....................... ....................... ....................... ....................... ....................... ....................... ....................... ....................... ....................... ....................... .......................

Browse By

Belchior: nele, a indústria cultural mostrou suas armas ao dar mais visibilidade ao seu bigode do que ao conteúdo de suas canções.

Belchior: gênio e subestimado, como foi comum em seu tempo

A imagem de Belchior vendida pela indústria cultural sempre foi a do artista brega, de voz fanha e bigodão – uma figura! A forma simples de suas canções possibilitou a sua assimilação pela indústria fonográfica, que criou-lhe uma imagem caricata e reproduziu suas músicas à exaustão, entre shows, premiações e programas de auditório, fazendo tábula rasa de seu conteúdo crítico. Belchior foi reduzido a um mero cantor romântico. Curiosamente, foi a aceitação nascida dessa superficialidade que deu ao cantor a possibilidade de falar coisas que nada tinham de superficiais e de penetrar nas ideias de muitas pessoas.

Belchior: nele, a indústria cultural mostrou suas armas ao dar mais visibilidade ao seu bigode do que ao conteúdo de suas canções.

Belchior: nele, a indústria cultural mostrou as suas armas ao dar mais visibilidade ao seu bigode do que ao conteúdo de suas canções.

Em estética, o artista engajado politicamente deve escolher entre dois caminhos: o da forma artística de difícil assimilação – e remuneração! – para o público e para a indústria cultural; ou o da forma mais simples, de fácil assimilação do público e do trânsito livre pelo show business. Ambas as opções estão fadadas ao silêncio político: uma não apela e a outra tem seu apelo anulado pela caricaturização. No fim, a indústria cultural impede que qualquer artista seja levado muito a sério, por seu ostracismo ou por sua redução a uma imagem vendável minimizadora. A especificidade de Belchior é a sua consciência total perante esse processo todo.

Aluguei minha canção pra pagar meu aluguel
E uma dona que me disse que o dinheiro é um deus cruel […]
Hoje eu não toco por música, hoje eu toco por dinheiro
Na emoção democrática de quem canta no chuveiro
Faço arte pela arte, sem cansar minha beleza
Assim, quando eu vejo porcos, lanço logo as minhas pérolas
(“Tocando por Música”, Melodrama, 1987).

Em vários momentos de sua obra, Belchior demonstrou uma compreensão total do processo de nivelamento raso da cultura por parte da indústria cultural, que dificulta a visibilidade de composições com alto grau de complexidade. Os próprios arranjos dos discos de Belchior são bem simples, com o teclado tendendo ao “engraçado” (na época de seus discos clássicos, as gravadoras ainda influenciavam muito o processo de arranjo das faixas). Não é da mesma maneira em relação às letras, sempre de profundidade abissal e crítica ácida.

Belchior, antes de músico no sentido geral, foi um intelectual da canção. Cada autor encontra uma forma para se expressar: o ensaio filosófico, a pintura não-figurativa, a ópera etc. A canção foi a forma encontrada por Belchior para expressar seus pensamentos e ideias. É preciso ter em mente, ao pensarmos em sua obra, um autor de vasta erudição, de poesia refinadíssima, conhecedor das línguas latinas e da literatura clássica, e um artista engajado politicamente de maneira radicalíssima. Em formato de canção, Belchior oferece uma visão do Brasil e do mundo que pouquíssimos filósofos nascidos em nossas terras puderam vislumbrar. Como diz Nietzsche, o homem verdadeiramente de seu tempo sempre está à frente de seu tempo. É o caso de Belchior.

Uma das críticas mais ferrenhas feitas ao cantor cearense é a de que ele aderiu a diversas modas dos anos 60 e 70 na composição de sua obra inicial. Entre essas modas às quais aderiu, estava a tendência dos cantores populares em expressar dor e tristeza nas suas letras enquanto embalavam tudo isso com arranjos alegres. Raul Seixas, em 1976, chegou a criticar essa moda no blues “Eu Também Vou Reclamar”, onde disparava diversas críticas ao clima pessimista e autopiedoso das letras que dominavam as paradas de sucesso. Na mesma letra, Raulzito comentava (aos 2:55) que era “um rapaz latino-americano” que também sabia se lamentar se quisesse fazê-lo. Esse trecho era claramente direcionado a Belchior, que havia feito sucesso com “Apenas Um Rapaz Latino Americano” pouco antes da canção de Raul ser publicada.

A resposta a Raul estava no disco Alucinação, com a canção “A Palo Seco”, que Belchior já havia gravado em 1973, mas que fez questão de recolocar no disco de 1976 com a letra levemente atualizada pela validade do discurso que trazia, aparentemente direcionado ao Maluco Beleza e a tudo o que ele representava:

Se você vier me perguntar por onde andei no tempo em que você sonhava,
De olhos abertos, lhe direi: amigo, eu me desesperava
Sei que assim falando pensas que esse desespero é moda em 76
Mas ando mesmo descontente
Desesperadamente, eu grito em português

Tenho vinte e cinco anos de sonho, de sangue e de América do Sul
Por força deste destino, um tango argentino me vai bem melhor que um blues
E sei que assim falando pensas que esse desespero é moda em 76
E eu quero é que esse canto torto, feito faca, corte a carne de vocês
(“A Palo Seco”, Alucinação, 1976)

A realidade de retirante e o fato de ter compartilhado as ruas com diversas pessoas que realmente não tinham motivos para sorrir davam a Belchior uma propriedade única para reclamar do que quisesse independente da moda que vigorasse. A Bahia alegríssima de Caetano Veloso dos anos 70, por exemplo, não passava batida diante do olhar crítico do compositor cearense: “Veloso, o sol não é tão brilhante pra que vem do norte e vai viver na rua” (“Fotografia 3×4”, Alucinação, 1976).

Caetano, já assimilado pelo sistema que o exilara no final dos anos 60, era um dos alvos primordiais de Belchior no disco Alucinação. Referências ao compositor de “Divino Maravilhoso” (1968) apareciam também na criticada “Apenas Um Rapaz Latino Americano” no trecho “mas trago de cabeça uma canção do rádio em que um antigo compositor baiano me dizia: tudo é divino, tudo é maravilhoso / […] mas sei que nada é divino, nada é maravilhoso, nada é sagrado, nada é misterioso, não”.

Chamado de “antigo”, pois já havia deixado de ser vanguarda há tempos, Caetano havia servido de referência para Belchior em seu início de carreira. Em entrevista ao Pasquim em 1982, Belchior chegou a dizer que Caetano Veloso foi o melhor letrista da MPB e “o autor da modernidade musical no Brasil”. No entanto, em “Como Nossos Pais” (1976), Belchior comentava com tristeza: “quem me deu a ideia de uma nova consciência e juventude está em casa, guardado por Deus, contando seus metais”.

O materialismo expresso nas intervenções diretas contra Raul e Caetano foi um dos fundamentos maiores de Belchior. Seus grandes inimigos eram os escapistas, aqueles que diante dos problemas verdadeiros se escondiam na crença metafísica. Esse posicionamento pacato era incorporado pelos hippies, com cabeças feitas por alucinógenos e aparente espiritualidade. A resposta do materialista Belchior é ácida:

Eu não estou interessado em nenhuma teoria
Em nenhuma fantasia, nem no algo mais
Nem em tinta pro meu rosto, oba oba ou melodia
Para acompanhar bocejos e sonhos matinais
Eu não estou interessado em nenhuma teoria
Nem nessas coisas do oriente, romances astrais
A minha alucinação é suportar o dia-a-dia
e meu delírio é a experiência com coisas reais:
O preto, o pobre, o estudante, uma mulher sozinha
(“Alucinação”, Alucinação, 1976).

Aos 29 anos em 1976, quando lançou o álbum Alucinação, Belchior teve o tempo, a maturidade e o olhar aguçado para ver a dissolução do sonho pacifista de liberdade expresso inclusive pelos tropicalistas. Os libertários de outrora logo se tornaram os burgueses de então. Suas canções já viam esse fato de frente, por isso a crítica tão feroz, mesmo tendo sido no passado fã de muitos de seus criticados.

Pendulando entre a crítica ao capital e à ingenuidade de grupos aparentemente libertários, Belchior fundamentou um radicalismo que enfrentava tanto o trabalho alienado quanto a ineficiência das utopias floreadas diante do capitalismo que solidificava: “tudo poderia ter mudado, sim / pelo trabalho que fizemos – tu e eu / mas o dinheiro é cruel / e um vento forte levou os amigos / para longe das conversas / dos cafés e dos abrigos / e nossa esperança de jovens / não aconteceu” (“Não Leve Flores”, Alucinação, 1976). Expunha, inclusive, a contradição que era exalar amor e flores sem combater o sistema que aprisionava o homem em postos de trabalho entristecedores: “E no escritório em que eu trabalho e fico rico, quanto mais eu multiplico, diminui o meu amor” (“Paralelas”, Coração Selvagem, 1977).

Para Belchior, as palavras sempre tiveram esse papel de instrumento de luta política, de despertar da consciência contra a opressão e seus mecanismos ideológicos. Por isso, em vez de cantar as “grandezas do Brasil”, ele denunciava o que acontecia às sombras dos holofotes. Seu lamento não era obra da moda. Sua agressividade não era uma busca por polêmica. Tudo para ele era algo inevitável, porque ele sentia que não podia cantar positividades sentindo como sentia a sua sociedade civil falida. “Não me peça que eu lhe faça uma canção como se deve: correta, branca, suave, muito limpa, muito leve. Sons, palavras, são navalhas e eu não posso cantar como convém, sem querer ferir ninguém. Mas não se preocupe, meu amigo, com os horrores que eu lhe digo. Isso é somente uma canção: a vida realmente é diferente. A vida é muito pior” (“Apenas Um Rapaz Latino Americano”, Alucinação, 1976).

Um mecanismo utilizado nas letras e nas melodias de Belchior foi o da aproximação junto ao ouvinte. Cearense, migrante que na cidade grande sofreu, tocou em casas noturnas, foi explorado para “fazer a vida”. Por meio de sua experiência de vida trash, ele realizou os approches para com quem o ouvia. Ritmo simples e letra aguda, essa foi a aposta do cancionista para a politização da massa. “A minha história é talvez igual a tua, jovem que desceu do norte, que no sul viveu na rua e que ficou desnorteado, como é comum no seu tempo. E que ficou desapontado, como é comum no seu tempo. E que ficou apaixonado e violento como você que me ouve agora” (“Fotografia 3X4”, Alucinação, 1976).

Ao dizer “eu sou como você”, Belchior almejava se abraçar ao outro, trazer à tona a revolta contra a opressão que abalava tanto o cantor quanto o ouvinte. Nisso, seu público–alvo, escolhido a dedo, não era o intelectual burguês letrado, mas sim o pobre que ia ao boteco depois da jornada de trabalho. Ele o reconhecia como indivíduo ativo a ser despertado: o sujeito revolucionário. Mas é claro que a indústria cultural fez de tudo para anular esse discurso que poderia ter muito impacto: em plena ditadura militar, o regime e seus tentáculos transformaram Belchior num personagem caricato, num astro romântico, o galã de “Todo Sujo de Batom” (Coração Selvagem, 1977). A simplificação, se sabe, é bem pior do que a censura.

Belchior sabia, desde muito tempo, que “eles” haviam vencido e que o sinal estava fechado para nós. Mesmo assim, não se recusou a lutar com a arma que tinha: além de todas as canções citadas até agora, ainda há muitas outras de conteúdo crítico ferrenho, como “Pequeno Perfil de Um Cidadão Comum” (Era Uma Vez Um Homem e Seu Tempo, 1979), uma epopeia sem o elemento épico, que fala de como é vã a vida do sujeito raso cuja finalidade é voltada unicamente ao trabalho.

No fim, em meio a tantas cenas sombrias, nos tempos dele e no nosso tempo de agora, ainda havia alguma esperança. A consciência servia como arma de luta e ao mesmo tempo não poderia ser levada como forma de encarar o viver em si. Para viver, era preciso ter reservas de felicidade que fossem mais fortes do que a dor dos arredores. “Primeiro, o meu viver”, comentou ele em “Amor de Perdição” (1988), depois, “este vil cantar de amigo”. Afinal, “qualquer canto é menor do que a vida de qualquer pessoa” (“Como Nossos Pais”, 1976).

Sua filosofia sempre foi oposta à de Caetano: se para o compositor baiano quem “mora na filosofia” está separado dos sentimentos humanos, a filosofia de Belchior provém da experiência; é pensamento vivo que só pode ser coletado na prática humana mais visceral, como aquela que ele arrecadou experimentando a aspereza das ruas. E ele comentou esse paralelo cutucando Caetano uma vez mais: “Deixando a profundidade de lado, eu quero é ficar colado à pele dela noite e dia fazendo tudo de novo. E dizendo sim à paixão, morando na filosofia”. (“Divina Comédia Humana”, Todos os Sentidos, 1978).

Marcado no cancioneiro latino-americano como uma de suas grandes vozes, Belchior foi um mestre da poesia. Foi assimilado pela indústria cultural, de fato, como Mercedes Sosa ou Che Guevara também o foram sem deixar de serem todos profundamente importantes. Belchior se jogou na contradição da música popular, assim como qualquer um se joga nas contradições da lógica do trabalho. Assimilado, mas não rendido. “Marginal bem sucedido e amante da anarquia” (“Lamento do Marginal Bem Sucedido”, Bahiuno, 1993). E sua obra, analisada do início ao fim, parece uma única ópera, tamanha foi a sua coerência com um ideal fixo e nada “ambulante”.

Não é por ter partido ou por ter sido reproduzido e veiculado pela indústria cultural que Belchior perdeu a sua virulência: ela se mantém viva em ouvintes atentos que, como nós, encontram nele uma manifestação de seu tempo, e mais: a esperança de um mundo melhor, inteiramente outro, partindo da consciência coletiva e da crítica que fere sempre, porque precisa ser assim.

Este texto é um mashup do artigo publicado por Alberto Sartorelli no blog Outras Palavras e da pesquisa realizada por Carlos Viegas (editor do New Yeah) no aniversário de 40 anos do disco Alucinação. Ambos os textos originais são de 2016.