....................... ....................... ....................... ....................... ....................... ....................... ....................... ....................... ....................... ....................... .......................

Browse By

bandacamp-fi

Bandcamp: propósitos e bons números em meio à selva da música digital

Ao longo do ano passado, muito se discutiu a respeito das novas formas de compartilhamento e comercialização da música em tempos de internet. Falou-se principalmente na queda das vendas físicas, na morte do álbum (sendo substituído pelos singles) e na tendência de crescimento do streaming. Várias pautas, muitas suposições, várias expectativas e ainda poucos resultados para artistas, selos e plataformas envolvidas com a história. Em meio à instabilidade do setor, o Bandcamp surpreendeu ao fechar o ano em alta, apresentando crescimento em todas as suas métricas se comparadas às do ano anterior. Com um modelo de negócio diferente e uma postura mais arrojada e voltada à valorização da arte, o serviço californiano marca o seu lugar em uma briga que tem gerado bem mais baleados do que atiradores de sucesso.

Segundo o relatório publicado no blog Bandcamp Daily em 24 de janeiro, a plataforma do Bandcamp experimentou ao longo de 2016 um aumento de 20% nas vendas de álbuns digitais, de 23% nas vendas de músicas avulsas e de 34% nas vendas físicas que as bandas disponibilizaram em seus respectivos perfis. Somando todas estas receitas, os fãs pagaram aos artistas quase  US$ 200 milhões. Tudo isso em um cenário onde a indústria fonográfica, mesmo tendo investido bastante em novas técnicas de mercado, cresceu apenas 3% no ano, de acordo com o relatório Music Year-End Report da Nielsen. Outros dados são interessantes na comparação entre o Bandcamp e a indústria como um todo. Veja:

Como comentou o próprio Bandcamp no seu relatório final do ano passado, o declínio de todas as formas de comercialização da música é um reflexo da expansão do streaming, que atingiu 100 milhões de usuários ainda sem ter se mostrado rentável a artistas, selos e alguns perfis específicos de fãs. Isso principalmente porque, à medida que os serviços de streaming crescem, a tendência tem sido que os serviços diminuam a valor pago ao artista por cada play do fã, segundo mostra o levantamento do site The Trichordist,  que comparou números de 2014 e 2016 em diferentes plataformas de streaming disponíveis globalmente. O Digital Music News comentou esse mesmo fenômeno de queda nos valores de repasse, inocentando as plataformas e dando algumas pistas do que pode estar ocorrendo.

Enquanto os artistas que se autogerem enfrentam este problema dos repasses na utilização das plataformas, as grandes gravadoras finalmente estancam a crise e passam a iniciar a sua parábola de crescimento com o auxílio de marcas como o Spotify e o Deezer. A ironia é que os próprios serviços têm a sua existência ameaçada por este crescimento de lucro das gravadoras, uma vez que os contratos fazem com que a receita dos serviços digitais seja vigorosamente sugada pelas majors. O Spotify, por exemplo, repassou bem mais da metade de sua receita para gravadoras e editoras de grande porte, segundo dados do portal Bloomberg.

Qual é a revolução possível pelo streaming?

A expectativa até bem pouco tempo atrás era a de que a música repetiria o que fez o Netflix em termos de popularização e de lucro, assim os serviços de música online se tornariam sustentáveis e a engrenagem giraria sem maiores problemas. Mas a verdade é que o mercado da música não é igual ao do audiovisual, então a dinâmica do Netflix não pode ser simplesmente transportada ao Spotify. Quer um exemplo? O Netflix tem economizado muito investindo em produções próprias, assustando a indústria tradicional, enquanto os streamings de música nasceram atados à indústria e cocriando em parceria com ela, o que limita muito as possibilidades atuação dos players, por mais que o próprio Spotify tenha se dedicado a pensar timidamente em algumas saídas para isso.

Essa última parte da análise foi soprada pelo Mídia Research,  que ainda cravou: com o streaming de música não sendo autossuficiente em arrecadação, a tendência é que as marcas dedicadas exclusivamente a isso desapareçam aos poucos, abrindo espaço para a Apple, por exemplo, que mantém o Apple Music ativo para atrair alguns usuários e se rentabiliza através de outros serviços da companhia, como a venda de hardware.

Neste cenário, o Bandcamp aparece como uma alternativa ao modelo de streaming hegemônico, crescendo a partir da venda online de fonogramas, baseando-se em uma estrutura enxuta e focando no que a própria empresa chama de “compensated fairly“: “Uma vez que só ganhamos dinheiro quando os artistas ganham muito mais dinheiro, nossos interesses permanecem alinhados com os da comunidade que servimos”. Um claro contraponto aos serviços que, por falta de opção por enquanto, ainda atuam em parceria com as mesmas grandes gravadoras que dominaram e instrumentalizaram o mercado da música em décadas passadas.

Imagem que ilustra publicação no site do Bandcamp em 31 de janeiro: em oposição à política anti-imigrantes de Trump, o serviço doou 100% da sua arrecadação naquele dia à oposicionista American Civil Liberties Union.

Imagem que ilustra publicação no site do Bandcamp em 31 de janeiro: em oposição à política anti-imigrante de Trump, o serviço doou 100% da sua arrecadação naquele dia à American Civil Liberties Union, que faz oposição aos avanços conservadores nos Estados Unidos.

Atualmente, o Bandcamp recompensa os artistas e selos através da venda direta de arquivos e de material físico, subtraindo uma taxa (que chega no máximo a 20%) das transações feitas pelo consumidor final. Tem sido o suficiente para agradar os artistas e tem sido o bastante para que o serviço californiano emplaque o seu quarto ano de crescimento, aumentando a sua estrutura de RH em 43% em relação a 2015.

No discurso, o Bandcamp monta o seu posicionamento se portando como um player que atua em defesa da cultura, e não do mercado. Se internamente o papo é esse, nunca saberemos, mas a marca se atém a isso agora e faz de tal postura a sua arma para guerrear com outras marcas que possuem maior poderio de investimento e maior poder de articulação. Quando não há renda, há mesmo que se sobrar storytelling, e o caminho escolhido pela marca está claro quando ela se orgulha de ser um intermediador da relação dos fãs com os artistas, remunerando os criadores artísticos de uma forma transparente e fácil de explicar/entender.

Enquanto a indústria tradicional absorve aos poucos os serviços digitais e o mercado da música na web periga concentrar-se na mão de duas ou três multinacionais com poder de giro, o Bandcamp marca oposição e permanece firme crescendo modestamente e dando pistas de um modelo de negócios que pode prosperar na selva montada em torno da música no século XXI.