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David Bowie em frente ao muro de Berlim: a identificação com a cidade seria tanta que os jornais locais noticiariam a sua morte em 2016 como a morte do maior berlinense vivo.

Como a união entre Bowie e Berlim mudou para sempre a história dos dois

O ano era 1976. David Robert Jones, desembarcava em Berlim acompanhado de James Newell Osterberg. Ambos com 29 anos. David, inglês, passara os últimos anos redefinindo a história da música, da moda, do comportamento e até da atitude sexual não apenas na sua terra natal, mas em todo o mundo. Ele já havia sido Ziggy Stardust, Aladdin Sane, Halloween Jack e chegava na cidade não apenas com o mesmo visual da sua última encarnação, o Thin White Duke (Magro Duque Branco), mas também caminhando e parecendo exatamente com Thomas Jerome Newton, o alienígena que havia interpretado em O Homem Que caiu na Terra; os cabelos ruivos em um laranja único, a pele muito branca, a magreza excessiva.

O filme havia sido gravado no ano anterior, no deserto do Novo México, e o diretor Nicolas Roeg havia determinado que David era perfeito para o seu personagem principal depois de assistir ao documentário Cracked Actor. Produzido pela BBC em 1974, o programa expunha a fragilidade, o distanciamento e o estranhamento do cantor abatido pelo vício em cocaína, no banco de trás de limusines, no backstage dos seus shows quando ele parecia deslocado do resto da humanidade. David era tão real e tão estranho, que na visão de Nicolas ele não precisaria sequer interpretar o alienígena do filme: ator e persona pareciam um só ser.

David Bowie em frente ao muro de Berlim: a identificação com a cidade seria tanta que os jornais locais noticiariam a sua morte em 2016 como a morte do maior berlinense vivo.

David Bowie em frente ao muro de Berlim: a identificação com a cidade seria tanta que os jornais locais noticiariam a sua morte em 2016 como a morte do maior berlinense ainda vivo.

“Eu apenas coloquei meu verdadeiro eu no filme naquela época. Foi o primeiro filme que eu fiz. Eu estava praticamente ignorando o procedimento (de se fazer filmes), então eu estava indo muito por instinto, e meu instinto estava bem dissipado. Eu só aprendia as falas para aquele dia e as fazias do modo como eu estava me sentindo. E não era tão difícil. Eu me sentia tão alienado quanto aquele personagem era. Foi uma performance naturalmente bonita. Uma boa exibição de alguém caindo literalmente na sua frente. Eu estava totalmente inseguro com cerca de 10 gramas (de cocaína) por dia. Eu estava fora de mim do começo ao final”. (Bowie à revista Variety em 1992)

O James ao lado de David também não era um mero companheiro anônimo. Alguns o chamavam de Jim, e o restante do mundo o chamava de Iggy Pop. Nascido no Michigan, norte dos Estados Unidos, não apenas já havia escrito suas páginas na história da música como também já havia ido do céu ao inferno. O padrinho do punk formara em 1967 os Stooges, e apenas um ano depois eles assinariam um contrato com a Elektra Records para, em 1970, lançarem Fun House, até hoje cultuado por muitos como o melhor disco de punk rock já feito em todos os tempos. Gravado com crueza, a obra surgiu de um grande amontoado de jam sessions, às vezes nem tão bem-sucedidas, dos seus integrantes.

Apesar de hoje ser considerado uma obra-prima, na época as vendas do álbum não decolaram. Os Stooges eram barulhentos, rápidos, inovadores e inconsequentes. O que produziam no palco era o retrato do que passavam em sua vida pessoal, sem regras, com excessos por todos os lados. As performances no palco do vocalista Iggy Pop podiam incluir sangue, acidentes, xingamentos, brigas e provocações à plateia. A gravadora aguentou a pressão por um tempo, mas rompeu após o lançamento do segundo disco. Sem rumo, a banda parecia fadada a chegar ao seu fim. Foi quando, em 1971, Iggy Pop e David Bowie se cruzaram no Max’s Kansas City em Nova York, e a empatia de duas figuras tão diferentes foi imediata. Um em ascensão e o outro em decadência. Bowie, usando o seu prestigio, trouxe os Stooges à Columbia Records e acabou sendo o responsável pela mixagem do terceiro trabalho da banda, Raw Power. Ainda assim, menos de um ano depois do lançamento, os integrantes da banda já se encontravam novamente separados, demitidos por gastarem a maior parte das verbas da gravadora com bebidas e drogas e sem perspectivas do que viriam a encarar.

Em 1975, Jim se internou em um hospital psiquiátrico em Los Angeles, após dois anos vivendo na cidade a base de favores e fugindo de problemas legais e financeiros. A sua internação era mantida com base no seguro saúde pago por sua mãe. Uma das suas únicas visitas era seu amigo David, que ainda envolto em seu próprio vício levava cocaína como presente. A antiga amizade foi retomada e Iggy passou a fazer parte do séquito que seguiu Bowie durante a turnê de 1976, Isolar, que promovia o disco Station to Station. Bowie foi acusado de ser um manipulador, um aproveitador, a fim de ganhar certa credibilidade na missão de salvamento de Iggy. O fato é que a união dos dois modificou para sempre ambos e os caminhos do rock.

Cuspindo sons longe de casa

O luxuoso Chateau D’Hérouville fica a 40 quilômetros de Paris, e foi lá que Iggy e Bowie começaram os trabalhos que deram origem ao primeiro disco solo do ex-líder dos Stooges: The Idiot. Bowie tocou vários instrumentos, foi co-compositor em diversas letras e dirigiu o seu companheiro aos microfones, além de ajudar na formação da banda que o acompanharia. As músicas da parceria Pop/Bowie estavam distantes de qualquer coisa produzida pelos Stooges e também começavam a mudar a forma com que Bowie via a sua própria música. Na tentativa de livrar-se do personagem Ziggy Stardust, ele começava, mesmo sem saber, o seu caminho em direção à “trilogia de Berlim”. “Iggy foi uma cobaia para o que eu queria fazer com o meu som”, afirmou em David em uma entrevista anos mais tarde. Terminados os trabalhos na França, a dupla seguiu para Alemanha, em direção ao Musicland Studios, um antigo bunker nazista convertido em espaço para gravações.

Finalmente a Alemanha em definitivo tomava forma na vida de Bowie, mas o seu fascínio pelo país era antigo. Ele passaria a transmitir toda a admiração que possuía pelo expressionismo do cinema alemão para a música. O seu interesse pelo chamado krautrock de grupos como Kraftwerk, Neu! e Tangerine Dream apenas crescia. Em 1976, ele havia sido apresentado ao autor Christopher Isherwood, cuja a visão da boêmia pré-guerra de Berlim descrita no livro The Berlin Stories serviu como inspiração para o musical Cabaret, um dos filmes favoritos do cantor.

Corinne Schwab, assistente pessoal de David encarregada de procurar um lugar para que ele e Iggy se instalassem na capital alemã, determinou o refúgio: 155, Hauptstraße, Schöneberg. A fachada pintada de creme, as portas em madeira marrom e metal. Algumas manchas de mofo, pé-direito alto e uma escada em caracol seguindo pelo mosaico de lajotas que forrava o vestíbulo. Tudo bem longe da rotina de um rockstar. Schöneberg era um bairro pobre, dominado por imigrantes turcos e pela comunidade gay da cidade. Portanto, afastado e barato. Ao lado do prédio, havia o estúdio de tatuagem Lotus. Saindo dali era (e ainda é) possível passar algum tempo perdido no depósito na frente da Bucherhalle, um sebo que fica à esquerda por sob um toldo branco e amarelo. Havia bares, livrarias e um mercado a 10 minutos de caminhada.

O lugar escolhido para a mixagem do álbum: Hansa Tonstudio, ou o “Hansa ao lado do muro”, no coração da capital alemã, ao lado da Postdamer Platz. Construído em 1912, servira como salão de baile durante a República de Weimar, nos anos 20 e 30, e também como sala de concertos para a Alemanha Nazista. A família de editores Meisel comprou o prédio principal em 1973: Meistersall, que foi convertido no Hansa 2 com 266 metros quadrados de área e sete de altura.

Além da parceria musical, Iggy e Bowie procuravam em Berlim um refúgio dos seus demônios: as drogas. Bowie posteriormente se deu conta de que não fora a ideia mais inteligente: “Eu e Iggy nos mudamos para a capital europeia da heroína”, afirmou à MTV em 1995. O produtor Tony Visconti, envolvido no projeto e colaborador de Bowie até o final da vida do cantor, também opinou sobre a escolha da cidade: “um paraíso para todos que quisessem ficar anônimos, como eles queriam ficar”.

Ali, eles eram de fato apenas mais dois na multidão. Jim e David podiam caminhar pela cidade, comprar tintas e voltar para o seu apartamento para passar a tarde discutindo arte, pintura e trocando experiências entre si. Ou podiam caminhar por entre as barracas de antiguidade na Winterfeldplatz. Para o jantar, o local escolhido era o Cafe Exil em Kreuzberg, geralmente na companhia de Corinne. Outros locais incluíam o Dschungel 2, o restaurante Asibini e o Paris Bar em Kantstraße. No Café Anderes Ufer, era comum encontrá-los prontos para o café da manhã. O local era um reduto gay que acabou por ser atacado por um grupo homofóbico e teve toda a sua restauração garantida e paga por David.

Low, o primeiro álbum daquela que ficou conhecida como “trilogia de Berlim”, nasceu dos escombros da trilha nunca lançada por David para O Homem Que Caiu na Terra. Portanto, não nasceu na capital germânica. Tony Visconti, Brian Eno e Bowie mais uma vez começaram os seus trabalhos na França. Brian Eno e Bowie se conheciam havia cerca de cinco anos, mas nunca haviam trabalhado juntos apesar da admiração mútua. Eno, um dos criadores do Roxy Music, havia definido o glam rock nos últimos anos, porém desde que iniciara a sua carreira solo se dedicava a sons experimentais.

Low tinha duas facetas: o primeira era instrumental e a segunda tinha letras que poderiam soar até incompletas, retrato perfeito de David no momento pré-Berlim. Sua sanidade estava afetada pelo histórico de drogas e álcool, seu casamento estava em ruínas e a sua angustia pelo novo o mastigava por dentro. Como o som dos sintetizados que, segundo Tony Visconti, “fodiam com a noção do tempo”, David também estava deslocado, à margem daquela vida. David buscava se encontrar pela primeira vez na sua carreira. O etéreo, o escapismo, o deslocamento para uma nova cidade… tudo estava ali.

O trabalho foi recebido com estranheza por fãs e críticos. Faixas como “Warszawa” não podiam ser mais diferentes do que todas as outras apresentadas anteriormente. “A gravadora não gostou, o que nos deixou muito felizes; tínhamos tido sucesso em sermos completamente radicais e diferentes”, afirmou Tony Visconti anos mais tarde.

Para completar a abordagem estranha, não houve divulgação ou turnê. Mas houve alguns shows na mesma época. O Bowie “low profile” saiu em turnê com Iggy Pop servindo como seu tecladista, tentando se manter o mais anônimo possível. Com seu desaparecimento, Bowie abriu um tremendo vácuo nas expectativas comerciais da gravadora. Sem um plano melhor, uma coletânea foi providenciada: Changes Bowie foi lançada sem qualquer consulta ao cantor, quase em paralelo com o disco, enquanto a dupla se apresentava em bares pequenos e se enturmava na noite alemã.

Em 1977, David e Iggy produziram Lust for Life, o segundo álbum do ex-vocalista do Stooges. A cidade pela primeira vez aparecia decisiva nas letras, como em The Passenger, quando temos a sensação de acompanharmos a visão da cidade pelos olhos de seus criadores: “Nós passearemos pela cidade essa noite / Nós veremos os lados rasgados da cidade / Nós veremos o céu claro e vazio”.

Então finalmente chegamos a Heroes, o único dos três álbuns a ser gravado e produzido realmente na cidade, e ele em definitivo jamais seria possível sem Berlim e seu Muro que Bowie literalmente via da janela no magnífico Studio 2 do Hansa. O muro que dividia não apenas a Alemanha, mas de certa forma todo o mundo em dois. O Muro de Berlim, suas sentinelas armadas e arame farpado literalmente ilhavam o Hansa dentro daquela realidade.

O muro visto do lado do estúdio utilizado por Bowie:

O muro visto do lado do estúdio utilizado por Bowie: “você se sente em Berlim ouvindo as músicas dele sobre Berlim! É como se a gente pudesse ver aquilo e viver um tempo que a gente não viveu, a da Berlim dividida pelo muro. Mais marginal do que ela é hoje, mas ainda viva”. Nina Lemos, correspondente da revista Tpm na capital alemã.

E foi justamente uma cena vista da janela que inspirou uma das letras mais emblemáticas de David. Ele estava sozinho no estúdio durante os intervalos das gravações quando observou pela janela um casal se beijando. Esse casal era Tony Visconti, que até então era casado, e Antonia Mass (que posteriormente atuaria como backing vocal da música que inspirou) com quem estava tendo um affair. Ambos aproveitando a sua paixão em meio às sombras do muro. Nascia a canção “Heroes”.

“Neuköln”, nomeada com o nome de um dos bairros de Berlim, e “V-2 Schneider”, cuja letra homenageia Florian Schneider (integrantes do Kraftwerk), ajudam a entender as cidades e os sentimentos de Bowie em relação à ela, mas certamente nenhuma outra letra resume a paisagem e os sentimentos de Bowie quanto “Heroes”: uma mistura de tristeza, euforia e melancolia.

Como na “batalha” descrita pela letra da icônica faixa de 1977, Bowie encarava os seus próprios fantasmas e medos. Em 1978, sua vida em Berlim já não era a mesma aventura beatnik de anos antes. Ele havia levado o seu filho para morar com ele e Iggy contra a vontade de sua ex-esposa, Angie, que também esteve em Berlim tentando se reconciliar com o ex-marido, mas acabou jogando todas as roupas de Bowie pela janela ao descobrir que a sua assistente morava no mesmo apartamento que ele. David teve uma crise nervosa e acabou sendo levado ao hospital com suspeita de ataque cardíaco.

À essa altura, Bowie até já estava mais recuperado fisicamente em relação a quando chegou na Alemanha. Até para dar o exemplo ao seu filho, que estava com seis anos na época, apresentava uma imagem mais saudável e aparecia elegante, porém com visual bem mais simples dos coloridos anos anteriores. O tempo como pai, que ele dizia ter perdido, tentava ser recuperado. Zowie, que mais tarde mudaria o seu nome para Duncan, estava matriculado em uma escola da cidade e os dois passavam muito tempo juntos. O divórcio de Mary Angela Barnett e David Robert Jones só foi assinado em 1980.

Ao contrário de Low, Heroes originou uma turnê mundial, a Isolar II, e durante o seu intervalo David voltou a Berlim para gravar Just a Gigolo, filme dirigido pelo ator David Hemmings. Nele, Bowie interpreta um oficial prussiano que ao retornar à cidade após o término da Primeira Guerra Mundial, sem perspectivas,acaba se tornando um gigôlo para mulheres ricas e solitárias. A motivação para que ele aceitasse o papel atendia por Marlene Dietrich, musa do cinema com o qual ele sonhava em contracenar, o que acabou por não acontecer, já que as cenas delas foram filmadas em Paris. O filme foi mal recebido pelo público e pela crítica. “Tive meus 32 filmes do Elvis em apenas 1 só”, afirmou David anos mais tarde, brincando com a péssima qualidade e receptividade dos filmes do Rei.

O disco que encerra a trilogia, Lodger, não foi gravado em Berlim, mas inicialmente na Suíça e acabou por ser finalizado em Nova York. Bowie parecia que finalmente tinha se tornado ele próprio, e não apenas mais um dos seus personagens. Porém, numa espécie de anticlímax dos seus trabalhos anteriores, soa mais fraco que os seus antecessores. As 10 faixas do álbum tratam do deslocamento mais uma vez, nos evocando lembranças de um narrador pulverizado e não mais tão vinculado ao seu ambiente. Bowie voltava à Nova York, assim como Iggy Pop, que já começava a traçar o seu novo caminho, tentando se livrar das especulações de que era apenas uma sombra de seu amigo inglês.

Lodger talvez fosse o primeiro álbum em muito tempo a trazer um Bowie acessível ao público em geral. Um disco que ficava à margem de toda a sua discografia, até hoje sendo adorado por alguns fãs e negligenciado por outros tantos. Não há nele grandes inovações, experimentações musicais de 10 minutos ou letras influenciadas pela alma atormentada de seu compositor. É um disco clean, sem sobressaltos depois de dois outros trabalhos tão densos. Na capa, Bowie apareceu fotografado por Brian Duffy, em um trabalho realizado em parceria com o artista britânico Derek Boshier, sendo retratado ali como uma vítima de acidente, com o nariz aparentemente quebrado.

A inspiração para o trabalho? O filme "O Inquilino", de 1976, dirigido por Roman Polanski, que também encerrava a sua trilogia: "A Trilogia do Apartamento", composta por este e mais dois filmes que colocam o espectador em uma sensação de claustrofobia.

A inspiração para o trabalho? O filme “O Inquilino”, de 1976, dirigido por Roman Polanski, que também encerrava a sua trilogia: “A Trilogia do Apartamento”, composta por este e mais dois filmes que colocam o espectador em uma sensação de claustrofobia.

Foi também nesse período que David abraçou em definitivo o novo e forte mercado de videoclipes, quando iniciou sua parceria com David Mallet para o vídeo de Boys Keep Swinging. A parceria duraria até os anos 90, marcando os dois Davids como desbravadores deste novo produto na era pré-MTV.

Depois de Berlim, Bowie nunca mais foi da forma como foi por lá. O primeiro disco após a aventura alemã, Let’s Dance, já não continha o DNA da fase alemã e apenas a autoconfiança recolhida na capital germânica acompanharia Bowie até o fim de sua vida mesmo com as diversas metamorfoses empreendidas pelo camaleão do rock.

Em junho de 1987, ele ainda retornaria para a sua mais emblemática viagem à cidade dividida. O “Concerto para Berlim”, quando o palco montado em frente ao prédio do parlamento alemão – o Reichstag –, na região do Portão de Brademburgo, fez com que “Heroes” fosse ouvida dos dois lados do muro. Os berlinenses do lado oriental se amontoaram ao pé da muralha para ouvir o show. Foram três dias de apresentações.

Para sempre

“Adeus, David Bowie, agora você está entre #Heroes. Obrigado por ter ajudado a fazer o muro cair”, publicou no Twitter o Ministério das Relações Exteriores da Alemanha quando o mundo acordou com a notícia de sua morte em janeiro de 2016. Na realidade, Bowie e Berlim nunca mais se separaram, talvez tendo sido esse o relacionamento mais duradouro que o cantor cultivou. Seus caminhos se cruzaram para sempre e influenciaram a carreira de tantos outros artistas. O primeiro nome do Joy Division foi Warsaw em homenagem à faixa de Low que tem quase o mesmo nome. U2 e Brian Eno seguiram para o Hansa Studio na época em que o muro estava sendo derrubado no começo dos anos 90, quando a banda precisava de um novo caminho e acabou por gravar o histórico disco Achtung Baby. Bowie parecia ter deixado uma reserva de energia criativa por lá.

“A Alemanha não tem um pop star alemão, então, os fãs adotam as pessoas que moram aqui com um orgulho danado”, declarou em entrevista a jornalista Nina Lemos. “O Bowie é um berlinense sem dúvida. Quando ele morreu, foi capa de todos os jornais, que anunciavam que o berlinense mais famoso havia morrido. O Bowie está aqui o tempo todo, principalmente em Schönenberg e em Kreuzberg, onde ele saia, o bairro da balada. Na obra dele, claro, tem uma coisa especial de Berlim ali que só ele captou”.

Na Hauptstraße 155, Schönenberg, agora uma placa marca o lugar onde Bowie viveu. As mesmas paredes amarelas, mas não o mesmo mundo. Ele mudou e grande parte dessas mudanças de algum modo tiveram a contribuição dos sons que surgiram naquele lugar. O mundo nunca mais foi o mesmo, e nunca mais será sem a genialidade do antigo morador que encontrou a si mesmo e se reuniu na cidade dividida.

A placa na porta do prédio onde Bowie viveu em Berlim: foto tirada por essa que vos escreve, em um dos momentos mais emocionantes que vivi nos últimos tempos.

A placa na porta do prédio onde Bowie viveu em Berlim: foto tirada por essa que vos escreve, em um dos momentos mais emocionantes que vivi nos últimos tempos.

Continue a viagem sabendo como conhecer uma parte da Berlim que Bowie conheceu no blog Let’s Bowie.