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A Bad Donato: metade gringo, metade brasileiro

Em 2016, João Donato, acreano, filho do norte e artista influente da música brasileira, lançou Donato Elétrico, um dos discos mais interessantes do ano que passou. Ao lado de Guilherme Kastrup e de integrantes do Bixiga 70, produziu de forma independente o que há de mais contemporâneo, com instrumentos analógicos e influências diversas, sem apelar para tendências de mercado. Som finíssimo que muitas bandas atuais sonham em fazer um dia. No disco mais recente, houve uma retomada das propostas sonoras de discos que são considerados clássicos da carreira do artista: A Bad Donato (1970), Donato/Deodato (1973) e Quem é Quem (também de 1973).

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Falar sobre o quão talentoso é o experiente Donato (82 anos de idade) é dispensável. Também já se tornou clichê dizer que foi amigo dos grandes músicos da geração Bossa Nova, como Tom Jobim, Vinícius de Moraes e João Gilberto. No entanto, ninguém tem muita coragem de admitir que João Donato é um dos mais proeminentes músicos da sua geração, sendo um dos mais influentes no meio artístico e o mais transgressor dos limites em termos sonoros e de proposta de composição – tudo verdade que afirmo sem temer; basta ouvir os discos.

Trazer à luz A Bad Donato (1970) é como fazer um serviço obrigatório de compartilhamento de um achado (nunca perdido) histórico, pois se trata de um disco experimental com dupla identidade, isto é, pertencente à música nacional em transformação e à música internacional que também passava por transformações profundas. O disco catapultou a carreira do músico no exterior, transformando-o em um dos principais representante nacionais na gringa. O álbum foi gravado em Los Angeles e lançado no exterior, pelo selo californiano Blue Thumb.

Donato sempre foi antenado com os acontecimentos. Percebendo os rumos da música naquele momento, pensou que para fazer uma obra de tamanha potência e explosão sonora precisava da ajuda de pessoas que pudessem executar o que até então, para o próprio músico acreano, era incerto – anos depois, ele revelou que não sabia o que queria fazer ou gravar naquela época. Contou com o apoio de grandes músicos (assim como juntou figurões em Donato Elétrico) para a elaboração de um produto não padrão, único.

Podemos ouvir o saxofone e a flauta do lendário Bud Shank, a percussão e a bateria funk/groove do respeitado Dom Um Romão e os acordes certeiros de Oscar Castro-Neves, um dos mais importantes músicos brasileiros – só para citar alguns nomes. Os arranjos ficaram a cargo do grande pianista, produtor musical e arranjador Eumir Deodato, que na época era um dos grandes nomes da música brasileira, reconhecido internacionalmente. Ele próprio se ofereceu para trabalhar com Donato ao ouvir algumas demos e captar a ideia do músico acreano. Há quem diga que foi quem insistiu para que Donato tirasse aquelas ideias da cabeça/papel e transformasse tudo numa obra.

O que ouvimos no disco é a condensação em vinte e sete minutos de funk, soul, percussões cubanas, psicodelia (influência californiana) e muito groove. Porém, por mais que várias influencias saltem aos ouvidos, é tarefa muito complicada tentar enquadrar seu Donato em estilos e rótulos, visto que em suas obras ele trabalhou com diversos estilos e sons, misturando várias vertentes, nunca se enquadrando nas tendências impostas pelo mercado da música – pareceu, pelo contrário, sempre fugir delas.

Dizem (os especialistas) que, por estar morando nos Estados Unidos, Donato pegou em cheio a onda revolucionária do mundo da música que estava acontecendo na década de sessenta. Muito provavelmente conheceu os sons de James Brown e das bandas pop psicodélicas emergentes antes de quase todo mundo. E teve a sorte de ter na bagagem muita música brasileira que o mundo todo ainda demoraria algum tempo para ouvir.