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Supervão

A Lezma Records e a refundação da cena de Porto Alegre

Teve uma época em que Porto Alegre era um ambiente generoso para quem produzia cultura ou buscava por entretenimento longe do mainstream. Eu não fiz parte dessa época. Cheguei um tempo depois, por azar da idade. Foi uma época de bandas que nem cheguei a ouvir e de lugares, como o tão falado Garagem Hermética, onde nunca cheguei a pisar. Muitos desses lugares deixaram de existir com o tempo e durante um determinado período deram lugar ao vazio. Espaços de arte autoral se fizeram raros, as rádios de maior popularidade fecharam as portas para os artistas locais, hits tomaram conta das caixas de som e muita banda boa deixou de existir por falta de espaço ou de público.

As coisas começaram a mudar somente de uns dois anos pra cá, graças à movimentação dos selos independentes. A Lezma Records, em especial, marca que melhor soube enxergar as brechas e carências da vida noturna da capital, está escrevendo uma nova história e fazendo com que a tão falada cena, comentada por muitos e entendida por poucos, aconteça mais uma vez.

Supervão

A banda Supervão em uma festa do selo realizada na Casa de Teatro de Porto Alegre.

A Lezma Records nasceu do mesmo boom da auto-produção independente que deu origem aos selos Honey Bomb Records e The Southern Crown, tudo naquele período entre 2013 e 2014. Embora o contexto de surgimento seja praticamente o mesmo para todos esse selos, cada um adotou posteriormente a sua estratégia específica para sobreviver. A Lezma, por exemplo, entendeu que precisava reunir as pessoas e reafirmar a música como uma coisa a ser escutada em grupo. Como a cidade vivia uma seca de espaços e iniciativas para quem queria tocar ao vivo, o próprio selo criou os seus espaços na região.

Mario, Leo e Ricardo, as cabeças por trás da Lezma Records, já produziam algumas festas ao ar livre em Porto Alegre. Acumulavam erros e acertos daqueles fundamentais para quem quer aprender como fazer as coisas. Acumulavam também uma bagagem que foi fundamental na hora de saber com quem falar para abrir caminho para a produção cultural que pedia passagem. Logo se tornaram um selo, com papel de produtora e práticas de coletivo artístico.

vdd

Entre discos, EPs e singles que iam sendo liberados pelo selo nas redes sociais, as primeiras festas organizadas começaram a aparecer, tomando diferentes espaços da cidade, de clubes com toda a estrutura pronta a sobrados históricos sem nem uma mesa para o bar.

Essas festas passaram a ser o que o selo precisava para movimentar pessoas ao seu redor. Apareciam com diferentes formatos, nomes e lineups, mas quase sempre mesclando DJs e som ao vivo. O som ao vivo quase sempre envolvendo as bandas que compõem o selo, fazendo com que o momento de diversão do público seja também uma espécie de showcase da marca Lezma. Uma fatia da vida alternativa de Porto Alegre voltava a ter por onde transitar e o interesse do público em geral só aumentaria com o passar dos meses.

A sexta-feira é o mais humano dos dias

(Por Carlos Viegas)

A vida é cheia de ironias estranhas que têm mais graça do que sentido. Uma dessas ironias foi a primeira coisa que me veio à mente quando soube do primeiro EP da banda Supervão (Lezma, 2015): o guitarrista e o vocalista da banda moravam na mesma pequena cidade que eu, haviam frequentando os mesmos lugares que eu durante a adolescência e haviam até dividido alguns amigos comigo, mas nunca havíamos nos cruzado antes. Meu primeiro contato com os dois foi através da obra deles mesmo. Ali, ouvindo as músicas, eu inevitavelmente pensei no quanto até as cidades pequenas podem parecer grandes às vezes. Também pensei em como é difícil se dar conta de tudo o que acontece de bonito ao nosso redor quando boa parte das horas diárias é de pura correria, com horários e metas a cumprir.

Ser humano no século XXI é ser uma complexa estrutura de carne e osso que precisa funcionar como máquina durante as seguidas jornadas de esforço repetitivo. Para melhor funcionar como máquina, criamos algumas estratégias de anulação da nossa subjetividade: formas de sentir menos, receitas práticas para não oscilar nas emoções, medidas básicas para deixar de chorar e sorrir… quanto mais frios nos tornarmos, mais próximos estaremos da produtividade e da performance diária perfeita pela qual somos tão cobrados. Enquanto perseguimos essa perfeição humanista moderna, pessoas aparecem volta e meia figurando no nosso campo de visão sem que nunca tenhamos tempo de saber direito quem elas são de fato.

No meio dessa rotina cada vez mais objetiva, a sexta-feira é cada vez mais exceção. É o dia em que baixamos a guarda e nos permitimos ser sentimentais outra vez. Quando penduramos o crachá, dividimos o espaço, a bebida e o barulho com pessoas tão cansadas quanto nós e nos permitimos socializar, aprender e apreender sem qualquer objetivo lógico, não deixamos de ser meio-humanos/meio-máquinas, mas manifestamos ali a nossa vontade de seguir cultivando afetos mesmo contracenando com tanto hardware. Na descontração permitida pela conversa com um estranho que nunca vimos, sobrevivemos à modernidade e até por isso parecemos maiores do que ela. Esse sentimento de grandeza em meio ao caos, em meio ao pós-humanismo, típico da sexta-feira, é o que eu gosto de acreditar que seja a tal vitória cantada pela própria Supervão no EP Lua Degradê.

Porto Alegre sempre foi uma cidade resistente aos males globalizados. Quando boa parte do planeta erguia torres de concreto, a população local abandonava as paredes e transformava o espaço público em lugar de encontro, ocupando orlas, parques e afins. No auge do individualismo meritocrático da década de 90, a população local decidia o destino da verba pública em assembleias populares. Não é surpresa que, no auge da frieza humana, no apogeu dos algoritmos e da liquidez, a mesma cidade, por meio de artistas e agitadores dos mais diversos tipos, comece a organizar espaços onde as pessoas possam se olhar nos olhos, dar brecha para o imprevisível e momentaneamente desistir de serem modernas. E também não é surpresa que a Supervão, pós-humana por excelência, entenda tão bem essa dinâmica e esteja transitando por cada um desses novos espaços de contracultura.

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Ir a uma VDD, Lo-Life, Neu Tripicália ou qualquer outra festa realizada pela Lezma é experimentar o gosto daquilo de mais novo que existe na cena local da capital gaúcha. É ouvir as discotecagens de DJs estreantes, ter a oportunidade de assistir a shows de bandas que ainda estão em seus primeiros lançamentos, ver performances, instalações e exposições de artistas que estão terminando os seus cursos de artes nas universidades da região e fazer parte da construção de uma nova cena independente/alternativa, formada por beats, luz negra, guitarras, sintetizadores, pickups e palcos à margem da João Alfredo. É participar de rolês que ajudam a expandir a bolha em que o cenário independente vive, alimentando a possibilidade de uma cena sólida, com cara e até com endereços próprios, porque ninguém quer ser regional, mas parece lógico que é preciso abraçar a cidade para poder ser abraçado por ela.

VDD na Casa Frasca, na última semana de novembro.

VDD na Casa Frasca, na última semana de novembro.

Você vai chegar na portaria e vai ver o baixista da banda cobrando o pessoal. No bar, talvez dê de cara com a artista visual que produziu as colagens penduradas na parede, e no balcão ela estará servindo as bebidas. Os rostos que você via pipocarem diariamente em mil timelines vão aparecer de repente ao seu lado e você verá que todo mundo é gente como você. E talvez você até se impressione com isso. No fumódromo, vai dar de cara com a moça da rádio indie local e na passagem entre a pista e alguma outra sala, verá uma exposição de algum artista gráfico que você já viu na rua mas que ainda não sabia o nome.

O formato encontrado pela Lezma para aproximar diferentes públicos, usando essa aproximação para alimentar todo um ecossistema cultural, talvez seja uma novidade em Porto Alegre que supera a própria inclusão tecnológica sempre tão alardeada. Unir bandas locais, comunicadores, produtores, integrar veículos, coletivos e marcas que estão num mesmo rolê é criar um espaço para todos esses atores conviverem, trocarem e fortalecerem uns aos outros.

A nova cena independente de Porto Alegre anda assim e por isso é tão inovadora, porque a ajuda mútua e o encontro continuam sendo mais inovadores do que qualquer conjunto de beats e bytes.