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Cícero ao vivo

O Cícero atual ajuda a explicar todos os cíceros anteriores

Minha primeira audição do Cícero não foi muito fácil, confesso. Desde o seu início, lá em 2011, com o caseiro Canções de Apartamento, ficou claro que ele era um cara diferente na cena, mas, ainda assim, as suas composições banquinho/violão precisaram de tempo até que fizessem sentido nos meus fones. Muita gente descobriu o cara enquanto eu ainda me debatia com ele. Seu primeiro disco ganhou espaço, as intimistas composições do cidadão desabrocharam e se tornaram hits nos lábios de muitos ouvintes que, fiéis, passaram a acompanhar o artista. Quando finalmente o entendi, ele já estava em pleno voo.

Cícero ao vivo

Cícero & Albatroz ao vivo no Cine Joia: a noite milimetricamente redonda contou com um artista em seu auge criativo, uma banda afiada e até condições climáticas perfeitas para audição de sons intimistas.

Fotos: Emanuel Coutinho.

É interessante observar como as gravações do Cícero, disco a disco, formaram uma escada para que ele pudesse, agora acompanhado pelo Albatroz, alçar uma manobra mais ousada no seu quarto álbum.

O começo intimista com Canções de Apartamento (2011) foi aprofundado em Sábado (2013). Em A Praia (2015), Cícero encontrou um equilíbrio entre aqueles dois primeiros discos, e mostrou de fato qual era a sua identidade. Já interessado pelo progresso, fiquei curioso sobre o próximo passo, e ele veio em 2017. Respeitando quase que religiosamente os intervalos de dois anos que o violeiro despretensioso costuma dar entre um disco e outro, Cícero & Albatroz (2017) apareceu no ano passado como um relato que, muita mais do que maturidade, evidencia um intérprete sem amarras e que, ao vivo, pode enfim ir muito além do comportado som que o senso comum lhe dá como característica maior.

Cícero cresce com o auxílio da banda

Cícero cresce com o auxílio da banda: a presença dos músicos do Albatroz deu fôlego ao minimalismo do cantor, que agora pode cantar em palcos maiores sem causar estranhamento.

Muita coisa mudou na carreira do cantor de 2011 para cá. Além da gravadora (Sony Music) e da presença de uma imponente banda, o próprio comportamento do Cícero é outro agora, talvez até influenciado por estas outras mudanças. Em 2018, ele goza de uma embriagante liberdade no palco, que não era vista nas fases iniciais. Seu relaxamento é nítido e a sua movimentação comprova como ele está solto, dançando sobre o novo modelo de espetáculo. Cícero está mais parecido com um mobilizador de multidões, embora, entre uma música e outra, ainda demonstre ser aquele cara que não gostaria de ser notado andando pelo centro de São Paulo.

Outra coisa interessante de perceber é como a sua vibe intimista pode, enfim, com a ajuda de mais recursos, chegar a mais pessoas dentro dessa nova dinâmica. Explico: com um som mais rico e robusto, e um show mais dinâmico, Cícero agora consegue facilmente preencher os espaços de uma casa maior, como foi o caso do show realizado no Cine Joia na última semana, onde todos estes atributos que acabo de comentar estiveram presentes contribuindo para o resultado geral bem-sucedido.

Cícero e o espetáculo

Cícero e o espetáculo no Cine Joia: com a nova atmosfera, até o hábito dos fãs ficou mais próximo do que observamos nos shows em geral.

O Albatroz merece, como ameacei comentar antes, bastante destaque nesse novo esquema, pois a estrutura da banda e seu caráter melódico complementam e abrem bastante espaço para uma exploração sonora interessante por parte do artista principal. A música de Cícero está maior. E o melhor: essa música conseguiu se expandir sem perder as suas raízes. No show novo de Cícero, estão presentes as canções do disco novo, mas, direta ou indiretamente, estão presentes os discos anteriores também, porque tudo passou a fazer sentido no conjunto da obra. Isso ficou claro durante a sua apresentação no Cine Joia. Para a sorte dos presentes, tratava-se ainda de um sábado chuvoso, talvez o cenário perfeito para uma noite ao som daquela serena lírica.

Fiquei com a impressão de que o som exibido na fase Cícero & Albatroz é aquilo que o Cícero queria fazer desde o início, com os trabalhos anteriores servindo como notáveis experimentos a céu aberto em busca da medida perfeita. Isso explicaria o estranhamento de tanta gente em contato com aquelas obras anteriores. Foi uma metamorfose difícil, mas que, com o novo trabalho, se completa e se prepara para abrir melhor os ouvidos de quem ainda torce o nariz. É de se entender que você, que ouviu “Tempos de Pipa”, por exemplo, não tenha sido fisgado até agora. Mas tente outra vez ouvindo “A Cidade”. Tenho quase certeza de que agora vai.