexe eu ainda toco Deee-Lite nos meus sets como DJ e escuto em casa também!

Born This Way (Lady Gaga, 2011)

Pra encerrar a matéria sobre os cinco álbuns importantes para o meio LGBT, queria dizer que poderia citar muitos artistas incríveis como Bowie, Cazuza, Cassia Eller, Queen, Boy George, Moby, Michael Jackson e Cindy Lauper. Tem também a Björk, que me influenciou muito, tanto por ser uma artista visual e conceitual como também por ser uma cantora incrível e inovadora. Mas resolvi misturar bem os estilos e colocar aqui álbuns diferentes e que de alguma forma influenciaram os gays tanto musicalmente como no seu comportamento. Procurei colocar álbuns importantes que fizeram parte da minha vida, na minha observação de comportamento de um público e também na vida noturna, que é muito importante no meio LGBT. Com isso eu não posso deixar de falar sobre um fenômeno mais recente, que foi a Lady Gaga.

Tem gente que ama e tem gente que não gosta, mas o talento dela é inegável e a sua influência no comportamento de jovens desde o começo de 2008, mais ou menos, é gigantesco! Acho que as pessoas começaram a perceber ela como uma artista completa a partir do álbum Born This Way. Ele foi o segundo álbum de estúdio gravado pela cantora, compositora e produtora musical.

Born This Way incorpora uma vasta gama de elementos de vários gêneros musicais, inclusive da música clássica, do heavy metal, do disco e do rock and roll, fundindo tudo com sons de electropop e dance. O trabalho também é fortemente inspirado pelo synthpop e pela música eletrônica das décadas de 80 e 90.
Neste álbum, Gaga teve mais controle sobre a direção musical e as composições. E foi quando isso aconteceu que a sua relação com a comunidade LGBT ficou muito maior do que já era. Quem sabe sobre a cantora conhece seus fãs ardorosos, os “Little Monsters”, como são conhecidos por se vestirem com produções trazidas à tona por Gaga nesta época. Além de usar como influências alguns dos artistas que já citei acima, este álbum é importantíssimo pra uma geração gay que já não tinha grandes e diferentes referências artísticas em um mundo pop já meio saturado das mesmas fórmulas.

* Rod Mello é DJ, músico, produtor, compositor, performer e mente criativa por trás do Madblush, projeto musical premiado no Gay Music Chart Awards.