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Samira Winter e seu novo single gravado pelo Cassete Club: captando a aura da produção musical analógica

O surgimento do mp3 nos levou dos primeiros downloads ilegais até a comercialização da música digital. Quando parecia que quase tudo se transformaria em bytes, o retorno de alguns formatos físicos abriu caminho para um novo momento de experimentação em pleno século XXI, trazendo vinis, fitas e equipamentos analógicos de volta à ativa. Lê Almeida, conhecido por utilizar técnicas “vintage” nas gravações e nos lançamentos do seu selo Transfusão Noise Records, desde 2016 vem mergulhando ainda mais fundo no processo de revitalização da estética analógica através do seu projeto Cassete Club. A iniciativa tocada em parceria com João Casaes já gravou mais de uma dezena de artistas diretamente em fita K7 e lança hoje o single “Always Teenager” gravado por Samira Winter, Victoria Winter e Renato Rigon.

A música inédita foi captada e mixada por Lê Almeida (utilizando uma mesa analógica), masterizada por João Casaes e ainda ganhou uma capa de colagens feita pelo artista Miguel Clemente.

O clube do chiado: transformado o ruído de ontem no elemento técnico e estético de hoje

O Cassete Club nasceu em 2016 através de algumas experimentações durante as gravações dos primeiros singles da banda Cosmos Amantes, um dos grupos nos quais Lê Almeida toca. Na época, o single “Canto do Mar” foi o pontapé inicial para um mergulho intenso em busca de referências e técnicas utilizadas sobretudo nos anos 90 e que impregnaram a aura da música naquela década. Neste processo, foram referências fundamentais os trabalhos Alien Lanes (1995), do Guided By Voices, e Love Tara (1993), de Eric’s Trip, ambos gravados de forma totalmente analógica e utilizando a fita K7 como meio master.

Cassete Club

O set de gravação de Oruã: mesmo local onde Samira gravou “Always Teenager”.

De um ano pra cá, diversos outros artistas já passaram pelas sessões ao vivo e analógicas de gravação, contando projetos englobados pelo selo Transfusão Noise Records e bandas que volta e meia aparecem nos eventos organizados pelo Escritório, a casa de shows/estúdio que funciona como base de todas as atividades. Crusader de Deus, LuvBugs, Acruz Sesper, D. Selvagi (já resenhado aqui no New Yeah), Oruã e, mais recentemente, Samira Winter são alguns dos nomes que já visitaram o espaço e experimentaram os diferentes processos de gravação testados por Lê e João através do clube.

Lê conta que, no processo de gravação de “Always Teenager”, foi utilizada uma técnica de captação da bateria com apenas um microfone. Outro ponto que ele comenta é o fato de Samira ter pedido mudanças na luz da sala, alterando o clima do ambiente e trazendo “ondas” diferentes para a gravação. Ele ainda complementa falando sobre a simplicidade do processo junto à artista, além da importância de criar um ambiente que capte todo o clima do momento e também da canção, salientando como a atmosfera da música (e isso inclui o próprio momento de captação) é um componente importante de toda a experimentação técnica proposta ali.

“A Samira tem ondas bem parecidas com as minhas, de simplificar as coisas. Gravação pra mim é a captação de uma onda, um momento único ali. Bom demais lembrar das gravações com carinho depois”. Lê Almeida (Transfusão Noise Records & Cassete Club)

Além da música, o projeto também acaba incorporando as artes gráficas, já que em cada single um artista diferente é convidado para desenvolver uma arte exclusiva inspirada na canção da vez. No início, grande parte das capas eram feitas pelo coletivo de colagens organizado por Lê na cidade do Rio – o Tanto Coletivo -, mas, de alguns lançamentos pra cá, eles preferiram deixar o espaço aberto para convidados diversos, além de artistas que queiram, de forma espontânea, contribuir com a sua arte. O clube inclusive deixa aberto o canal para designers ou artistas iniciantes que queiram fazer parte do projeto, podendo entrar em contato diretamente com o Escritório ou com a Transfusão para fazer a sua arte rodar por aí.

Em tempos de mudanças (ou em mudança de tempos), Lê e João buscaram nas suas referências vintage uma forma de irem ainda mais longe na pesquisa e no resgate de recursos que eles próprios já encorajavam e mantinham vivos com alguma força há mais de 10 anos na cidade do Rio de Janeiro. No auge do consumo digital, o Escritório criativamente se firma como um antro da tecnologia palpável, distribuindo lançamentos online, mas mantendo o aparato analógico como recurso principal na busca de um aprofundamento da estética lo-fi no país.

A lista completa de lançamentos do Cassete Club de Lê e João pode ser conferida logo abaixo. Por enquanto, são 13 músicas gravadas entre junho de 2016 e maio de 2017. Segundo Lê, a ideia posterior é de compilar as produções do projeto em álbuns que marcarão cada temporada de atividades, experimentações e (re)descobertas.