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Charly Garcia, o Renato Russo deles sobreviveu aos anos 90

5 discos para entender o rock argentino

A Argentina está ali do lado, influenciando a nossa economia, a nossa política externa, as nossas rotas turísticas e a nossa forma de enxergar a América Latina. Ainda assim, é impressionante que culturalmente a gente tenha absorvido tão pouco desse país que está tão perto – e olha que escrevo de Porto Alegre, no sul do Brasil, onde o câmbio cultural com os hermanos sempre foi mais tentado do que no restante do país. O rosarino Fito Páez, por exemplo, até tem por aqui uma boa base de fãs, a banda porto-alegrense Nenhum de Nós já regravou Charly García nos anos 90 e a banda Vera Loca, também formada no Rio Grande do Sul, ainda faz bastante sucesso com a música “Borracho y Loco”, versão brasileira para “Lamento Boliviano”, dos Enanitos Verdes. Quanta integração, não é mesmo? Mas, acredite, até para os gaúchos é difícil montar uma playlist de rock argentino com mais de dez nomes.

Charly García, o Renato Russo deles sobreviveu aos anos 90 - cinco discos para entender o rock argentino

Charly García: o Renato Russo deles também era genial e usava um bigode estranho, mas sobreviveu aos anos 90.

Expandindo para o âmbito nacional, algumas experiências de aproximação também foram tentadas por artistas de massa do centro do país. Os Paralamas do Sucesso (RJ) e o Capital Inicial (DF) também regravaram artistas argentinos em diferentes momentos da carreira. Fora isso, o grupo argentino Soda Stereo, um dos mais importantes surgidos em terras vizinhas, chegou a ser um pouco ouvido no eixo Rio-São Paulo durante a década de 90. Ainda assim, o rock dos hermanos continua sendo um terreno escuro até para alguns ouvintes brasileiros bem curiosos e acostumados a garimpar coisas por aí. A verdade é que, a despeito da atenção dada pelos brasileiros, o rock vizinho possui uma boa história e uma série de discos clássicos. Então, para começar a conhecer o que se faz com as guitarras por lá, nada melhor do que começar justamente pelos sons mais fundamentais.

Agustin Diez, editor portenho do blog Basta De Pensar, nos deu uma ajuda nessa tarefa de listar os cinco discos fundamentais já produzidos pelo rock argentino. Confere a lista, espia os comentários dele e depois me conta quantos desses discos você já conhecia.

Artaud (Pescado Rabioso), 1973 – a pedra fundamental do rock argentino

“Tanto pela popularidade quanto pela sensibilidade artística, Luis Alberto Spinetta se consolidou como um dos principais ícones do rock argentino. Em Artaud, gravado com sua ex-banda Pescado Rabioso, ele estava em seu auge criativo. Chega a ser um pouco absurdo apontar o auge de um artista que lançou mais de 30 álbuns ao longo da vida, mas a verdade é que os 36 minutos deste disco são de uma perfeição inigualável até mesmo para o próprio Spinetta. A banda na época já estava se separando e abrindo caminho para que Spinetta (corpo, alma e coração do Pescado Rabioso) iniciasse a sua barulhenta carreira solo, mas os últimos esforços do grupo, registrados neste disco, são uma boa síntese do conjunto que revolucionou a música argentina em seu curto período de atividade nos primeiros anos da década de 70″.

Manal (Manal), 1970 – o rock argentino abraça novas referências

“O álbum homônimo e terceiro disco de uma das fundadoras do rock argentino ficou também conhecido como ‘la bomba’, por trazer em sua capa uma bomba prestes a explodir. O disco é sempre lembrado por ter sido o primeiro trabalho de blues lançado em língua na América Espanhola, o que faz dele o precursor de toda uma série de bandas que apareceria pelo continente nos anos 80 e 90. O disco também é peça-chave na compreensão da idolatria criada sobre o vocalista do grupo, Javier Martinez, um tipo de outro planeta reconhecido como o primeiro baterista/frontman da história do rock”.

Clics Modernos (Charly García), 1983 – os sintetizadores chegam ao rock argentino

Charly García apresenta uma série de contradições ao longo de sua extensa obra, que também é muito variada em termos de qualidade, com coisas geniais, outras somente boas e outras até de gosto duvidoso (nesse último grupo, talvez se encaixe aquela fase ‘Say No More’ e seus resultados na década de 90). No entanto, nem os discos mais fracos do artista são capazes de ofuscar a qualidade e a importância de Clics Modernos, lançado em 1983. Se eu não me engano, aqui Charly se tornou o primeiro a usar um sintetizador para produzir música na Argentina, o que já faz do disco um marco estético importantíssimo. O trabalho em geral é recheado de efeitos sintéticos, como sintetizadores, teclados e até bateria eletrônica. A produção, feita nos EUA, foi idealizada para gerar uma obra-prima, que no entanto acabou não sendo bem recebida inicialmente pelos fãs, conquistando vendagens irrisórias. Até hoje comenta-se sobre o que poderia ter causado tamanho insucesso na época. Fala-se do péssimo momento econômico vivido na Argentina naquele início de anos 80, quando o país ainda saía de uma rígida ditadura militar. Comenta-se também que a quantidade de inovações trazidas pelo trabalho teria produzido um disco de difícil compreensão, que até por isso só foi receber o devido reconhecimento quando foi redescoberto pelas gerações seguintes”.

After Chabon (Sumo), 1986 – o rock argentino escreve o hino de Buenos Aires

“Até hoje ninguém sabe como isso aconteceu, mas Luca Prodan, italiano, acabou escrevendo algumas das músicas fundamentais do rock argentino. Ele nasceu em Roma, mas mudou-se para Argentina em 1981 e, já na nova casa, formou a banda Sumo, que ficaria na ativa até a morte de seu líder, em 1987. After Chabon é, portanto, o último trabalho de Prodan em vida e é o melhor trabalho da Sumo na minha opinião. O disco traz a icônica canção ‘Mañana En El Abasto’, que narra o amanhecer no bairro Abasto, em Buenos Aires. A música é até hoje reconhecida como uma das mais marcantes cantadas sobre a capital argentina e já chegou a ser considerada a mais admirada canção do rock argentino em todos os tempos”.

Folklore (Pez), 2004 – o rock argentino no século XXI

“Parece meio descontextualizado listar um trabalho tão recente em uma lista com tantos clássicos, mas a verdade é que, para entender o rock argentino em sua totalidade, há que se saber o que ele vem produzindo atualmente a partir dos alicerces deixados pelas gerações mais antigas. Na minha opinião, a Pez tem sido já há alguns anos o grande nome do rock na Argentina. O guitarrista Ariel Sanzo já definiu a banda como um grupo punk que foi sofrendo mutações ao longo do tempo. Em Folklore, encontramos a Pez vestida com ares progressivos, honrando toda uma tradição do rock argentino construído desde a década de 70, além de também resumir muito bem o que se ouvia no país àquela época, indo da local Pescado Rabioso ao norte-americano Frank Zappa“.

Escrito originalmente em junho de 2016 aqui mesmo no NY e remixado em julho de 2017, quase no aniversário de um ano do post.