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As Bahias e a Cozinha Mineira no SESC Pinheiros em 05 de maio de 2018.

Grandes shows dos anos 10: As Bahias e a Cozinha Mineira

É interessante como a MPB consegue absorver diferenças das mais diversas. Somente um gênero com essa característica conseguiria criar um diálogo entre o vigor arrastão de Elis e o detalhismo instrumental de Hermeto Pascoal. Antes de falecer, Sabotage queria compor uma música para Bezerra da Silva cantar. E a MPB certamente promoveria esse encontro sem grandes constrangimentos. É justamente por sua característica de absorver os diferentes que a MPB acaba sendo um agente transformador. Nela, se ensaiaram muitos dos golpes que a intolerância e o radicalismo burro sofreram ao longo da história no Brasil.

As Bahias e a Cozinha Mineira no SESC Pinheiros em 05 de maio de 2018.

As Bahias e a Cozinha Mineira no SESC Pinheiros (SP) em 05 de maio de 2018. Foto por Luis Signorin.

Um dos maiores expoentes da MPB contemporânea, um septeto formado em São Paulo, As Bahias e a Cozinha Mineira são capazes de colocar fãs de axé e classic Gal Costa sob o mesmo teto. É exatamente assim, com um grande vocabulário musical, que o grupo remexe a cena nacional através de uma cozinha riquíssima, que transcende até mesmo o palco quando reverbera seu singelo romantismo abordando temas infelizmente ainda polêmicos, como a própria transgeneridade. Nos shows do grupo, várias faces marginalizadas assumem o centro de uma performance arrasadora. Nesses momentos, a performance ajuda a transformar o social.

Mais do que uma celebração capaz de ir do blues ao forró, o show d’As Bahias e a Cozinha Mineira consegue fazer com que esses dois modos ocupem o mesmo lugar no espaço. Ao invés de transição, há congregação, algo que até politicamente é mais contundente.

Dono de um dos shows mais completos e instrumentalmente irretocáveis do Brasil nos últimos anos, o grupo que conta com as vocalistas Raquel Virgínia e Assucena Assucena, o jazz bass Rob Ashtoffen, o baterista Vitor Coimbra, o guitarrista Rafael Acerbi, o tecladista Carlos Eduardo Samuel e o percussionista Danilo Moura não é especialista em shows curtos. Há muito o que congregar, então é necessário dar tempo ao tempo. Dos temas da estreia (o disco Mulher, de 2015) aos versos mais conhecidos do trabalho posterior (o disco Bixa, de 2017), passando pelos improvisos que passam a existir sobre o palco, o show se estende por mais de uma hora e meia com frequência.

Assistir a um show da banda é absorver um combo sobre poesia, groove e música nordestina. Trata-se também de receber um sopro sobre como a arte, na sua ação direta e indireta, pode nos oferecer reformulações sociais significativas. Só o som que o grupo faz já faria o show valer a pena. Só a mensagem que o show traz já faria esse show valer a pena também. Então o show consegue ser marcante porque traz estas duas coisas atadas tão bem que, diante de olhos e ouvidos, elas parecem ser uma coisa só.