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Antônio Adolfo 40 anos depois de lançar o "primeiro disco independente": xxxxxxx. FOTO: FABIO MOTTA

Antonio Adolfo: 40 anos depois, o pianista conta as histórias por trás do “primeiro disco independente do Brasil”

Antonio Adolfo já era um compositor e instrumentista famoso no Brasil dos anos 70 quando decidiu quebrar os pratos com o mainstream nacional. Já havia tocado com Elis Regina, arranjado trabalhos de Nara Leão e composto, ao lado do grupo Brazucas, canções como “Teletema” e “Ana Cristina”, que venderam bastante dentro do sistema das grandes gravadoras. Mas em 1977 ele queria gravar algo menos comercial, mais dentro das referências que ele havia colhido após uma temporada fora do país. As gravadoras não embarcaram na ideia e Antonio bancou tudo sozinho. Contratou os músicos, alugou o estúdio, gravou a fita, mixou, procurou uma fábrica de discos e bancou uma prensagem de 500 cópias com dinheiro do seu próprio bolso. Nascia ali uma lenda: o primeiro disco independente do Brasil.

Antônio Adolfo, Feito em Casa

Antonio Adolfo 40 anos depois de lançar o considerado primeiro disco independente brasileiro: “quis fazer algo sem a influência dos diretores de gravadora porque queria ser o único dono da minha música”. FOTO: FABIO MOTTA

“Lancei o disco que eu sentia que precisava lançar”, explicou o hoje setentão pianista no programa Passagem de Som, do Sesc. “Não queria compromisso com as paradas de sucesso ou com as gravadoras”. O artista lembra ainda que, mesmo tendo gastado muito dinheiro à época, o que se escuta no trabalho são canções “plácidas e calmas”, que refletem a paz de espírito que ele próprio sentia por pisar fora da corrida comercial que havia tomado conta do show business brasileiro.

Nos anos 70, gravar um disco era luxo para poucos. Embora algumas tentativas de produção independente já se organizassem pelas sombras, os custos com estúdio e prensagem praticamente inviabilizavam qualquer música que quisesse circular por fora das grandes gravadoras, que bancavam a festa e, lógico, escolhiam a playlist. No final dos anos 70, a prioridade das grandes companhias era manter no casting alguns medalhões que dessem credibilidade à sua marca e investir em artistas que garantissem grandes lucros nas prateleiras de vendas. Como não era um medalhão do nível de Elis Regina e nem queria produzir um trabalho best seller, Antonio vendeu um carro e um órgão eletromecânico de estimação para bancar as despesas. O talento do pianista e de seus músicos convidados garantiu a qualidade do som, e a cereja do bolo viria na embalagem da coisa: sem dinheiro para pagar um artista que desenhasse a capa, ele próprio criou um carimbo e carimbou manualmente todas as cópias, materializando em imagens despadronizadas o espírito do faça-você-mesmo.

Antônio Adolfo, Feito em Casa

Capa do disco “Feito em Casa”, lançado em 1977: carimbadas à mão pelo próprio Antonio Adolfo, as capas apresentavam diferenças entre uma e outra cópia que foram às prateleiras das lojas.

Todo esse esforço feito em nome das suas convicções transformou Antonio Adolfo em um herói, autor do “primeiro disco independente brasileiro”, embora ele mesmo goste de lembrar que outros artistas, como o próprio Tim Maia, já haviam se autoproduzido anteriormente. Tim, inclusive, deu a Adolfo algumas dicas para evitar que o amigo tivesse alguns dos problemas que ele teve ao lançar os dois volumes de Tim Maia Racional.

O protagonismo de Antonio, logo, não se deu pelo modo como ele gravou o seu disco, mas pela forma como distribuiu a obra. Em um primeiro momento, ele colocou os discos nas costas e foi presencialmente vender aos donos das lojas. Na época, a originalidade do processo fez com que o programa Fantástico da Rede Globo levasse ao ar uma longa matéria mostrando como o pianista, produtor, compositor e representante comercial tocava a sua rotina de trabalho.

ACIMA: faixa do disco “Feito em Casa” gravada com a participação da cantora Malu (aqui, já com a capa da reedição comemorativa de 2002). O flerte com o jazz e a letra pouco comercial das faixas impulsionaram Antonio Adolfo a lançar-se em uma aventura independente em plenos anos 70.

Em um segundo momento, Antonio Adolfo resolveu otimizar este processo de venda para conseguir chegar a mais consumidores: começou a aproveitar os próprios shows para vender os seus produtos, sendo pioneiro na montagem da “banquinha de merch” em solo brasileiro. “Na época, eu tinha uma perua Belina. Colocava o piano nela, os discos e os endereços onde ia me apresentar”, conta ele. “Entre uma música e outra do show, eu anunciava que a banca ali ao lado estava vendendo o disco”. O esforço garantiu, alguns anos após o lançamento, que o disco Feito em Casa alcançasse  a marca das 20 mil cópias. Em 2002, a gravadora independente Kuarup ainda prensou mais mil unidades de uma edição comemorativa, complementando o case de sucesso de um músico que ousou arriscar em uma época onde isso não era tão comum.

“Aquele era um momento histórico-musical propício para que novos modelos de criação e distribuição fossem criados. As gravadoras estavam praticamente fechadas para o pessoal mais criativo, só aceitavam o padrão comercial que emplacava nas novelas e gastavam mais dinheiro importando artistas de sucesso do que apostando em pessoas talentosas que pudessem surgir por aqui. E eu achava importante ter a minha liberdade, continuar gravando e sendo dono da minha música, tanto nos rumos estéticos quanto no copyright. Ali, na base da tentativa, criei um modelo financeiramente viável de me livrar da censura estética. Podia gravar o que quisesse, sem ter que dar satisfação a ninguém”. Antonio Adolfo, pianista e pioneiro na montagem da banca de merch nos shows.

40 anos depois, o método de criação e comercialização lançado por Antonio praticamente domina a cena independente no país. Mais do que isso: alguns dos seus métodos acabaram ensinando às gravadoras como agir em épocas de vendas mais escassas. Olhando para o cenário atual, o artista comemora o protagonismo do que ele chama de “artista autoprodutor” e lamenta que o termo “independente” tenha sido apropriado pelas grandes gravadoras, que adotaram inclusive a venda de discos nos locais dos shows para driblar a procura cada vez menos recorrente em lojas do setor. A tecnologia mudou e se tornou mais democratizada e o método de atuação das grandes gravadoras se modificou, mas o talento da música independente de apontar os rumos em épocas obscuras segue sempre intacto.

Este texto é uma junção de diversos conteúdos que abordam a carreira de Antonio Adolfo, reunindo principalmente publicações do blog Disco Furado e do jornal Diário de Pernambuco. Todo conteúdo foi adaptado pela Editoria de Remix do New Yeah e complementado com informações novas, de forma que os autores originais não necessariamente concordam conosco.