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Anderson Paak

Anderson Paak: tem um hip hop no seu jazz, e vice-versa

O jazz mudou muito nos últimos anos. Incorporando novas fórmulas através de nomes como Sampha, Eric Lau, Thundercat e Maurice Brown (a lista é infinita), o gênero tomou a forma que muitos passaram a chamar de neo soul, o futuro do groove. A classificação de estilos, no entanto, é relevante apenas ao censo do IBGE. No fundo, essas misturas todas não são outra coisa que não jazz revigorado, tal qual Miles Davis anteviu em seu disco derradeiro. Doo-Bop, seu lançado em 1992, de maneira póstuma, já mostrava como o jazz e o rap poderiam soar explosivos, bem ali, juntos na mesma mesa de bar.

Anderson Paak

Anderson Paak no Cine Joia: para os desavisados, rap; para os pragmáticos, neo soul; para os antenados, a última cara do jazz. Foto por Macrocefalia Musical.

É impossível falar desta nova cara do jazz – ou do neo soul, como queira – sem citar o nome do Anderson Paak. Produtor, rapper, baterista, vocalista e lavador de chaminé, o americano é uma clara representação da meiose entre um disco do Bobby Womack e aquelas grooverias que se escuta num Low Rider descendo a West Coast. Em sua primeira passagem pelo Brasil, o músico norte-americano, muito bem acompanhando pela banda The Free Nationals (completinha, com DJ e tudo), mostrou em que grau está a muda do movimento que cresceu a partir da sementinha do mal jogada por Miles Davis no início dos anos 90.

E foi com a adição de um DJ que o cidadão chegou no Cine Joia promovendo um descolado passeio por sua fase rap, com temas de Venice (2014), além de muito balanço com o “funky side of the moon” de Malibu (2016). Foi ao som da praticamente cretina levada de “Suede”, do irresistível baixo de “Come Down” e da melodia fácil da radiofônica “Heart Don’t Stand a Chance” que Paak tocou por mais de duas horas enquanto era aplaudido efusivamente por uma plateia que conhecia todas as músicas.

Entre improvisos homéricos ao lado de Ron Tnava Avant e seus sintetizadores no melhor estilo George Duke, do jazz bass de Kelsey Gonzales e da guitarra rasgada de Jose Rios, Paak brincou de fazer música. Recompensou com sobra o esforço de quem se deu ao trabalho de sair de casa e até fez os jornalistas esquecerem por um instante o trabalho que deu conseguir entrar no evento após a produtora responsável ter enrolado as credenciais por quase dois meses.

Anderson Paak

Anderson Paak, meio jazz/meio hip hop no palco do Cine Joia: a abertura do jazz arejou o gênero ao longo da última década e aumentou consideravelmente a sua capacidade de comunicação. Foto por Macrocefalia Musical.

O Cine Joia é responsável, já há algum tempo, pelos melhores shows de jazz que estão rolando em São Paulo. Com passagens recentes de nomes como Esperanza Spalding, Snarky Puppy e Jacob Collier, por exemplo, a casa que em breve ainda receberá o Incognito e o Thundercat está mostrando ao público local o que de mais interessante tem ocorrido com o jazz mundial na última década.  Quem não dança, definitivamente, segura a criança. O abraço entre o jazz e o hip hop deu ao jazz mais calor humano e o afastou do ostracismo que poderia significar ficar cerrado em ambientes à meia luz sendo tocado para meia dúzia de aficionados críticos.

Cada vez é menos absurda a frase do célebre pianista norte americano Robert Glasper: “o jazz é a mãe do hip hop”. Por mais que alguns puristas tenham discordado na época, a ordem dos fatos na prática lhe dá razão. Robert sabia do que estava falando e certamente estava pensando em caras como Anderson Paak quando deu a letra.