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afrofuturismo

Afrofuturismo: a revolução será crespa (o futuro e o espaço, também)

Janelle Monáe, Tássia Reis e Karol Conka. O que essas três mulheres têm em comum, além de estarem cada vez mais presentes na mídia? Todas, de sua maneira, têm algo de afrofuturista em suas composições. Mas o que é afrofuturismo, afinal? Pois bem: é uma tendência que surgiu nos anos 1960, em paralelo ao fortalecimento da cultura Beatnick – amante dos ritmos afroamericanos. O movimento se construiu, em essência, a partir da união entre elementos hi-tech e traços de ancestralidade africana, misturando black power com ficção científica, utilizando a arte para resgatar e projetar a história do povo negro.

Grace Jones, Afrofuturismo

Grace Jones, expoente do Afrofuturismo na música norte americana: a voz setentista do fenômeno pop com raízes mais profundas.

Após a Lei dos Direitos Civis, consagrada em 1964, os Estados Unidos começaram a falar em fortalecimento e valorização da cultura negra, criando ambiência para que diversos artistas antes colocados à sombra finalmente tivessem voz e relevância. Nesta época, surgiu o poeta, compositor de jazz e filósofo cósmico Sun Ra (pseudônimo utilizado por Herman Poole Blount, nascido em Birmingham, no Alabama), um dos pioneiros do que depois viria a ser chamado de afrofuturismo. Quando adotou o nome pelo qual é famoso, com “Sun” relacionado a “poder” e “Ra” em referência ao deus da mitologia egípcia que representa o Sol, o artista passou a acreditar que havia sido abduzido e que, na verdade, tinha nascido em Saturno. Ele dizia ser um anjo interplanetário, não um ser humano.

Frutos de uma experiência alucinógena ou não, suas declarações eram extremamente profundas e repletas de referências à espiritualidade. Sua visão de mundo escoou para a sua obra, que acostumou-se a evocar ideias sobre astros e o universo em geral. Sem perder a sua origem no jazz, Sun Ra manteve-se esteticamente ligado às raízes africanas, o que gerou uma obra transcendental que unia ficção científica e discurso de poder negro pela primeira vez na música moderna. Seu grande marco foi o disco Space Is The Place, de 1973, que conquistou público e crítica fazendo com que as suas ideias, no campo metafórico ao menos, fossem discutidas com mais profundidade.

A influência dessa obra na autoestima negra dos anos 70 é incalculável, tendo se refletido em manifestações tanto da música quanto da moda, das artes plásticas e da literatura. Sua estética ligada aos astros, seu desejo de projetar um futuro interplanetário onde os negros estariam no centro da arte e do poder, no entanto, permearia a música em especial.

Vamos então criar uma cronologia para não nos perdermos

Atualmente, muitos artistas, mesmo do mainstream, são considerados afrofuturistas, o que confere maior visibilidade ao movimento. Mas tudo começou com o próprio Sun Ra e a influência que ele exerceu sobre os artistas que vieram em seguida. Um desses artistas influenciados foi George Clinton, líder dos grupos Parliament e Funkadelic – que depois foram reunidos em um só grande coletivo musical – cuja atuação se deu na década de 70. Ambos, o Parliament e o Funkadelic, contavam com os mesmos integrantes e faziam funk, mas de um tipo diferente, que foi classificado por Clinton como P-Funk, ou Pure Funk, que seria feito por “afronautas transcendentais capazes de funktizar galáxias”. Com uma sonoridade que une o funk mais clássico americano a sintetizadores, teclados, trechos com narração robótica e elementos do pop e do R&B, os dois grupos trouxeram inovações para o cenário musical e foram responsáveis por levar adiante as ideias de de Sun Ra.

Vale ressaltar também a estética única dos grupos, tanto nas roupas usadas nas apresentações (muitos acessórios dourados e prateados, chapéus e óculos de sol em formatos diferentes e maquiagens e pinturas corporais características) quanto nas capas dos discos (com artes psicodélicas e montagens que incluíam personagens negros em cenários espaciais). Todos esses elementos contribuíram para deixar a marca dos grupos na história. Mothership Connection, disco de 1975 do Parliament, está na lista da revista Rolling Stones dos 500 melhores álbuns de todos os tempos e é considerado uma grande influência para o jazz, o rock e a dance music. Para George Clinton, a importância desse trabalho em específico está em seu conceito de “colocar negros em situações que ninguém imaginou que eles pudessem estar, como na Casa Branca ou no espaço”. E, aqui, entende-se a importância dos elementos espaciais e futuristas nas representações desta tendência: em um contexto de Guerra Fria onde a liderança na corrida espacial (uma disputa para ver quem mandava mais gente branca para o espaço) representava mais status para as nações do que o seu próprio PIB, implantar negros no espaço, ainda que simbolicamente, era, logo, colocar o negro em um espaço culturalmente branco e elitista.

No final dos anos 70, outro nome começou a se destacar no cenário musical norte-americano: Grace Jones. A jamaicana erradicada nos Estados Unidos juntou sua voz poderosa e sua estética andrógina a traços fortíssimos de afrofuturismo e lançou três discos de grande sucesso popular. Musa de Andy Warhol, Jones protagonizou diversos clipes que pareciam saídos de filmes de ficção científica. Sua sonoridade, ainda que definitivamente mais pop do que as de seus antecessores afrofuturistas, traz elementos interessantes, como a presença de instrumentos de percussão, sintetizadores e influências do reggae – outro gênero essencialmente negro.

As letras de Grace também eram bastante significativas e representavam bem a temática do afrofuturismo. Na faixa “This is”, ela canta “esta é a voz / estas são as mãos / esta é a tecnologia / misturada com a banda/ você está indo para a luz? / você está livre do medo hoje?”. Em “Slave to the Rhythm”, palavras que remetem à ancestralidade negra e ao histórico de escravidão, relacionados a uma nova situação: “machado na madeira / em um tempo antigo / fogueiras queimam / corações batem forte / cante alto / a canção dos prisioneiros / nunca pare / continue, continue”.

Mais recentemente, vários artistas vêm trazendo elementos afrofuturistas a seus trabalhos, ainda que de forma distinta de como isso se apresentava nas décadas anteriores. Esses artistas são essenciais para entendermos como o afrofuturismo se dá hoje. É o caso de Janelle Monáe, por exemplo. A cantora chamou a atenção do público e conquistou grande popularidade cantando com a banda Fun na faixa “We Are Young”, lançada em 2012. No entanto, antes mesmo da banda surgir ou do hit estourar em todas as rádios mundiais, Janelle já estava produzindo música e se destacando no meio. Em 2010, lançou seu primeiro disco, The ArchAndroid. Se o título já não é elucidativo o suficiente por si só, a arte da capa do CD deixa clara a presença do afrofuturismo. O conceito por trás da produção também é significativo: o androide do título é Cindi Mayweather, alter-ego da cantora que habitaria a Terra por volta dos anos de 2700.

Fora dos Estados Unidos, o cantor e compositor angolano Nástio Mosquito é um dos principais representantes do movimento nos dias de hoje. Suas canções têm a presença de ritmos tipicamente africanos, além de influências contemporâneas. Nástio declara que é, acima de tudo, um contador de histórias, e que, para ele, o ponto de partida é sempre a palavra, característica que ele atribui à tradição oral africana que traz consigo. Com as palavras, o cantor pinta um retrato de um país que, após anos mergulhado em uma guerra civil sangrenta, tenta se reconstruir, mas não deixa de lado as críticas sociais ao mesmo tempo que oferece a visão de uma África menos estereotipada. Seus clipes contribuem para isso. Neles, apresenta-se é apresentada uma África futurista, com muitos tons metalizados e efeitos de dupla exposição que parecem brincar com o novo e o tecnológico em contraste com o antigo e o natural.

Outro destaque do movimento afrofuturista atual é o duo franco-cubano Ibeyi. Queridinhas no universo indie do caribe, as gêmeas Lisa-Kindé e Naomi Diaz misturam jazz, batidas eletrônicas, instrumentos africanos e trechos cantados em iorubá, dialeto com origem na Nigéria.

Mas e o afrofuturismo brasileiro?

No Brasil, o número de artistas que se consideram afrofuturistas cresce a cada ano. Um dos principais nomes é o Senzala Hi-Tech, grupo musical que mistura batidas de hip hop a ritmos herdados diretamente da cultura africana. Em uma conversa que tivemos, abanda disse idealizar o que é “ser África hoje”, com a herança deixada aos povos ameríndios e afrolatinos, projetando seu futuro. “E esse modo de pensar, agir e fazer arte faz parte da nossa luta, pois vai totalmente contra esse projeto que o status quo racista sempre teve para o país”, dizem.

O resultado é uma música multifacetada, com referências da música eletrônica, do jazz eletrônico experimental, do dub, do samba, da bossa nova e até mesmo de músicas temas de filmes japoneses. A construção dessa sonoridade rica em diversidade, eles contam, foi muito facilitada pela internet e pela possibilidade de pesquisar mais a fundo sobre temas que chamam a atenção do coletivo, cujos membros têm formações bastante diferentes entre si. O Senzala Hi-Tech se completa em suas diferenças e é atravessado pela tecnologia da informação.

Uma das faixas mais representativas do grupo é “Baile da Meia Noite”. A melodia, a letra e o clipe respiram afrofuturismo. O enredo cria essa atmosfera, que começa em um dia comum e conduz a uma imersão na ancestralidade, misturando o clima de terreiro com a pista de dança. O vídeo se torna ainda mais interessante e rico quando se descobre que uma das locações de filmagem foi a Fazenda Roseira, em Campinas. Trata-se de uma fazenda de café fundada em 1850, espaço que é hoje utilizado como casa de cultura.

“Nas mãos dos descendentes dos negros escravizados, aquela casa grande agora segue os rumos ditados pela própria comunidade negra, que descobriu sua força e capacidade de criar suas próprias narrativas. Além da ancestralidade e energia que se põe à mostra a cada passo que você dá dentro dos espaços da fazenda, já conhecíamos também o caráter socioeducativo e o forte papel de resistência cultural negra que o local representa. Então tudo isso deu todo o clima que precisávamos”. (Senzala Hi-Tech)

Outro expoente do afrofuturismo brasileiro é a rapper Tássia Reis. Cantando que “a revolução será crespa”, criticando a sociedade patriarcal e a desigualdade social, ela deu origem em 2016 ao álbum Outra Esfera, uma verdadeira explosão de afrofuturismo para além da capa com toques de psicodelia. Tássia consegue alternar uma voz suave (e bastante poderosa) e um tom incisivo, e essa maleabilidade, quando combinada com a diversidade de ritmos em suas canções, faz a excelência e a singularidade de seu trabalho.

Como movimento de resistência, o afrofuturismo se constrói em torno da necessidade de projetar um futuro em que o protagonismo negro se faça presente. Há pelo menos 40 anos em atividade, a arte afrofuturista tem encontrado cada vez mais espaço nas mídias, principalmente com a internet. A busca de identidade que caracteriza o movimento se traduz em sua diversidade, trabalhando a ancestralidade negra de forma multidisciplinar – não somente com arte, mas com tecnologia, ciência e história.

Na concepção do Senzala Hi-Tech, o afrofuturismo “é desconstruir um passado que nos foi imposto e construir um presente longe das amarras eurocêntricas estabelecidas”. E não é só para eles. Todos os músicos que fazem parte do movimento, seja por meio de sua sonoridade, estética ou letras, trabalham para criar uma arte que reconheça e resgate a história das comunidades negras. Através deste resgate, buscam construir um cenário de valorização cultural no qual a população negra tenha sua voz verdadeiramente ouvida aqui e em diversos outros planetas.