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Como canta um black: uma coletânea dos nomes perdidos da black music brasileira

Das primeiras sonoridades estilo Motown embutidas em Wilson Simonal até a atual inserção da black music no pop, o enredo do funk e do soul no Brasil percorreu um extenso e irregular caminho. Desde as pioneiras gravações do final dos anos 60 até a propagação do hip hop nas periferia urbanas, a cultura negra sempre tentou se firmar no país como um movimento de identidade própria. O ápice dessa tentativa se deu nos anos 70, quando a cultura de morro, o samba, identificou-se e integrou-se espontaneamente com ritmos afro-americanos e movimentos de afirmação negra como o black power, dando origem à black music brasileira.

Black Rio e a black music brasileira

A Black Rio, que levava o nome do movimento: o grupo ficou para a posteridade, mas muita gente que ficou pelos anos 70 também foi fundamental para pavimentação da música negra no Brasil (Arquivo RCA Victor, 1978).

Na época, houve um movimento que foi chamado, informalmente, de Black Rio, representado por artistas como Cassiano, Gerson King Combo, Tim Maia e por muitas (mas muitas mesmo) equipes especializadas em bailes de soul e de funk. A coisa cresceu tanto que começou a chamar a atenção da mídia, a ponto de as gravadoras quererem lançar no mercado brasileiro, pela primeira vez, um produto inteiramente negro que não fosse o samba ou alguma de suas variações.

Essa geração, ou pelo menos boa parte dela, durou até o começo dos anos 80, quando, por alguma razão, o movimento black se dissipou no Brasil. Para o cantor Carlos Dafé, faltou liderança: “Se Tim Maia, líder natural, tivesse agrupado mais pessoas, a turma não teria se separado”. Tim Maia organizando um movimento? Melhor passar logo para os artistas que ajudaram a escrever essa suingante história.

União Black: o gueto é aqui

Legítima representante do gueto no movimento Black Rio, a União Black era formada por diversos músicos (ao todo eram dez!) que colecionavam participações em trabalhos de artistas consagrados da época. Juntos, os moços lançaram um disco homônimo em 1977 e se destacaram em shows bastante comentados na cena carioca dos anos 70. A excelência da banda era tão grande que artistas de maior poderio financeiro começaram a abduzir os integrantes para as suas bandas de apoio, até que o grupo acabou por W.O. em 1978.

Tony & Frankye: a loucura faz parte do soul

Dupla de paulistas mergulhada na febre black carioca, Tony Bizarro e Frankye impressionaram Roberto Carlos com um compacto independente lançado em 1968. Foram parar na gravadora do Rei, onde gravaram o disco Tony & Frankye, em 1971. Sucesso comercial em todo o país, foram convidados para apresentar um programa na Globo, mas pediram um cachê tão alto que a emissora desistiu da contratação. Para completar o combo de loucura, Frankye tomou alguns ácidos a mais e decidiu abandonar a dupla no auge do sucesso para viajar pelo país. Se deu conta da burrada só anos depois, quando o frenesi em torno da sua música já não tinha a mesma força. Tony, o mais centrado da dupla, seguiu compondo e lançando discos. Sem os holofotes do disco de estreia, transformou-se em ícone cult da cultura negra na América do Sul.

Don Beto: sotaque no horário nobre

Muitos artistas da black music brasileira foram elevados ao estrelato por figurarem em trilhas sonoras de novelas. Um dos casos mais notáveis foi o do uruguaio Don Beto, com sua “Pensando Nela” incluída na trilha sonora de Dona Xepa. O sotaque carregado ajudou a canção a fazer sucesso também em países como México e Argentina. Beto ainda emplacou músicas em outras novelas nos anos seguintes, foi regravado pelas Frenéticas e pelo Peninha, tocou com Raul Seixas e só parou de bombar quando a onda soul esfriou e a sua popularidade não aguentou sem a retaguarda do movimento.

Mita: o mais brasileiro dos blacks

O cantor paulista se orgulha de ter sido o primeiro intérprete de “Mais Que Nada”, de Jorge Ben. Figura sempre presente na cena black do Rio, escreveu mais 400 canções e lançou um disco homônimo em 1977. Para muitos, este trabalho foi a mistura mais bem sucedida de soul e música brasileira. Uma rivalidade com o popular Tim Maia teria atrapalhado o sucesso de Mita, que ficou restrito a este disco e a algumas canções avulsas que surgiram depois, sempre com um balanço diferenciado, mas sem a aura de vanguarda do seu trabalho mais célebre.

Trio Ternura: sucesso via BR-3

Os grupos vocais que sempre fizeram parte da cultura soul nos EUA não tiveram a mesma ocorrência no Brasil. Aqui, quase todos os grandes nomes da música negra eram artistas solo ou grandes bandas cheias de grandes músicos. A exceção foi o Trio Ternura, que tinha nos agudos de Jussara, Jurema e Robson as suas credenciais para participar da festa. Sempre abusando de harmonias que beiravam a perfeição, o trio emplacou os hits “Sempre Primavera”, “Nenhum Talvez” e “Groovin”, mas marcou mesmo por ter vencido o Festival Internacional da Canção em 1970 ao lado de Tony Tornado com a sempre presente “BR-3”.

Almir Ricardi: da telinha para o vinil

Parceiro de Tim Maia antes mesmo do síndico gravar o seu primeiro disco, Almir fracassou gravando em diversos estilos antes de decidir virar apresentador de TV nos anos 70. À frente de programas nas redes Record e Gazeta, conviveu profundamente com alguns dos artistas mais consagrados daquela década e aprendeu tudo certinho. Tanto que, no início dos anos 80, voltou a cantar e conquistou a glória: “Pura” e “Festa Funk” estouraram com a sua voz em todo o Brasil. Os hits de Almir são, para muitos, os derradeiros da época de ouro da black music brasileira. Depois disso, tudo virou história.

A coletânea Como Canta Um Black é uma iniciativa do New Yeah inspirada no trabalho de pesquisa do jornalista Sérgio Barbo (que, inclusive, assina o texto introdutório desta matéria). O disco completo que garimpa nomes perdidos do soul nacional – e que ainda conta com artistas como Som Colorido, Tony Bizarro solo e Cassiano – está disponível para audições no SoundCloud.