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Michael Lee Aday, cabeça do projeto Meat Load

No futuro, todos os artistas serão como Meat Loaf?

O Meat Loaf tem um dos discos mais surpreendentes da história da indústria fonográfica. Goste você ou não do rock operístico desenvolvido por Michael Lee Aday e sua trupe, não há como não se impressionar com o fato de um disco com canções longas e arranjos rebuscados, liderado por um músico até então inexpressivo, ter feito sucesso a ponto de colocar-se até hoje na lista dos mais vendidos de todos os tempos à frente de trabalhos como Sgt. Pepper’s e Nevermind. Nem o público, nem o próprio Michael estavam preparados para tanto sucesso que se construiu aos poucos: sem nunca ser o “disco do momento”, Bat Out of Hell (1977) vendeu de forma constante, de grão em grão, ao longo de várias décadas, até alcançar a marca de 43 milhões de cópias. Sem querer, o disco inaugurou um fenômeno raro para a sua época, o da procura recorrente por músicas antigas, que tem se tornado cada vez mais frequente na era do streaming.

Michael Lee Aday, cabeça do projeto Meat Loaf

Michael Lee Aday, cabeça do Meat Loaf: o álbum lançado em 1977 até hoje ainda é um fenômeno a se observar.

Até o nascimento de Bat Out of Hell, nem a própria indústria estava pronta para entender um disco que tivesse procura em boa escala mesmo décadas depois de ter sido lançado. Basta observar que boa parte da organização que a indústria veio a adotar nas décadas seguintes deu-se em função deste álbum específico. Até as noções de “frontline” e de “catálogo”, que guiaram o mercado fonográfico por muito tempo, surgiram por conta deste trabalho.

“Frontlines”, no jargão fonográfico, é como se chamavam aqueles lançamentos que possuíam prioridade dentro da casa e que consumiam a maioria do orçamento de marketing. Um disco era considerado lançamento “frontline” por 18 meses. Depois disso, dentro do funcionamento ortodoxo da indústria do disco, o álbum / single / compacto saía da sua condição de linha de frente e ia compor o “catálogo”, que era como os profissionais do meio chamavam o histórico de lançamentos das gravadoras que continuavam recebendo atenção ($$), mas em grau muito menor.

Mas onde entra o Meat Loaf nessa história? O disco Bat Out of Hell, lançado em 1977, não foi um fenômeno imediato, embora até tenha sido bem recebido em sua época. O disco notabilizou-se mesmo foi por manter uma boa quantidade de vendas ao longo do tempo. Enquanto outros álbuns de sucesso mais instantâneo apareciam e sumiam à sua frente, Bat Out of Hell tornou-se um dos discos mais vendidos do mundo ao longo dos anos 80 com base nesta constância.

A boa performance invadiria os anos 90 e chegaria à era do CD, onde o Meat Loaf, até então um caso apenas pitoresco, incomodaria definitivamente. Em 1991, a indústria do disco estava passando por uma mudança de formato com a popularização do CD. Tornava-se comum ao redor do mundo o hábito de substituir a coleção de vinis por CDs com as mesmas músicas, por pura questão de hype. Houve uma grande onda de compras de CDs nesta época para que todas as coleções dos aficionados se “recompletassem”. Nisso, alguns álbuns antigos voltaram a ser procurados. Bat Out of Hell (1977), um fenômeno inexplicável de vendas ao longo dos anos 80, teve o seu auge de procura no início dos 90 e apareceu com destaque nos gráficos de então.

Bat Out of Hell

Bat Out of Hell, de 1977, fenômeno de vendas constantes: nem o próprio Michael Lee Aday entende como tudo aconteceu.

Os números bombásticos do Meat Loaf significaram um tremendo abalo à estrutura da indústria. Não se iluda: a prateleira dos mais vendidos na livraria não é um serviço de utilidade pública que quer informá-lo sobre os movimentos do mercado consumidor. Essa prateleira está ali para promover alguns novos lançamentos, priorizando-os em relação às demais obras. As listas de álbuns mais vendidos divulgadas semanalmente em todo o mundo possuíam esta mesma função. Logo, um álbum que já tinha 14 anos de idade e mesmo assim se colocava em todos os gráficos era um tremendo pentelho aos olhos de uma indústria interessada em gráficos repletos de sangue novo.

Pensando em remover o Meat Loaf do topo das listas, a indústria criou a “regra do catálogo”, decretando que apenas os álbuns “novos” ou “frontlines” eram elegíveis para os gráficos. Foi quando os tais gráficos passaram a considerar apenas discos lançados nos últimos 18 meses, gerando aquela divisão comentada anteriormente. O resto era “catálogo”, história, ainda que continuasse rendendo aos cofres. Foi a forma que o mercado encontrou para lidar como uma mudança de formato e com um movimento inédito ocasionado pela inclusão daquela nova tecnologia que era o CD.

26 anos depois daquele episódio, estamos vivendo a entrada em um novo formato novamente.

Na época em que os discos eram vendidos (os mais novos podem acreditar: houve esse tempo), os lançamentos sempre dominaram as vendas; chegavam a representar quase 50% dos lucros das gravadoras, o que é muito significativo se pensarmos a fundo: significa dizer que os lançamentos da EMI no ano de 1996 (os “frontlines” da gravadora) conseguiram vender tanto quanto todos os discos de Beatles, Frank Sinatra e outros medalhões juntos (o “catálogo” da EMI) naquela mesma temporada. Não era pouca coisa. Em tempos de streaming, no entanto, os consumidores tendem a absorver conteúdo antigo. A disponibilidade full time e a gratuidade do acesso fazem com que o “catálogo”seja mais lucrativo do que sempre foi.

Mais tocadas do U2

Lista das canções mais populares do U2 no Spotify: apesar de todo o esforço de divulgação do novo álbum de 2017, as músicas mais tocadas do grupo ainda são de discos lançados décadas antes da existência do próprio Spotify.

O ecossistema todo contribui para isso. Na época de ouro da indústria, quando os discos eram antecedidos por singles quentes que faziam formar filas na frente das lojas para aguardar a chegada dos novos álbuns, a rádio era o maior veículo de divulgação da música. Primando sempre por conteúdo novo – e atuando movidas a jabá -, as rádios acabavam promovendo sempre músicas frescas, aumentando o interesse do público pela tal “linha de frente” das gravadoras. Atualmente, o Spotify tem se esforçado para tomar o lugar das rádios neste papel. Playlists proprietárias do software, como “Brazil Viral 50” e “Novidades da Semana”, tentam apresentar lançamentos ao usuário, mas a disseminação de músicas através de playlists feitas por usuários comuns acaba descentralizando esta função de curadoria, fazendo com que os sons antigos tenham muito espaço de reprodução. O Spotify é uma grande loja de discos, mas é também um grande sebo onde os sons vão sendo redescobertos e reciclados independentemente da sua data de lançamento.

Gráficos recentes têm desafiado selos e gravadoras a repensarem o seu modelo de investimento em sons novos. Segundo a Music Business Worldwide, 40% das faixas lançadas em 2015 tiveram mais plays em 2016 do que no seu ano de lançamento. O segundo ano das músicas tem sido, em muitos casos, mais lucrativo do que o primeiro. Detalhe: isso ocorre em um cenário onde se investe astronomicamente mais em mídia ao longo do primeiro ano. Como este número estaria agora se o investimento nas canções fosse regular ao longo de todo este período? A luta pelo topo dos gráficos deixou de ser uma corrida de 100 metros para se tornar uma maratona, então não adianta continuar correndo da mesma forma.

O streaming é um outro mundo, ainda muito influenciado pelas lógicas de seu mundo anterior, então o modelo ainda não é tão explorado no que oferece de mais novo. Eu posso incluir uma canção em uma playlist hoje e ouvir essa playlist semanalmente pelo resto da vida, fazendo com que uma banda, selo ou gravadora lucre eternamente com isso, em contraposição ao modelo industrial anterior, onde eu adquiria o álbum e, ainda que o ouvisse um milhão de vezes por semana, os gráficos de venda deste disco não sofreriam a interferência da minha febre. Outro fator que tem se observado é que os novos lançamentos de determinados artistas têm gerado uma procura significativa pelos lançamentos antigos deste mesmo artista, criando na obra uma capacidade de auto-alimentação. Como a recorrência e a auto-alimentação têm sido trabalhadas pelos artistas, por seus selos e por suas assessorias de imprensa?

Outra pergunta: como esta audição recorrente (que parece otimista) tem sido problematizada no que pode trazer de ruim? Se no passado os investidores apostavam em artistas novos de olho no lucro (já que estes eram os que mais vendiam dentro daquele arranjo industrial), o que obrigará os donos da plata a continuarem investindo em nomes novos quando trabalhar sobre músicas antigas se tornar nitidamente mais barato e largamente mais lucrativo? Será que caminhamos para um futuro onde, mercadologicamente, artistas novos serão desnecessários à indústria fonográfica? E, se sim, o que pode ser feito para reverter este quadro?

Lógico, há muita inconsistência nesses gráficos todos e o Spotify ainda não está pronto para entregar muitas certezas sequer a respeito dele próprio. Analistas de dados ainda acham que esse crescimento dos plays no segundo ano dos lançamentos pode ser resultado do crescente número de usuários na própria plataforma: de agosto de 2016 a agosto de 2017, o serviço recebeu 20 milhões de novos usuários, então mesmo as canções que performaram super bem em seu lançamento receberam a chance de terem 20 milhões de novos ouvintes. Com esse crescente número de usuários, as chances de uma música ser mais ouvida amanhã em relação a hoje é enorme, e isso confunde um pouco a análise dos dados no momento.

Ainda assim, anuncia-se uma tendência observada nos perfis da grande maioria dos artistas expostos dentro do Spotify: as músicas antigas vêm recebendo mais atenção a despeito do quanto se investe nas canções novas. O alcance miúdo e constante tem se revelado como modelo de arrecadação de grandes artistas, e, ao que tudo indica, deve ser esta mesma a realidade dos artistas colocados na cauda longa e que trabalham com cifras mais reduzidas. Pelo andar da carruagem, no futuro, todos serão como Meat Loaf a lucrar constantemente e lentamente com os trunfos do passado. Se isso ocorrer, o objeto de trabalho do artista não será mais o lançamento (o novo álbum, o single, o EP, a música de trabalho etc.), mas a sua obra acumulada e administrada ao longo dos anos. Isso não significa, por óbvio, que anuncia-se um apocalipse, nem que devemos ouvir no horizonte as trombetas do paraíso. A situação, no entanto, poderá ter resultados bons ou ruins a depender de como todos os envolvidos se prepararem para ela.

__ Este texto foi construído a partir do comentário de Will Page ao Music Business Worldwide e dos números organizados pelos sites TsortCanaltech e Oficial Charts