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Baztian: o real emo vive no nordeste brasileiro

Os anos 90 revelaram grandes rumos para o rock e todas as suas vertentes, apresentando referências e características que ecoam até hoje. A importância das diferentes bandas e movimentos que surgiram durante essa época é evidenciada por vários lançamentos que divulgamos por aqui e que vemos correr atualmente em nossa timeline. E é buscando referências em gêneros daquela geração que a banda alagoana Baztian vem desde 2009 mostrando que existe muito mais do que lindas praias, sol e calor em Maceió. Wrong Side Of The Shore, lançado pelo grupo no final do ano passado, transita entre referências vindas de décadas passadas e histórias cotidianas de personagens comuns, apoiando isso tudo em uma paixão que está em cada acorde e numa vontade de devolver à música o seu importante papel de expressar a angústia humana.

A Baztian teve o seu primeiro lançamento no EP You Lovely Giant, de 2012, onde o trio formado por Caíque Guimarães, Rodolfo Limae e Alcyr Vergetti trazia um som denso, firmado sobre as melodias e carregado de ruídos, se comunicando facilmente com quem acompanhava nomes como Sonic Youth e Dinosaur Jr.

Quatro anos depois, a banda alagoana persiste no grunge/noise, mas se aproxima do real emo em letras e sonoridade.

Após aquele lançamento, o trio acabou entrando em hiato, retomando o trabalho anos depois. Cercada de amigos e com experiências novas para musicar, a banda gravou uma série de demos e guias do que viria a ser o seu primeiro disco, tudo de forma caseira, sem grandes estruturas ou assistência de terceiros. Depois, com tudo pré-gravado, o grupo uniu uma porção de pessoas ao seu redor e arrematou a história. Novas partes foram gravadas em estúdio e também dentro da sede do coletivo Popfuzz. Uma vez finalizado, Wrong Side of the Shore teve o seu lançamento através de quatro selos nordestinos (Gangue do Beijo, Solar Discos, Transtorninho Records e Nervura Distro), reunindo uma força tarefa que deixava clara a importância daquele disco para a música independente da região.

O trabalho em si tem 11 músicas carregadas de referências da cultura noventista, com sonoridades que transitam entre nomes como Smashing Pumpkins, Built to Spill e Mineral, jogando a cara do grupo um pouco para longe do grunge/noise que havia marcado o seu início, aproximando as faixas da estética real emo e post rock.

Na concepção das letras, as influências do real emo se mostram ainda mais evidentes. “Chi Cheng” (que tem o nome do falecido baixista dos Deftones) canta sobre as dúvidas e incertezas do cotidiano e “Social FX” reflete sobre a condição cansativa da vida adulta e suas responsabilidades.

Todos os temas e sons apresentados, de maneira geral, mostram um contraponto às paisagens ensolaradas e litorâneas da terra natal dos integrantes, mostrando uma inadequação que poucos imaginam, seduzidos pela propaganda turística, que um indivíduo possa sentir vivendo em um lugar considerado por muitos um paraíso.

Em algumas falas dos integrantes, há espaços para comentários que retratam impasses e cansaços bem práticos, como dificuldade em se manter criando e lançando sons, mantendo trabalhos paralelos e vendo as mesmas dificuldades em todos os artistas que escolheram trilhar o caminho da produção independente no Brasil. Há nas palavras um sentimento bem específico de uma classe artística que cresce em meio ao asfalto, e há no esforço retratado um pouco do que todas as pessoas que amam e lutam por algo sentem em meio ao concreto que a vida oferece na maioria dos dias. “A dor é universal porque é uma expressão de humanidade”, já diria o sociólogo José Américo, e é sempre bom ver vestígios de humanidade em meio à robotização das relações.

O trabalho recém lançado mostra, portanto, um grupo capaz de conversar com quem foi um dia jovem e agora é um adulto rodeado por preocupações de uma vida não tão cheia de alegrias constantes como era no passado, mas que ainda consegue ser feliz quando encontra a válvula de escape correta. Essa tempestade de emoções e percepções tem como plano de fundo as melodias densas e sujas de guitarra, baixo e bateria, dando vida a um som que se inclui no melancólico, no melódico, no enérgico e no acelerado com a mesma naturalidade.

Com uma carreira desde 2009 e com dois ótimos títulos lançados, a banda tem todas as características necessárias para ser uma das grandes apostas do emo nacional para os próximos anos, com direito à presença nas playlists de quem se via órfão de um som feito por aqui que soasse próximo de Get Up Kids e Mineral sem que fosse uma mera cópia. Neste caso, a boa porção de autenticidade do grupo conta pontos, porque os anos 90 vivem, mas a vida está em movimento (José Américo concordaria com isso) e apenas repetir o passado não é mais solução que se aceite em pleno século XXI.