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Africania usa jazz e dub para criar uma versão contemporânea do som do candomblé

Dizer que as raízes africanas estão na origem da musicalidade brasileira já virou um clichê. Do samba ancestral ao manguebeat, há toda uma longa e conhecida história dos tambores do candomblé que atravessaram o Atlântico, se misturaram à cultura branca e sobreviveram a revolução tecnológica para ainda estarem vivos no século XXI. No tambor que se escuta ao fundo daquele hit radiofônico, percebe-se o candomblé como um detalhe sempre presente mesmo em manifestações artísticas que parecem muito modernas. O grupo baiano Africania, que traz a sonoridade candomblé em sua estética, tem ainda assim uma originalidade na forma como se apropria dessa influência afro: ele não faz música pop com elementos do candomblé; ele faz candomblé com elementos de música pop. O candomblé contemporâneo do grupo, que desafia e encanta, é a trilha do seu disco de estreia, Ori, lançado recentemente.

Capa do disco "Ori", do grupo baiano Africania

O disco é uma reprodução modernizada do som que embala as festas dos terreiros de matriz africana, tocado por uma banda acostumada com este ambiente de fé, mas também muito antenada ao que a música negra absorveu como influência ao longo do último século. Nas canções do álbum, tradição e modernidade se alternam de forma muito natural. O processo para lançar o disco em questão, no entanto, não ocorreu com essa mesma naturalidade. Numa rápida entrevista, Bel da Bonita, líder do grupo, explicou para mim a cronologia confusa do trabalho que foi gravado em 2008, mas que só agora veio a ser lançado.

“Tivemos em 2008 a possibilidade de gravar”, contou, “mas não tivemos desde então os recursos necessários para bancar uma capa decente e uma tiragem mínima. Então o disco ficou guardado por alguns anos… algumas faixas vazaram em trilhas de filmes e teatro, até que o lançamento foi finalmente viabilizado no final de 2015”. Neste processo, foi fundamental a aprovação do projeto ORI – Africania em Circulação em edital do Fundo de Cultura da Bahia, algo que bancou a tour de divulgação que tem percorrido o nordeste.

Bel da Bonita tem a sua base criativa em Feira de Santana (BA), é figura carimbada na cena baiana há algum tempo e esteve presente em alguns dos maiores momentos da música em seu estado tocando nas bandas de apoio de Gilberto Gil e Geraldo Azevedo. No Africania, ele acumula cargos e funções: canta, compõe, produz, arranja, toca percussão e encara até o teclado em algumas faixas. Se as rugas e a barba grisalha tiram dele o adjetivo de “jovem”, sua vontade de fazer a cena independente acontecer após tantos anos é jovial como sempre foi.

Bel da Bonita

Bel da Bonita, um jovem senhor à frente da modernização dos cantos do candomblé.

Para ele, produzir música é antes de tudo um ato de fé, seja lá em que exatamente esteja depositada a fé do artista. Afinal, ser artista é viver numa adversidade constante e se sacrificar diariamente acreditando em algo que vai surgir no horizonte. Ação, portanto, mas baseada em fé pura. Em Bel, especificamente, essa fé na arte e na sua gente passa pelos orixás, e é essa a história contada no disco de estreia que finalmente ganhou o mundo.

Quando a fé de Bel se transformou em música, ela obviamente virou um som de candomblé, não só na forma como no texto. A força e o misticismo da natureza, elementos básicos da fé africana, estão nos títulos de “Nas Matas”, “Cachoeira” e “Canoa Canoa”. Oxalá, Exu, Ogum, Nanã e outras entidades são homenageadas nominalmente. Em alguns dos melhores momentos do disco, cantos ancestrais yorubás são citados quase que na íntegra, formando um universo bem fiel às apresentações do gênero.

No som, ambiências e profundidades sonoras são embutidas entre uma e outra jam instrumental para reproduzir em estúdio os rituais do candomblé que tradicionalmente ocorrem ao ar livre. No elenco, uma banda não tão grande – mas com experiência nos terreiros da vida – multiplica canais e sobrepõe trilhas para formar uma verdadeira multidão de instrumentistas e recriar o que as bandas do candomblé executam ao vivo com elencos muito maiores.

Garantida a “cara de terreiro” que Bel queria dar ao trabalho, foi a vez de buscar inovações que oferecessem a esse som novas saídas estéticas. Tudo com muito cuidado, conforme ponderou Bel: “O candomblé não é só tradicional: é religioso”. Andar por ele exige, portanto, “responsabilidade”, segundo o mentor do projeto.

Quando a fé sobra, surgem os tais elementos que dão originalidade ao som. Nos improvisos e nos diálogos de um instrumento com o outro, um flerte fino com o jazz; na cozinha cheia de grooves que apresentam momentos mais crus, está lá um pé cravado no dub. E até essa modernização ganha cores sacras: musicalmente, o disco une a raiz africana à negritude jamaicana e norte-americana, ajudando a entender que tudo isso realmente vem do mesmo lugar.

Na fonte de onde brotou Ori, ainda adormecem outros discos já gravados pelo Africania ao longo da última década, mas que enfrentam o mesmo obstáculo amargo do filho pródigo: a falta de recursos, que adia o lançamento de todos estes trabalhos e pede paciência ao tempo.

Na escassez das políticas públicas que garantam a diversidade cultural e a viabilidade de manifestações artísticas deste tipo, resta por enquanto procurar caminhos onde for possível e esperar onde não houver alternativa. Nessa espera, talvez ajudem os cantos contidos no disco de estreia do grupo, especialmente os direcionados a Oxum, entidade que segundo a crença africana rege o processo de fecundidade. Que ele então seja generoso com o Africania e dê vida ao que está por vir, para o bem do jazz, do dub, do candomblé e da África que ainda há em cada um de nós.


Se interessou? Escute o álbum completo no YouTube e acompanhe a banda na sua fanpage.