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Bratislava

Bratislava: “o Lolla é um pedal de boost na voz da banda”

O Lollapalooza nasceu 1997 nos Estados Unidos e chegou em terras brasileiras no ano de 2012. Desde então, vem se apoiando em grandes nomes mundialmente conhecidos para promover um festival que movimenta milhares de pessoas de todos os cantos do país. Nos nomes que aparecem em destaque no line up, há aquelas bandas que tocam no rádio e que vendem muita camiseta. Nas letras menores, há nomes que podem até não alavancar as vendas de ingresso, mas que representam as mudanças mais significativas do mercado musical nos últimos anos.

É nas letras menores que o festival arrisca e abre espaço para o novo. É à sombra do headliner que nomes vindos do cenário independente, por exemplo, têm a oportunidade de se apresentarem para o grande público e amplificarem a sua voz para fora do circuito onde elas já estão estabelecidas. Para entender esse processo e a importância da representação da cadeia produtiva independente em festivais desse porte, conversamos com a banda Bratislava, que se apresenta na edição de 2017 do Lollapalooza Brasil, em março, no Autódromo de Interlagos.

Bratislava

Bratislava: um pequeno (mas pesado) detalhe no cartaz do Lolla 2017.

Fundada em 2010 na cidade de São Paulo, a Bratislava hoje é uma das mais importantes bandas do indie nacional e ganhou grande destaque no ano de 2015 com o lançamento do seu terceiro disco, Um Pouco Mais de Silêncio. Além de figurar em listas de melhores do ano e participar de eventos e projeto importantes como o Converse Rubber Tracks e o Sofar Sounds, a banda ainda teve uma campanha de financiamento coletivo bem sucedida que bancou o lançamento físico do seu álbum. Detalhe: não foi um lançamento físico daqueles que a gente está acostumado a ver, com CD, vinil ou fita K7. O álbum de 12 faixas foi divulgado em formato digital e também através de um zine impresso com letras e ilustrações que servem para complementar a experiência de audição e gerar novas sensações ao ouvinte/leitor.

Por viver em um dos corações do país e estar imersa na cena independente desde 2010, a Bratislava assistiu ao vivo à mudança onde a tecnologia foi se tornando mais acessível, certos agentes foram sucumbindo para o nascimento de outros e novas ferramentas (como o próprio financiamento coletivo) foram se estabelecendo para mudar a lógica de produção. “O universo da música independente é uma metamorfose ambulante”, comenta Victor (vocais e teclas). “Em 2010, por exemplo, a música independente de São Paulo era diferente: era o auge do Fora do Eixo, que era importante para as bandas, para a circulação dessa cultura específica, independente das críticas, das intenções deles, do tratamento com as bandas etc.; a Rua Augusta também era um lugar onde a música independente existia, em um bocado de venues que hoje não existem mais ou cuja proposta teve que se adequar à nova juventude que hoje popula a rua, que é diferente da de 2010”.

Permanecer na ativa transitando dentro da cultura independente, enquanto o arredor desaba e se reconstrói a cada dia, é um exercício de resiliência ou, como afirma Lucas (bateria), uma tarefa para quem realmente ama o que está fazendo, já que o processo é quase sempre lento e geralmente muito trabalhoso.

“Existe um processo dinâmico no cenário independente. Ele se reinventa, surgem novos agentes, novas bandas e novo público. Mas, no meu ponto de vista, o acesso/processo é trabalhoso e feito com muito amor. A Bratislava faz tudo sempre com muito esmero e algumas coisas que acontecem são consequência disso. Lançar disco, fazer show, ser uma banda… é tudo fruto de bastante dedicação”.Lucas, Bratislava

Quase sete anos depois do primeiro ruído em algum estúdio improvisado da maior cidade da América do Sul, a banda está no cartaz do Lollapalooza Brasil. Ali, enquanto Metallica e Strokes saltam aos olhos mostrando que as gravadoras ainda seguem tendo bastante força, a Bratislava aparece em fonte menor, mas com o peso de representar uma classe de artistas que vivem diariamente o esforço de se manter na atividade através dos seus próprios braços. “Acho que as bandas independentes que tocam no Lolla têm esse papel de fortalecer pra geral”, comenta Victor, consciente da ideia de que a banda está ali representando o trabalho de outras tantas bandas que não couberam no line up e, mais do que isso, a banda só está ali porque uma infinidade de outras bandas construiu as condições para que isso acontecesse, correndo e suando desde muito antes de o próprio Lolla existir.

“Sinto mais satisfação por estar tocando num grande palco pelo qual já passaram Boogarins, Baleia e O Terno, do que por tocar no palco pelo qual passaram as bandas grandes gringas, como Foo Fighters, Nine Inch Nails, Smashing Pumpkins ou Jack White – por mais fã que eu seja desses artistas. É um abismo tão absurdo entre a realidade da Bratislava e do Metallica que essa coexistência fica quase sem sentido ou significado. É tudo massa demais, não me entenda errado, é uma realização do caralho mesmo! Mas dá pra se perder fácil nessas ideias. Enfim, a felicidade é mais porque bandas independentes têm espaço em festivais dessa dimensão. É um momento onde nossa cultura de nicho tem uma experiência com o público grande, e isso é legal para a cena toda, para todas as bandas”. Victor, Bratislava

Para a banda, o festival é, além de uma chance de cravar a bandeira do cenário independente em um influente piso mainstream, uma oportunidade rara de expandir o seu público e fazer com que o seu nome seja visto por pessoas que talvez nunca tivessem a oportunidade de experimentar o som da banda nos ambientes por onde ela normalmente transita. Victor comenta que “o Lolla é um pedal de boost na voz da banda, que impulsiona o trabalho para novos públicos”.

Para a Bratislava, tocar no Lollapalooza é um momento de afirmação e de exposição ampliada. Uma experiência que a banda tenta encarar de forma profissional e com os pés no chão. No dia seguinte ao festival, um palco menor os espera e a vida vai muito além dos holofotes que a grande mídia mira neles neste exato momento. Em um dia, eles dividem o palco com os Strokes. No outro, dividem o palco com alguma banda que talvez só ouçam falar pela primeira vez pouco antes de chegar ao local do show. E nada impede que a noite seguinte, no palco muito menor, seja ainda mais incrível.

“Depois de um tempo na estrada, tocando com dezenas de outras bandas, indo a inúmeros shows, frequentando desde shows grandes de arena à Casa do Mancha, a gente deixa muita fantasia de lado, consegue enxergar com mais clareza o valor estético de cada artista, perde aquele fascínio pelas bandas gringas e saca que aquela banda que você viu no Puxadinho da Praça com mais quinze pessoas na plateia é tão boa e virtuosa ou profunda ou divertida quanto aquela outra que lotou o Morumbi.” Victor, Bratislava

Ao fim da conversa, se consegue perceber a lucidez de uma banda pronta para representar um pouco da música que vem sendo feita e executada para lotações um pouco menores das vistas em grandes festivais, mas que não perde em qualidade para nomes que ganham destaque frequentemente na mídia. Da criatividade de lançar suas músicas até o experimentalismo de suas canções, a Bratislava torna-se aos poucos uma especialista em sobreviver à sombra do que ordena o mainstream. Mesmo em letras menores, tem tudo para ser um dos grandes shows nacionais do festival. Se isso acontecer, milhares de pessoas terão a chance de sentir ao vivo, em Interlagos, a qualidade que as pequenas plateias vêm vivenciando há quase sete anos.

Para continuar acompanhando a Bratislava, curta a sua página no Facebook e ouça sua discografia no Spotify. Se ficou curioso e quer ver o show dos caras no palcão do Lolla, ainda tem ingressos disponíveis para um ou dois dias de nesse link. A banda se apresenta no Lolla nos dias 26, domingo. Para conhecer melhor o trabalho da banda, dê um play na playlist abaixo.