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Catavento, Cha

Catavento: plantar, colher e ferver o “Cha”

No início de 2014, eu estava em frente a este mesmo notebook ouvindo o primeiro disco da Catavento, então uma promissora banda do recém-lançado selo Honey Bomb Records. Pouco tempo antes, eu havia resenhado um split dos mesmos caras e, embora fosse só o início da história deles, na época eu já me impressionava um pouco com a estética bem definida que cada material trazia. Em 2014 mesmo, os guris levaram o som deles para quase todo o Brasil, via vídeo (até hoje ouço falar dos índios em “Fauna Sound”), via mp3 (Spotify era ainda uma lenda estrangeira, tanto que nem o linkamos na resenha do álbum) e via kombi (essa certamente a rede social favorita deles até hoje).

Catavento, Cha

Quando a Honey Bomb foi fundada, em meados de 2013, nós estávamos fundando este blog. Então, embora não tenhamos agido diretamente dentro do movimento que passou a ocorrer na serra gaúcha, passamos a acompanhar tudo sob um ângulo privilegiado e recebendo informações que às vezes nem chegavam ao grande público. Do ângulo que a sorte me permitiu ter, fica claro que o Cha, disco lançado pela Catavento há poucos dias, não é apenas um disco, mas a consolidação de todo um movimento cultural que até então não se via aqui pelas bandas do sul, mas que agora, mais precisamente no primeiro final de semana do mês de setembro, conseguiu até estender um dos seus tentáculos até São Paulo, onde a Catavento esteve divulgando o seu mais novo vinil, cuja música de trabalho já foi ouvida por 40 mil pessoas.

Desenhar a história da Catavento é necessariamente falar de coisas que vão além de itens discográficos. Uma geologia correta percorreria o histórico do seu selo, falaria das outras bandas que o abraçaram e dos muitos coletivos que surgiram ao seu redor desde aqueles primeiros sinais de vida. Para nós, que de certa forma estávamos lá quando a Paralela virou associação cultural ou quando a Catavento quase destruiu os PAs de um bar bem trash aqui de São Leopoldo com tanto reverb, o Cha marca o fim de um ciclo e o início de uma nova fase para todo mundo que deu um pouco de si ao DNA daquilo que parece música, mas que na verdade é gana e esforço coletivo em forma de som.

E, por falar em coletivo, o disco novo começou com esse clipe aqui.

Se o movimento aqui no sul fosse um filme, “City’s Angels” seria aquele momento em que o tempo começa a abrir e o ponto fraco do vilão é finalmente descoberto. Uma faixa com título que assinalava mais uma letra em língua inglesa, mas que depois se abria em um refrão de “tempestade de sol”, pra mostrar que competência não tem idioma definido. Os teclados marcados do Johnny estavam lá para lembrar que a banda ali presente era aquela mesma da qual tanto havíamos falado por aqui, mas o elenco no videoclipe ia um pouco além dos integrantes de costume: em uma super produção cheia de takes lindos, o vídeo mostrou em slow motion a cara de algumas das pessoas que caminharam com o grupo até aqui.

Depois do clipe, ainda vimos o single “Plantinha” no ar, com novas cores em relação aos singles lançados por eles nos trabalhos anteriores. Na nova faixa, eles conseguiram revisitar as guitarras pesadas costuradas junto aos sintetizadores, algo que já apresentavam em algumas canções do passado, mas agora havia o riff de teclado que guiava a levada histérica de bateria. E foi a última coisa que eles publicaram antes do disco completo chegar.

Logo depois, o disco foi colocado na rua e uma série de pessoas que aguardavam pelo trabalho empilhou comentários entusiasmados em resposta às expectativas que o disco cumpria. Portais, blogs grandes, blogs médios, blogs pequenos e mesas de boteco tiveram o disco como pauta e a quantidade de plays nas novas canções foi crescendo exponencialmente. Tudo isso em uma questão de poucos dias.

À essa altura do campeonato, eu já tinha ouvido o Cha mais vezes do que você pode imaginar. De verdade. Talvez umas 200 audições completas desde que o pessoal da Honey enviou aquela sequência ainda incompleta de faixas por inbox.

Quando passei da vigésima audição, eu já não era o blogueiro cumprindo o dever de me informar, nem era também um amigo curioso querendo saber o que o meu pessoal andou gravando. Você só chega a 200 audições e ainda corre para ser um dos primeiros a procurar a pré-venda do vinil quando está emocionalmente ligado ao disco. No meu caso, ligado ao som e a tudo o que ele representa para tanta gente: a consolidação de todo um ecossistema que incentivou outras pessoas a transformarem Caxias do Sul em uma terra onde se cria o tempo inteiro. Ouvir o Cha era ter contato com outras abelhas que gostam tanto daquele chão que pisam, era ouvir/ler/acompanhar o trabalho do Du no HBR Lab, era admirar as artes incríveis dos Leos Lucena e Rech, era rever os rolês do Johnny e do Lucas, era sentir o trabalho das produções geniais do Maffei, das fotos incríveis da Tuany, das aparições sempre relevantes do Dimi, do suporte de todo pessoal da Paralela era lembrar saudosista do papel de pai que o Jonas já quase não precisa mais fazer com a maturidade que esses caras adquiriram em tão pouco tempo de caminhada.

E foi assim que o meu texto, que era para ser um faixa-a-faixa do novo disco, virou um textão cheio de nomes. É que eu realmente acho que falar desses nomes explica melhor o disco do que falar das faixas ou dos instrumentos usados em cada uma delas.

Graças à vontade insistente desse pessoal de fazer sempre e sempre fazer melhor, o Cha está aí, com seus pouco mais de 30 minutos, trazendo nove faixas muito bem produzidas num registro histórico que faz jus à muita coisa musical ou não musical que andou acontecendo de 2013 para cá. É, portanto, um disco que já nasce grande, cheio de gente linda que salta aos ouvidos em cada canção.

Ouça o Cha no Spotify e siga o Catavento no Facebook.