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Uma viagem no tempo pelos bares do Bom Fim, em Porto Alegre, nos anos 80

O Bom Fim teve muitos bares que marcaram a noite porto-alegrense e a própria história do bairro, sempre muito atrelada à vida noturna alternativa na capital mais ao sul do Brasil. Na década de 70, na “esquina maldita”, havia o Copa 70, o Marius, o Estudantil e o Alaska, todos bares frequentados por estudantes e militantes políticos que organizavam suas utopias regadas a poesia e álcool em plenos anos de chumbo da ditadura militar. Na década de 80, a tradição do bairro se manteve, mas deslocou-se para o “baixo Bom Fim”, que ficava entre a Rua Felipe Camarão e a Rua General João Teles. Foi uma época onde o bairro fortaleceu a sua vocação para a diversidade, acolhendo punks, hippies, darks, headbangers, skaters e new waves em diferentes casas que até hoje habitam a memória afetiva da cidade.

Lola

Ficava na Avenida Osvaldo Aranha pertinho da esquina com a João Teles. À tarde, era uma lancheria. À noite, virava um agitado bar. Seus maiores frequentadores eram os punks e um dado histórico talvez ajude a explicar isso: o Lola era o lugar com a cerveja mais barata entre todos os bares do Bom Fim àquela época.

Bom Fim: Lancheria Lola nos anos 80

Lancheria Lola nos anos 80: quase todos os bares da região foram fundados para serem espaços de alimentação, mas com o tempo converteram-se em casas noturnas, afetados pela atmosfera do bairro.

Bar Ocidente

Um dos poucos sobreviventes da década de 80. O Ocidente, na época, tinha como principal diferencial uma programação que ofertava “noites diferentes” ao seu público, a depender do dia da semana, indo de peças de teatro a shows de bandas ao vivo. No início, o Ocidente era para poucos: a entrada não era permitida a qualquer pessoa, e muitos que queriam aproveitar o local sem possuírem credenciais para isso optavam por pular a janela – o que também dá uma ideia da popularidade que o bar alcançou no auge da noite do Bom Fim. O bar existe até hoje e virou patrimônio da cidade, sendo frequentado pelos mais variados grupos.

Bocaccio

O bar Bocaccio iniciou as suas atividades em 1985 e ficava embaixo do bar Ocidente. Chamava muito a atenção, pois ficava passando vídeos em VHS do The Cure, dos Stones entre outros em uma época em que a própria linguagem do videoclipe ainda não era muito difundida no país (a MTV Brasil, por exemplo, foi ser fundada apenas quatro anos depois). A maioria dos frequentadores eram “darks” e “new wavers” que conviviam em harmonia em um espaço pequeno, simples e de decoração caprichada.

Bom Fim: Prédio que abrigou o Ocidente e o Bocaccio nos anos 80, em Porto Alegre

Prédio que abrigou o Ocidente e o Bocaccio nos anos 80, em Porto Alegre: hoje, um dos prédios mais emblemáticos da cultura porto-alegrense, ainda em atividade.

Bar João

O bar do João virou um clássico no Bom Fim. Era um extenso bar com várias prateleiras recheadas de cachaças (sim, era um BAR de fato e as pessoas iam lá quase que exclusivamente para beber mesmo). Serviam de plano de fundo para as bebidas algumas mesas de sinuca profissional. De dia, era frequentado por velhinhos judeus que ali se reuniam para conversar sobre o bairro e o mundo, tomando o seu cafezinho matinal. À noite, era ponto de encontro do pessoal do metal. Viveu o seu auge de popularidade na segunda metade da década e chegou a ser citado na letra de “Deu Pra ti” (Kleiton e Kledir), mas encerrou as suas atividades no início dos anos 90.

Bom Fim: Bar João nos anos 80

Bar João nos anos 80: o eclético estoque de cachaças e aperitivos até hoje é assunto entre os habitantes da capital gaúcha.

Lancheria do Parque

A famosa e resistente Lancheria do Parque continua aberta e é sucesso até hoje. Antigamente, era frequentada por políticos e intelectuais que ali debatiam e bebiam muita cerveja. De dia, a população do Bom Fim passava ali para comer um lanche, tomar uma batida, um suco bem gelado e natural ou almoçar. A “Lanchéra”, como também é chamada, foi interditada em 2016 pela Vigilância em Saúde após uma denúncia anônima, mas, para alegria dos frequentadores, retomou as suas atividades alguns dias depois.

Bom Fim: Lancheria do Parque, aberta desde os anos 80

Lancheria do Parque, aberta desde os anos 80: no bairro mais musical de Porto Alegre, o local curiosamente se manteve vivo sem bandas ou música ao fundo – quem frequenta o local no máximo aprende a apreciar o barulho dos liquidificadores.

Fedor

O Fedor foi um dos pioneiros da noite do Bom Fim e é citado por nove entre cada dez boêmios da velha guarda. Como o próprio nome sugere, era um lugar sujo e fedorento que curiosamente oferecia comes e bebes bastante apreciados. Era o ponto de passagem de pessoas que se reuniam ali para rumarem a outros lugares logo em seguida. Seu fim foi trágico: acabou pegando fogo e tendo toda a sua mobília danificada de forma irreparável. Os motivos do incêndio até hoje são um mistério, mas muitos dizem que tudo começou com a explosão de uma uma empada. O mesmo incêndio pôs fim também ao Bar Serafim, que era logo ao lado e foi tomado pelas mesmas chamas.

Luar Luar

Ficava no mercado do Bom Fim. Era um bar bem grande que enchia mais aos domingos. Servia de ponto de passagem aos frequentadores da Redenção (tradicional parque da cidade) e seus frequentadores vinham de todos os bairros de POA atraídos pelo ambiente aberto e pela cerveja barata.

Escaler

O Escaler, outro bar que ficou famoso na época, era pequeno, mas tinha um palco onde rolavam muitos shows das bandas que despontavam regionalmente na década de 80. Era vizinho do Luar Luar e reunia um público mais alternativo, menos família. Ali, os frequentadores tinham liberdade para fumar o que bem entendessem e escutar um som sem serem incomodados.

Bom Fim: Escaler, como de costume, lotado nos anos 80

Escaler, como de costume, lotado nos anos 80: não era raro uma banda tocar ali para dezenas de pessoas e explodir nacionalmente semanas depois.

São estes os bares que marcaram o Bom Fim da década de 80. Cada um com a sua história; cada um com a sua importância. E foram neles que a identidade do bairro foi sendo livremente forjada ao longo do tempo, juntamente com a importante presença judaica e africana que antecedeu toda essa movimentação noturna. Hoje em dia, o Bom Fim mudou, deu espaço a outros tipos de presença, mas continua com esta característica de ser um bairro reduto de novas ideias e fonte de inspiração para coisas novas que precisam acontecer.

Este texto é baseado em textos e memórias porto-alegrenses espalhadas pela web em links como este, este e principalmente este. Os conteúdos foram parcialmente reescritos pela nossa editoria de remix, complementados onde faltava informação, cortados onde não faziam sentido e o resultado final não necessariamente é do agrado dos autores originais.